Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Príncipe desiste e Joseph Blatter é reeleito presidente da Fifa

Ali bin Hussein é superado no primeiro turno e retira candidatura

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2015 | 14h19

Joseph Blatter, de 79 anos, foi eleito para seu quinto mandato no comando da Fifa nesta sexta-feira em meio à uma série de acusações e prisões de corrupção no futebol mundial, como a de José Maria Marin, da CBF. Mas comandará por mais quatro anos uma entidade falida moralmente, com a ameaça da fuga de patrocinadores, um racha inédito com a Europa e uma oposição interna muito superior ao que esperava.

Nesta sexta, com o apoio de pequenas federações, o cartola suíço superou o jordaniano Ali bin Hussein e se manteve no cargo, apesar da crise em sua casa deflagrada pelo FBI, dos Estados Unidos. Blatter entrou para a Fifa em 1976. Dedse 1998, ele é seu presidente. 

As detenções de cartolas nos últimos dias em Zurique chegaram a dar um impulso para a campanha de Ali. Mesmo num curral eleitoral de Blatter, como na América do Sul, o príncipe Ali chegou a ganhar alguns votos, como o do Uruguai e Peru. A CBF também indicou que estava decepcionada com Blatter e se dizia inclinada a votar por Ali. 

Os números das urnas mostraram, porém, que o novo reinado de Blatter terá uma forte oposição. Ali forçou um segundo turno, somando 73 votos, contra 133 para o suíço. Mas antes da segunda edição de votação, o jordaniano retirou sua candidatura, dando a vitória a Blatter. "Não sou perfeito. Mas vamos trabalhar. Prometo que vou dar uma Fifa forte a meu sucessor", disse. Ele também rejeitou a acusação de velho. "A idade não é um problema. Tem muita gente de 50 anos mais velha do que eu", atacou.

Blatter assume a Fifa em sua pior crise. A Europa chegou a alertar nesta semana que vai reunir seus membros no próximo fim de semana para determinar até que ponto vai manter a relação com a Fifa. Um dos representantes da Uefa na entidade, David Gills, indicou que vai renunciar de seu cargo na Fifa diante da permanência de Blatter no comando. Um dos riscos é de que seleções e clubes europeus se recusem a participar de torneios da Fifa, provocando um racha inédito no futebol mundial.

Para tentar evitar a pressão de Blatter sobre os eleitores, principalmente os menores, a federação americana pediu que o voto fosse secreto. Por anos, Blatter tem distribuído recursos para as federações e para cartolas pelo mundo. Antes da votação, membros da CBF indicaram que consideraram a atitude de Blatter como uma "traição" diante da falta de apoio a José Maria Marin e à crise de corrupção na entidade. O Brasil, depois de declarar seu apoio à Blatter, estava inclinado a mudar de lado. Marco Polo del Nero, no Brasil, não disse que a comitiva brasileira votaria em Blatter.

Mas Blatter mantém o cargo em uma entidade falida moralmente e agora mais dividida. Antes da votação, ele pediu por "unidade" e prometeu criar novos organismos dentro da Fifa para fortalecer o futebol mundial. Disse ainda que não conseguia controlar todos os seus membros em relação à corrupção. Chegando a se emocionar e arrancando palmas da plateia, fez um apelo. "Eu só quero ficar com vocês", disse, com a voz embargada e tremendo. "Não precisamos de revolução, mas de evolução,", disse. "As pessoas me chamam de responsável por tudo. Está bem. Então assumo isso e vamos juntos para que, ao final de meu mandato, possa entregar uma Fifa forte, fora da tempestade", disse. "Eu prometo uma Fifa forte."

"Precisamos fortalecer as fileiras e ir adiante. Vamos recolocar a Fifa nos trilhos e vamos começar amanhã mesmo com isso", disse. O cartola também rejeitou a tese de que estava por muito tempo na Fifa. "Mas o que é a noção de tempo? O tempo é eterno", disse. Para ele, os 17 anos de presidência foram "curtos". Blatter insistiu que foi ele quem estabeleceu regras para tentar controlar o comportamento dos cartolas e garante que existe uma divisão de poderes dentro da entidade. "Mas não podemos controlar todos fora da Fifa", disse. Ele também alerta que cabe às confederações regionais agir para se reformarem. "Só assim poderemos ter maior controle. Em nenhum país um tribunal pode agir sozinho."

ENCRUZILHADA

Ao discursar antes da eleição, Ali havia feito um duro alerta e proliferou ataques velados ao cartola que venceu o pleito. "Tudo está em jogo", declarou. "A Fifa não existe numa bolha. O mundo nos olha. A Fifa não é uma pessoa", alertou. "Não poderia ver um momento mais decisivo para Fifa que este e temos o direito de um novo começo", insistiu. "A mudança não ocorre em um dia. É um processo. Precisamos de uma cultura que apoie transparência", apelou. "Estamos numa encruzilhada e precisaremos de um líder para arrumar essa confusão em que estamos."

RICO

A pior crise da história da Fifa coincide com seu momento de maior exuberância financeira. Durante o Congresso da entidade nesta sexta, em Zurique, a Fifa apresentou suas contas e apontou para uma receita recorde de US$ 5,7 bilhões graças ao sucesso comercial da Copa do Mundo no Brasil. No total, os lucros somaram US$ 338 milhões. Entre 2011 e 2014, contratos de TV aumentaram em 43%, contra aumento de marketing de 29%. Em média, a receita aumentou em 37%, uma taxa inédita.

Hoje, a Fifa está sentada em um fundo de reserva de US$ 1,5 bilhão. "A Copa do Mundo foi muito boa para nossos parceiros comerciais", comemorou o vice-presidente da Fifa, Issa Hayatou, diante das 209 federações. Em apenas dez anos, as reservas aumentaram em cinco vezes. Hayatou ainda apontou que parte desses lucros é compartilhado aos cartolas de todo o mundo. Em quatro anos, a entidade distribuiu às federações nacionais e regionais um total de US$ 261 milhões. "Todos lucram com o sucesso da Fifa." Ele ainda garantiu que, entre 2015 e 2018, os resultados serão mantidos, assim como a distribuição de dinheiro.

Já o auditor chefe da Fifa, Domenico Scala, faz seu alerta sobre o controle das atitudes dos dirigentes. Segundo ele, nos últimos anos a Fifa adotou uma série de medidas para garantir transparência e combater corrupção. "Mas para que possamos vencer, precisamos acabar com a cultura de corrupção que existe", declarou. Antes de ser eleito, Blatter disse que as investigações de corrupção feita pelo FBI vai mostrar muito mais. É nesse cenário que ele assume a Fifa por mais quatro anos.

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