Arte/Estadão
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Rivellino: 'O garoto não joga mais com alegria'

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ex-jogador de Corinthians e Fluminense e campeão do Mundo em 70, craque lamenta a crise técnica do futebol no País

Entrevista com

Roberto Rivellino

Leandro Silveira, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2019 | 09h00

Ouça o podcast de Roberto Rivellino e confira a entrevista, por escrito, logo abaixo

O futebol brasileiro está em crise. Sem vencer uma Copa do Mundo desde 2002 e ainda carregando o peso da derrota por 7 a 1 para a Alemanha em 2014, também acumula fracassos nas divisões de base, como nas recentes campanhas nos Sul-Americanos Sub-17 e Sub-20. Nesta quarta-feira, o Estado prossegue com a série para debater a qualidade do futebol brasileiro, e neste capítulo 2 entrevista Roberto Rivellino, campeão mundial em 1970, craque de Corinthians e Fluminense e um dos símbolos dos melhores momentos da história do futebol nacional (para ver o Capítulo 1, com Paulo Roberto Falcão, confira aqui).

Para ele, o principal problema está na formação e captação dos garotos nas divisões de base. A entrevista também pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo. O conteúdo será publicado no canal Estadão Esporte Clube. Confira a entrevista de Rivellino. No capírtulo 3, o Estado ouve o ex-goleiro Emerson Leão

Por que o futebol brasileiro está em crise?

Todo mundo fala que evoluiu taticamente, mas o problema do futebol brasileiro é de técnica, da qualidade dos jogadores. Está muito mal. Na minha época não tinha sub-8, sub-9, mas apenas infantil e juvenil. A gente jogava bola no espaço de uma rua e era feliz. Por isso, um problema crucial é a base. O treinador do sub-8 já tem de ganhar torneios, o propósito é esse. Você pega um garoto e dá essa obrigação a ele, então ele não joga com alegria e faz um jogo mecanizado.

O futebol brasileiro, então, perdeu a sua essência?

Perdeu o DNA. Sempre fomos ofensivos. O Santos tomava três gols e fazia cinco. Perdemos a qualidade, o driblador, que não existe mais, o camisa 9 não existe mais, está jogando pelas laterais do campo. O futebol ficou muito sem graça. Você faz o gol, não pode vibrar porque está ofendendo alguém. Se driblar, está menosprezando o adversário. E ainda tem a torcida única (nos clássicos paulistas).

A impressão é que muitos jogadores da base sobem ao profissional sem os fundamentos básicos. Por que isso acontece?

A escolha é errada. Eu nasci com o dom de jogar bola. Aperfeiçoar é uma coisa, você tem deficiências e trabalha muito isso. A captação da qualidade é o problema. Hoje, parece que todo mundo pode ser jogador, basta correr e destruir. Quero ver ser diferente. Na minha época, quem falava que jogava em várias posições, era dispensado. A parte física, você prepara um garoto em dois meses. A seleção sub-20 (que disputou o Sul-Americano no início do ano) foi um absurdo, não vi um garoto diferente. A base precisa mudar o conceito, educar o driblador, que parece ser um jogador que não tem mais nos times. A qualidade é tirada do garoto, que fica bitolado como uma máquina em um estilo de jogo.

Faltam ex-jogadores trabalhando na base?

Não tenho nada contra ninguém, mas é preciso entender qual é a essência do nosso futebol. Deixar um pouco de lado a estatística, deixar de pensar que o jogador precisa ter 1,90m de altura. Hoje, o jogador corre muito, mas não produz nada. O que você precisa na base são pessoas que mudem o conceito, buscando qualidade. Tem muito moleque para trabalhar isso, mas também precisa ser uma política adotada pelos presidentes dos clubes.

Por que as seleções de base do Brasil chegaram ao fundo do poço?

O problema está na captação da qualidade. Se você tem qualidade ofensiva, o nosso DNA, você pode correr riscos de levar um ou dois gols, porque vai fazer quatro. Mas se você não tem isso, o jogo fica equilibrado. Na minha época, a gente ganhava da Venezuela jogando de costas. A seleção, antes, tinha os 22 melhores jogadores brasileiros. Hoje, se chama os que são melhores taticamente. O futebol passou a ficar errado quando o treinador se tornou mais importante do que o jogador.

A saída dos jogadores muito cedo para a Europa atrapalha na formação deles?

É ruim. Na minha época, não havia esse mercado nervoso. Imagine se fosse assim na época do Pelé? Ele já estaria fora com 16 anos. Mas eu também não sou hipócrita, também sairia. Não há planejamento. Durmo pensando na Champions League, que poderia ter jogado. É a qualidade que ganha, o mais competente. É um espetáculo. Claro que seria bom ter Neymar e Vinicius Junior no Brasil, mas o maior problema para mim é o ir e voltar rápido. Aqui está mais fácil jogar futebol. Veja o exemplo do Gabigol, que mal jogou em Portugal, foi artilheiro aqui no ano passado no Santos e a Inter de Milão nem o chamou de volta porque lá não ia jogar. O Vizeu (está no Grêmio) também nem jogou.

O Neymar recebeu a braçadeira de capitão do Tite no ciclo para a Copa do Mundo de 2022, mas, de fato, ele tem perfil para liderar a seleção?

Ele não tem perfil de capitão, ao contrário do Thiago Silva e do Miranda. O Neymar mudou os conceitos dele, está mais preocupado com a vida fora de campo. O foco dele, para ser o melhor do mundo, mudou, parece que não há mais interesse. Como tem se portado, acho que será difícil ser o melhor do mundo porque a vaidade fala mais alto. Infelizmente, porque Deus deu um talento grande para ele. Se ele só jogasse futebol, penso que seria o melhor do mundo. Mas, às vezes, ele faz uma partida maravilhosa, com três gols, e aí faz um gesto que fica mais falado. Hoje, quando se fala do Neymar, as pessoas esquecem o que fez, o chamam de cai-cai. Ninguém mais fala da qualidade do futebol dele, e ele tem muita. Ele teve uma contusão séria, recebeu a liberação do clube para vir ao Brasil e aí se expôs de um modo que não há necessidade. Você não vê Cristiano Ronaldo e Messi fazendo isso. Eles têm uma vida focada no futebol. Se eles fazem bagunça, é bem feita.

Como você avalia o trabalho do Tite à frente da seleção brasileira?

No começo, bem. Mas o Tite não teve humildade para ter um plano B na Copa. Ele também insistiu com o Willian fora de posição. Quando desrespeitou a ordem, no jogo contra o México, fez a sua melhor partida. E parece que demorou 45 minutos para o Tite entender o time da Bélgica. Ficou parecendo que o Tite, que vinha fazendo um trabalho consistente, quis puxar a glória para ele, como se a seleção só fosse campeã nas mãos dele. Ele tem de ficar, mas precisa mudar conceitos e jogadores.

Faltou uma reformulação maior na seleção após a Copa do Mundo?

Existe uma obrigação, e ele quer ganhar a Copa América. Ele está trazendo jogadores para isso, mas se forem nomes que não vão para a Copa em 2022, é melhor o Tite arriscar. A crônica e o povo precisam entender isso, que logo teremos Eliminatórias. Mas será que ele vai arriscar ou vai pensar na Copa só mais na frente? Há posições complicadas também. Hoje, não temos um lateral-direito e ele precisou recorrer ao Daniel Alves.

A demora na reformulação da seleção pode afetar a preparação para a Copa do Mundo?

Não tem trabalho, o objetivo é ganhar a Copa América, ainda mais sendo no Brasil. Se perder a Copa América, o Tite sabe que vão pedir a saída dele. Então, ele se agarra aos nomes que têm confiança para dar o retorno. E, devagarzinho, vai reformulando e mexendo no time. É também difícil ter a certeza se alguns novatos vão dar certo na seleção. 

Há a avaliação de que existe uma falta de identificação do torcedor com a seleção. Isso se dá porque o jogador sai muito cedo do País ou porque a equipe praticamente não joga mais no Brasil?

Há o interesse financeiro. Se você analisar, 90% dos jogadores da seleção estão lá fora. Termina o jogo, todo mundo vai embora. Antigamente, era diferente. Jogávamos aqui. Havia uma identidade maior por isso. Antes, se faziam três seleções de qualidade. Hoje, você monta uma e ainda discute alguns atletas dela. Se o nível no País fosse alto, o Tite chamaria mais jogadores que atuam no Brasil. Hoje, só tem o Everton, é muito pouco. O nosso futebol está muito pobre.

Até que ponto a gestão e o calendário provocam danos para o futebol brasileiro?

Antes, jogávamos um campeonato só, mesmo que fossem em jogos de quarta e domingo. Hoje, é um absurdo, com muitas competições. A Copa do Brasil é mais valiosa financeiramente do que o Campeonato Brasileiro, o nosso principal torneio. Com isso, muitos clubes deixam o Brasileirão de lado, pensando financeiramente. Acho que devia acabar com a Copa do Brasil, tirar os times da Copa Sul-Americana para valorizar o Campeonato Brasileiro, deixá-lo mais forte.

Por que ex-jogadores não estão tão envolvidos na gestão do futebol nacional?

O Leonardo foi trabalhar com futebol, mas lá fora, porque é mais organizado. O Raí está sofrendo no São Paulo, até tomando decisões erradas, mas não sei se ele tem o poder. Lá fora, você tem o poder nas mãos, aqui é mais difícil, tem outros valores, uma ciumeira tremenda. Também é preciso ter vocação e gostar. Eu tive uma experiência no Corinthians e não gostei, nunca mais voltaria. Foi uma decepção. Os bastidores são muito difíceis. Aqui, você não vai ter todo o poder e até perde a idolatria.

O futebol brasileiro está muito previsível?

Sim, 99% dos treinadores jogam de uma mesma maneira, só tendo dois ou três que têm uma proposta de jogo diferente, como o Sampaoli (no Santos), que se propõe a buscar o jogo quando tem a bola. Tem o Renato Gaúcho (no Grêmio), que para mim é o maior treinador do Brasil hoje, pela maneira como propõe o jogo. E tem um que é muito questionado, tem uma proposta muito diferente que é o Fernando Diniz. Eu adoro. No modo geral, a preocupação é jogar pelo resultado, e as torcidas estão se acostumando, como se 1 a 0 fosse goleada. O Corinthians foi campeão em 2017 ganhando assim, empatando e todo mundo ficou feliz. Ganhar é importante, mas nosso DNA sempre foi o futebol ofensivo. Fomos pentacampeões com futebol agressivo, qualidade e jogadores que desequilibravam. A preocupação hoje é defensiva, com o papo de dar a bola ao adversário. E a bola é a coisa mais preciosa que existe no jogo.

Por que os clubes brasileiros têm enfrentado dificuldades nos torneios continentais?

Está tudo muito igual. Não é só no Brasil. O futebol argentino também está muito fraco. Hoje, é uma dificuldade ganhar de um time venezuelano. Antigamente, você era melhor e ganhava. Hoje, você não tem jogador que quebra a linha. A gente não consegue nem apontar qual é o grande jogador sul-americano. A obrigação de ganhar não se dá mais pela qualidade, mas pelo investimento, que são os casos de Palmeiras e Flamengo no Brasil.

Faltam técnicos com convicção no futebol brasileiro, por causa do medo de demissão?

Não tem trabalho, você tem de ganhar. Mas acho que o treinador, que é um coitado, deveria ter mais convicção. Pensar que, se você vai embora de qualquer jeito, como fizeram com o Aguirre no São Paulo, então coloque as suas convicções em campo. Teríamos um futebol mais bonito, mais ofensivo. Estou cansado de ver futebol defensivo.

A chegada de profissionais estrangeiros ao futebol brasileiro como o Sampaoli pode ser interessante?

Ele foi o único diferente que chegou e me agradou. Ele tem proposta. É dinâmico, busca o jogo, tenta ficar com a bola. Gosto do trabalho dele, pode tomar de 5, como foi contra o Ituano, mas não muda o plano. Os conceitos não mudam e isso eu gosto muito no trabalho dele.

Você já disse que o Renato Gaúcho é o melhor técnico do futebol brasileiro. Por que essa avaliação?

Ele me agrada porque deixa o jogador alegre, jogando com liberdade para fazer o que sabe. Respeita a característica do jogador e gosta do futebol bem jogado. É claro que tem preocupações defensivas, mas quer jogar com a bola. Conquistou muito, mesmo perdendo jogadores no Grêmio, e jogando bem.

Falta personalidade ao jogador brasileiro hoje?

Acho que é preciso falar e isso não é desrespeito. Quando o Zagallo me falou para jogar na ponta-esquerda, eu disse inicialmente que não ia, porque iria atrapalhar o time. O Willian também deveria ter feito isso com o Tite. O treinador manda, mas também precisa escutar. Falta um diálogo aberto, falta o jogador mostrar que não rende em determinada função. Lembro que, na seleção, o Mano Menezes colocou o Hernanes na ponta-direita. Não jogou bem e nunca mais voltou para o time.

O Vinicius Junior pode se tornar um craque mundial?

É um bom jogador. Tem qualidade, é rápido, mas ainda tem de aprender a passar, a chutar. Ele tem dificuldade para finalizar. É novo, mas não sei se vai conseguir melhorar. Então, não sei se é diferenciado. O último diferenciado que surgiu foi o Neymar e isso já faz dez anos.

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