Rivaldo quer dividir responsabilidade

Roberto Carlos chegou na Granja Comary pedindo paz. Romário fechou a primeira semana de treinos dando um recado de que será o salvador da pátria. E Rivaldo? Bem, Rivaldo repetiu hoje o que vem dizendo há mais de dois anos. "A responsabilidade de resolver os problemas da Seleção Brasileira não é só minha. É de todos". Ele foi o último a se apresentar ao técnico Luiz Felipe Scolari.Veio de Barcelona sábado, passou o domingo com a família em São Paulo, e hoje já estava no campo da Granja, em Teresópolis, treinando. Foi o primeiro contato com Scolari e a primeira experiência no novo esquema tático em que, na teoria, sua função será a mesma que exerce no Barcelona. "Não é bem assim. Jogar no clube é uma coisa, na Seleção é totalmente diferente. No Brasil, só mostram as coisas boas minhas no Barcelona e todo mundo quer que eu jogue daquele jeito. Lá também não é todo dia que dá tudo certo para mim, mas ninguém vê. Por isso que me cobram para jogar na Seleção o que jogo no clube". É o Rivaldo de sempre. O jogador que já foi eleito o melhor do mundo ainda teme as cobranças da imprensa, torcida... Hoje, fez questão de ressaltar que ainda não se livrou desse estigma. "Me preocupa porque só cobram de mim. Fiz uma grande Copa do Mundo em 98, uma excelente Copa América em 99. Fiz coisas que muitos jogadores ainda não fizeram, mas quem é sempre cobrado sou eu. Ninguém faz essas perguntas sobre cobrança, responsabilidade, aos outros jogadores. É só o Rivaldo". O desabafo não combina com o bom momento que o jogador vive na Espanha e com o entusiasmo de Scolari para encaixar o craque no seu esquema tático. "Eu conversei com o Luiz Felipe por telefone antes da convocação.Depois, brinquei dizendo que guardaria um gol de bicicleta, como aquele que fiz para o Barcelona contra o Valencia, para a Seleção.Vi pela internet que ele falou sobre o meu gol de bicicleta. Não é bem assim.Aqui temos grandes jogadores e a responsabilidade não pode ser só minha". A sua responsabilidade, garante o jogador, é jogar bem. Tão bem como está sua vida na Espanha, onde desfruta de enorme prestígio. Seu livro "Memórias de Rivaldo" está vendendo muito bem e, em breve, será lançado no Brasil com uma versão em português. Em casa, ele garante que tudo corre sem problemas. O momento é tão especial que resolveu homenagear seus dois filhos com os nomes das crianças grafados nas chuteiras: Rivaldinho (6 anos) e Tamirys (4 anos) em cada lado do calçado. O problema mesmo é recolocar a Seleção Brasileira no curso natural da história. Rivaldo disse que volta com muita vontade apostando que o grupo formado por Scolari pode resgatar o Brasil do abismo. "Os jogadores experientes voltaram e tenho certeza que a Seleção será mais respeitada. Antes, não desmerecendo os mais novos, não havia respeito. São jogadores que ainda não têm muito nome. Com os experientes a expectativa é outra. Mudou o técnico também e todos querem ajudar. Espero que o Luiz Felipe continue até a Copa do Mundo". Rivaldo conheceu Scolari em uma visita que fez ao Palmeiras em 99.Conversaram 30 minutos. Depois voltaram a se falar apenas há 15 dias quando o técnico subiu ao trono da Seleção. Hoje, trocaram algumas idéias depois do treino da manhã. Antes de ouvir o técnico, o meia do Barcelona passou uns 15 minutos conversando com Romário, sentados no campo enquanto os colegas ainda corriam atrás da bola. Rivaldo deu detalhes do assunto reservado. "O Romário disse que estava satisfeito com a minha chegada. Falou que agora ele não seria mais o centro de todas as atenções na Granja Comary e até pediu para que eu saísse primeiro do campo porque assim toda a imprensa viria em cima de mim e ele saíria de fininho até o vestiário". A estratégia dos craques deu certo. Os repórteres correram para ouvir Rivaldo e Romário se livrou das entrevistas. A expectativa se transfere para o jogo de domingo com o Uruguai. Rivaldo pode ser a isca para atrair os marcadores e Romário teria trânsito livre para marcar os gols. "A chegada de Rivaldo animou todo o grupo. É um jogador de peso.Tem muitas qualidades. É bom ter ele aqui por que a gente vai dividir a responsabilidade na Seleção", insinua Romário. Resta saber se Rivaldo entendeu a proposta de Romário.

Agencia Estado,

25 de junho de 2001 | 16h45

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