Rivaldo terá de matar mais um leão

O senhor Borba Ferreira não tem nada que ver com Rivaldo. O primeiro é um aprendiz de executivo do futebol, o segundo é um craque. Os dois são a mesma pessoa. Rivaldo Victor Borba Ferreira vive, aos 29 anos, o apogeu da carreira. No campo, é gênio, ainda que incompreendido no Brasil. Fora, entabula os primeiros negócios mais sérios investindo na compra de times de futebol. Hoje, Rivaldo calça as chuteiras para enfrentar o Uruguai no Centenário. Amanhã, quem sabe um terno fino para cuidar de seus empreendimentos. Entre o executivo e o craque há certa distância. O homem de negócios não sofre críticas. O que domina a bola com elegância é alvo de um bombardeio. Rivaldo, o empreendedor, está feliz da vida com as atividades econômicas. Rivaldo, o jogador, continua atormentado pelas críticas.Não é pelo o que dizem dele em Barcelona, onde é canonizado todos os domingos no Camp Nou. A bronca é com o que comentam dele no Brasil. Basta vestir a sagrada camisa amarela para arder no caldeirão. "As pessoas querem que eu jogue na Seleção como jogo no Barcelona. Se esquecem de que no Barcelona não jogo bem todas as partidas. Querem que eu marque um gol de bicicleta na Seleção como marquei lá no Valencia. Não é assim." De nada adianta desabafar a cada convocação. Os incrédulos continuam de plantão querendo de Rivaldo algo mais. O camisa 10 repete o discurso. "A responsabilidade de salvar a Seleção não pode ser só minha. Nem bem chego no Brasil e a imprensa vem me cobrar. Já fiz coisas boas que muitos jogadores ainda não fizeram na Seleção, mas ninguém vai cobrar esses jogadores." Discriminação - Rivaldo tem convicção de que as cobranças são fruto de uma discriminação sem fim. Nordestino, de família quase miserável, ele desceu da periferia do Recife para vencer no Sudoeste. Tem muita gente, diz o jogador, que não aceita essa vitória. "Já fui chamado até de mercenário porque ganho bem no Barcelona, tenho uma boa casa lá e um carrão. Se esquecem que lutei muito para chegar onde estou." A pecha de mercenário incomoda. No ano passado, em setembro, na véspera de a Seleção enfrentar a Bolívia pelas Eliminatórias, no Maracanã, Rivaldo sentiu uma dor no coração. "O ônibus da Seleção vinha chegando no hotel e um menino na calçada, sem camisa e descalço, fez dedo para mim, me mandando me f... Fiquei triste pra caramba. Já fui um menino pobre como ele." Nesse mesmo dia, ele fez um desabafo contra a fome da mídia para criar e destruir celebridades. "Fui eleito o melhor jogador do mundo e a imprensa quer que eu apareça toda hora. Não preciso arrumar uma loiraça ou matar alguém no trânsito com um carrão para dar notícia." Rivaldo gosta de ser discreto. É quase o avesso de Ronaldinho. As coisas íntimas, guarda para a sua família. Não esconde apenas a paixão pelos filhos Rivaldinho, de 6 anos, e Thamyris, de 4. "São minhas jóias. Um dia resolvi pôr o nome do Rivaldinho na chuteira para dar sorte. A Thamyris viu e ficou com ciúme, tive de pôr o nome dela também para não arrumar confusão em casa." As crianças da casa não são as únicas a que ele se dedica. Rivaldo tem uma sociedade com César Sampaio, companheiro desde os tempos em que jogaram juntos no Palmeiras, em 1994. Os dois compraram um time de futebol, o Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, em São Paulo. O clube modesto abriga quase 400 meninos que sonham em ter um futuro como Rivaldo e Sampaio. Comprador de clubes - A sociedade avança. Nos próximos dias, eles devem adquirir o Figueirense, de Santa Catarina - um negócio estimado em US$ 500 mil. E ensaiam outra transação com um clube pequeno do Rio. O fim é o mesmo: revelar jogadores para o futebol europeu. Depois de seis temporadas na Espanha, Rivaldo se sente capacitado para cuidar do próprio nariz. Dispensou os serviços do megaempresário Jose Minguea, homem influente no mercado espanhol, que virou manager do Barcelona. O último negócio de Minguea foi a compra do passe de Geovanni, do Cruzeiro, por US$ 18 milhões. Geovanni foi uma indicação de Rivaldo. O negócio ainda gera polêmica no clube. Rivaldo quer mais. Seu livro de memórias, lançado na Espanha, no mês passado, encaminha para a segunda edição e deve ser lançado em breve no Brasil. Narra as dificuldades e prazeres do início paupérrimo no Recife até as regalias em Barcelona. Não seria possível contar no livro que ele vai fazer hoje no Centenário, contra os uruguaios. Rivaldo entra em campo sabendo que milhões de brasileiros estarão diante da tevê prontos a cobrar dele 90 minutos de perfeição. Não cobrariam se fosse apenas um jogador comum.

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