Sebastian Widmann / EFE
Sebastian Widmann / EFE

Robert Lewandowski: A fabricação da máquina de gols do Bayern de Munique

Atacante polonês pode igualar o recorde de Gerd Müller, de 40 gols em uma temporada da Bundesliga

Rory Smith, The New York Times

13 de maio de 2021 | 15h00

Robert Lewandowski não qualifica isso como pensamento. Pelo menos não como pensamento consciente. Naqueles momentos em que está com a bola no pé e tem o gol em seu campo de visão, mesmo depois de todos esses anos, mesmo após conquistar legitimidade suficiente para se considerar o mais completo, mais implacável, mais lapidado atacante de sua geração, ele não está pensando.

Ou mais especificamente: ele não está consciente de si mesmo pensando. Não está avaliando possibilidades e escolhendo as melhores. Pensar toma tempo, e não há tempo. “Não há nem mesmo meio segundo para pensar no que fazer nem como fazer”, afirmou ele.

E, ainda assim, ele está pensando. Ou mais especificamente: ele está aprendendo. Está absorvendo informação, analisando, registrando. Houve um momento num jogo do seu Bayern de Munique contra o Borussia Dortmund, em março, em que Lewandowski recebeu a bola na beira da grande área. Ele deu um toque e chutou para o gol. Não foi, admitiu ele, um tiro “perfeito”. A bola passou por cima do travessão. Lewandowski desviou o olhar, desapontado, lamentando a oportunidade desperdiçada.

Mas não houve nenhum desperdício. Em uma fração de segundo, Lewandowski, de 32 anos, ainda notou os seguintes fatores: onde Marwin Hitz, o goleiro do Dortmund, estava posicionado em relação à linha do gol; quando e como Hitz se preparou para reagir ao chute; e a complexa interação de ângulos que acompanharam os movimentos.

Ele introjetou aquilo tudo, computou as informações e chegou a uma conclusão. “Pensei que na próxima vez talvez seria possível fazer o gol chutando a bola entre as pernas dele ou mirando no segundo pau”, afirmou ele. Lewandowski guardou as informações.

Cerca de uma hora depois, o Bayern tinha se recuperado de dois gols sofridos no início do jogo. Lewandowski tinha marcado dois: um a queima-roupa e outro da marca do pênalti. O Bayern ganhou por 3 a 2.

Nos minutos finais da partida, Alphonso Davies, do Bayern, cruzou uma bola para Leroy Sané. Em vez de dominá-la, Sané fez uma finta e permitiu que ela corresse até Lewandowski, que se adiantava. De repente, Lewandowski estava novamente na mesma posição que esteve no primeiro tempo: na beira da grande área, com a bola nos pés e o gol em seu campo de visão.

Novamente, ele não estava pensando. Seu inconsciente tinha tomado conta. Mas dessa vez ele tinha toda a informação que precisava. O primeiro toque abriu o ângulo. O segundo disparou uma bola rasteira, fora do alcance de Hitz, na direção do segundo pau. “Eu tinha encontrado a solução”, afirmou ele.

O caminho mais direto para o gol

Atacantes, via de regra, não tendem a ser muito exigentes. Seu pragmatismo é arraigado em um entendimento de que todos os gols valem o mesmo: uma bola roubada de um goleiro que a deixou cair sem querer perto da linha não resulta em um gol mais ou menos valioso do que uma bola que encobre o goleiro ou um gol de bicicleta. Mérito artístico não vence partidas.

Surpreende um pouco, então, que Lewandowski confesse ter um tipo favorito de gol. E não é o tipo de gol que esperaríamos de um jogador cujo brilhantismo tem fundamento na economia. Ele não gosta, segundo ele mesmo define, “de se mostrar demais”. Ele não toca na bola mais que o necessário; cada ação é tomada somente se serve ao objetivo último de marcar um gol.

Essa falta de floreio é sua marca. É por isso que o primeiro instinto de seu colega de time Thomas Müller é, sob qualquer circunstância, passar a bola para ele. “Sempre tento encontrar o caminho mais direto para o gol”, afirmou Müller. Como regra geral, afirmou ele, esse caminho passa por Lewandowski.

E ainda assim há um tipo de gol que Lewandowski gosta mais do que qualquer outro, o gol que Müller descreve com desdém como “chute de circo”. “Se eu conseguir marcar de fora da área, é uma vantagem”, afirmou Lewandowski.

Ele pode, pelo menos, ser exigente. Ele marcou, afinal, uma quantidade enorme de gols: 38 nos dois anos que jogou pelo Znicz Pruszkow, o primeiro clube profissional em que atuou no país onde nasceu, a Polônia; 41 nas duas temporadas que jogou pelo Lech Poznan; e 103 em quatro anos de Dortmund. No Bayern, de algum modo, sua trajetória avançou de maneira ainda mais acentuada.

Hoje, ele registra 292 gols em 327 partidas pelo clube. Nesta temporada, que começou pouco após seu 32º aniversário, ele demoliu os adversários com uma regularidade devastadora de gols. Depois de mais um jogo em que poderia ter pedido música depois de marcar 3 gols, quando o Bayern lutava pelo nono título consecutivo na liga, no sábado, ele ficou próximo de igualar o recorde de Gerd Müller, de 40 gols em uma temporada da Bundesliga, com duas partidas ainda por jogar no campeonato. Esse recorde não é superado há quatro décadas, mas Lewandowski poderia tê-lo quebrado semanas atrás: ele havia marcado 35 gols nos primeiros 25 jogos, quando sofreu uma contusão no joelho, no fim de março.

Isso, de certo modo, é o que há de mais irresistível a respeito de Lewandowski. Por mais que alguns fios de cabelo estejam começando a ficar levemente grisalhos, ele não dá sinais de diminuir o ritmo. Na verdade, está acelerando. “Não sinto que tenho 32”, afirmou ele. “Me sinto melhor do que quando tinha 26 ou 27.”

Programado para golear

Quando Holger Broich olha para Lewandowski, ele não vê o que nós vemos: a destreza de seu toque, a certeza da finalização e sua frieza de pensamento. Ou melhor, ele não vê somente o que nós vemos. A visão dele vai além disso, também, até o que ele passou a perceber o real fascínio de Lewandowski, a real fonte se seu talento: a maneira, no mais profundo nível possível, que ele se constituiu.

Como diretor de ciência e preparo físico do Bayern, Broich conhece Lewandowski melhor do que qualquer outra pessoa. Ele sabe que Lewandowski é capaz de tolerar uma quantidade enorme de estresse e dor, conforme demonstra seu quase incólume histórico de contusões. Ele sabe que o metabolismo de Lewandowski permite que ele se desenvolva e se regenere, sabe que ele tem o tipo de fibra muscular que um atacante precisa.

Ele sabe que pelo menos parte disso está ligado ao DNA de Lewandowski. “Talento é um termo muito abrangente”, afirmou Broich. “Isso tem a ver com pré-requisitos genéticos, também."

Mas Broich também acredita que isso é responsável por somente “40 a 60%” da habilidade dos atletas. O restante depende de quem eles são e o que fazem com isso. E Jürgen Klopp não estava exagerando quando disse que a vida inteira de Lewandowski, por mais de uma década, foi programada para fazer com que ele marcasse o máximo de gols possível.

A transformação começou com cereais de milho. “Todas as manhãs, eu comia cereal de milho com leite”, afirmou Lewandowski. “Eu achava que tudo bem, era só o café da manhã, eu era magro, musculoso. Eu achava que tudo bem eu comer doces porque não tinha problema em manter o peso. Mas, às vezes, às 10h ou 11h eu já estava cansado, mesmo antes do treino, e não sabia por quê.”

Então, depois de completar 20 anos, ele iniciou um experimento. Cortou o leite. Passou a evitar açúcar refinado. “Senti a diferença depois de algumas semanas, alguns meses”, afirmou ele.

Mas o foco dele não era o futuro imediato. “Eu pensava que, se mudasse as coisas que mudei, isso poderia ajudar a me manter um atleta de alto nível por mais tempo”, afirmou ele. “Eu sabia que não podia esperar resultados imediatos. Fazia isso porque tinha de tentar. Eu sabia que se começasse no alto nível um pouco mais tarde, eu conseguiria ficar lá por mais tempo.”

Agora — em parte graças ao conhecimento de sua mulher, Anna, que é nutricionista — Lewandowski, pouco se sabe, faz suas refeições numa ordem geralmente tida como errada. “Se eu tiver tempo para a sobremesa, prefiro comê-la mais ou menos uma hora antes do almoço”, afirmou ele. “Não como doces com frequência, mas quando como, tento manter uma distância entre carboidratos e proteína.”

E então, até hoje ele continua tentando melhorar. Ele se interessa muito pelo trabalho que Broich e sua equipe de cientistas do esporte realizam no Bayern: os diagnósticos de performance, os programas individualizados de treinamento.

O que Lewandowski é — sua constituição física: fibras musculares, metabolismo e predisposição genética — pode se dever às suas conquistas. A outra metade se deve a quem ele é. Afinal, como afirmou Broich, “o resto tem que ser conquistado”.

O botão

No Bayern, Lewandowski ganhou tudo o que havia para ganhar. Foi escolhido o melhor jogador do mundo pela Fifa no ano passado. Está se aproximando de 500 gols na carreira e do antes inigualável recorde de Gerd Müller. Não tem que provar mais nada.

Lewandowski aprimorou seus instintos a tal ponto que consegue, sem pensar, absorver toda a informação que precisa para resolver um problema, marcar um gol, em uma fração de segundo. Ele se transformou numa máquina.

Mas até hoje cada gol ainda lhe traz uma sensação de alegria absoluta. “A gente se sente como se fosse criança”, afirmou ele. Hoje isso toma conta dele por 30 segundos, um minuto talvez.

E então após cada jogo ele é confrontado com uma escolha. “Você pode pensar, 'Já fiz um gol, é suficiente’”, afirmou ele. “E você pode perder o foco, começar a se exibir. Ou você pode pensar, ‘Já marquei um, talvez eu consiga marcar outro, um é suficiente ou você quer mais?’. Você precisa desse botão.”

Lewandowski nunca teve muita dificuldade em fazer essa escolha. Ele não precisa nem mesmo pensar. Ou mais especificamente: ele não tem consciência de que está pensando. “Você aperta o botão”, afirmou ele, e começa a pensar em fazer um gol atrás do outro. / Tradução de Augusto Calil

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