Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

Rivaldo, um craque às avessas

Mesmo com o penta e o título de melhor do mundo, tímido meia de 41 anos luta contra o descenso na Série B

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Mãe é mãe, mas nem dona Marluce assiste a todos os jogos do filho Rivaldo pelo São Caetano na disputa da Série B do Campeonato Brasileiro. Os mais chegados dizem que ele continua a jogar aos 41 anos só pela "cabeça dele". Ele sempre foi assim, de opinião. Rivaldo deu de ombros para o marketing e as badalações, escolheu Angola e Usbequistão, entre outros palcos insólitos, e agora luta para não ser rebaixado. Mesmo com a aura de pentacampeão com Felipão em 2002 e de melhor jogador do mundo com o Barcelona em 1999.

Amigos acham que ele não precisaria passar por isso. Na semana passada, o São Caetano levou seis da Chapecoense e Rivaldo entrou no segundo tempo. Ele não está alheio à campanha, compra briga no vestiário e vive cada jogo como se ainda estivesse no Barça. Não quer que o time do ABC repita no Brasileiro o fiasco do rebaixamento do Campeonato Paulista. "É difícil explicar o que está acontecendo com a equipe. Não temos elenco para isso. Falta vergonha na cara", esbravejou.

A frase de Rivaldo chama a atenção pelo conteúdo, pela forma e pelo ineditismo. A timidez sempre foi um dos seus diferenciais. Avesso ao marketing e aos louvores que fazem os astros levitarem acima dos mortais, o meia criou sua noção própria de sucesso. "Rivaldo nunca trabalhou bem o marketing pessoal. Ele sempre tomou decisões que faziam bem para ele sem se importar com as questões mercadológicas", avalia Fabio Wolff, professor de Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios.

Na visão do técnico do São Caetano, Sérgio Guedes, a introspecção é um ponto em que o quarentão poderia melhorar. "Estou instigando isso nele. Ele se impõe pela história, pela qualidade técnica, mas precisa falar. Quando ele fala, todos ouvem", conta o treinador.

A escolha dos clubes também vai na contramão e subverte a noção de que o craque tem de parar por cima. Antes do São Caetano, Rivaldo viveu altos e baixos na Grécia e Usbequistão. No São Paulo também não engrenou. "Sou um defensor de que temos de sair do palco quando ainda somos aplaudidos de pé", diz José Edilson, amigo de infância. Obviamente, o conselho entra por um ouvido e sai pelo outro. "Tenho admiração pessoal pelos atletas que continuam tentando. Eles mostram que a busca pelo prestígio é secundária", contrapõe a professora Clarisse Seyton, coordenadora de MBA em Marketing Esportivo da ESPM.

Nas andanças de Rivaldo, faltou dizer que ele jogou em Angola em 2012. No país que ocupa a 89.ª posição no ranking da Fifa, ele deu mais do que recebeu. "Ele ajudou os colegas a jogar com qualidade, sem rodeios nem fintas desnecessárias, como é característico do futebol nacional. Deixou saudades", analisa Teixeira Cândido, editor de Esportes do jornal angolano O País.

Destinos extravagantes não estão nos próximos passos. Depois que concluir o contrato com o São Caetano, o meia pretende se apresentar em janeiro ao Santa Cruz, clube no qual começou a carreira e que completa cem anos no dia 3 de fevereiro de 2014. Depois, o outro jogo festivo será em 19 de abril, quando Rivaldo completará 42 anos. Aí sim deve fazer o jogo da despedida.

FORÇA

Por baixo da pele magra, do rosto encovado e das pernas arqueadas, está a musculatura de um herói. Daria para fazer um livro sobre sua vida, mas o período entre 1997 e 2002, quando fez chover no Barcelona, não pode passar batido. Em 1999, foi eleito o melhor do mundo. Em 2002, com a seleção, foi protagonista da campanha do penta ao lado de Ronaldo.

Por cima da pele magra, Rivaldo tem cicatrizes. A mais funda é a morte do pai após um atropelamento quando ele tinha 16 anos. Romildo Vítor, humilde jardineiro da prefeitura de Recife, foi atropelado por um ônibus e faleceu por falta de assistência médica. O craque mostrou que a ferida está aberta, 30 anos depois, durante as manifestações políticas na Copa das Confederações. "Até hoje dói quando lembro que meu pai foi atropelado e morreu por não ter sido atendido em um hospital público de Recife", desabafou.

A carreira de Vado, seu apelido de infância, quase se foi junto com o pai. Pudera. Romildo lhe dera o primeiro par de chuteiras, um luxo para o salário minguado de servidor municipal. E o levara para as divisões de base do Santa Cruz. Foi dona Marluce quem teve de segurar as pontas.

As chuteiras que Rivaldo usa ainda no treino do São Caetano não devem ser muito diferentes daquelas dadas pelo seu Romildo. De longe, lembram o antigo Kichute, qual adulto não se lembra dessa marca? As chuteiras de Rivaldo destoam das fosforescentes, amarelas e douradas que passeiam nos pés vinte anos mais jovens.

Apesar de rico, o craque é um cara humilde que sai do treino de chinelo, camiseta branca e bermuda. Não usa anéis, correntes, óculos. Tem carrão, uma Range Rover branca, mas cumprimenta os funcionários e mostra que não se desfez das lembranças sofridas na periferia de Recife. Aos 11 anos, Vado pegava um tabuleiro e vendia doce pelas ruas do município chamado Paulista, no Recife. Talvez por isso os amigos dizem que ele é mão de vaca hoje em dia...

Faltou responder a uma questão fundamental: por que Rivaldo continua a jogar? "Ele faz porque gosta", explica Leto, amigo do carrossel caipira do Mogi Mirim, de 1992, outra referência obrigatória na carreira.

Toda paixão, no entanto, é prima da obsessão. E, em alguns momentos, o meia passa do ponto. Quando teve uma lesão no joelho esquerdo e ficou quase quatro meses parado, ficou preocupado com o que pensariam. "Ele queria apresentar os exames para a diretoria para mostrar que estava mesmo contundido", diz Roberto França, fisioterapeuta do São Caetano.

Ainda se orgulha de alcançar os 20 km/h na esteira no teste ergométrico, superando os mais jovens. Vai entender a cabeça dos craques.

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