Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Rodízio de capitães de Tite dá o que falar na Copa do Mundo

Sistema implementado pelo treinador chama a atenção do resto do mundo

Ciro Campos, enviado especial / Sochi, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

Os estrangeiros consideram curioso, os brasileiros já aceitam, quem não é do futebol geralmente acha o máximo. A ideia do técnico Tite de revezar a faixa de capitão da seleção brasileira a cada partida é uma inovação na história da equipe em Copas do Mundo e uma exceção na modalidade, pois carregar a braçadeira de qualquer time costuma ser sinônimo de respeito e reconhecimento.

+ Pai defende Neymar e pede cuidado a 'parças' nas redes sociais

+ Tite deve mudar escalação da seleção brasileira para jogo contra a Sérvia

Em toda a história da seleção em Mundiais, é a primeira vez em que o sistema de rotação de capitães é utilizado. O Brasil começou com o lateral Marcelo, escalado na função contra a Suíça, depois teve Thiago Silva diante da Costa Rica e deverá contar com outro nome escolhido para o jogo com a Sérvia. A definição é sempre anunciada às vésperas de cada jogo.

A própria Fifa foi pega de surpresa. Poucos dias antes da Copa, o site oficial da entidade publicou reportagem em que indicou Neymar como o capitão do Brasil. O camisa 10, porém, só teve essa oportunidade com Tite em uma ocasião, na partida contra o Paraguai, ano passado, pelas Eliminatórias.

O treinador prega ser válido o rodízio para promover uma divisão de responsabilidades e não deixar um jogador só com o papel de líder. A rotatividade também é uma ferramenta para dar moral e premiar os destaques da equipe. Prova disso é Tite ter definido 15 capitães diferentes em 22 jogos no comando. Quem mais esteve no cargo foi Daniel Alves, quatro vezes, seguido por Miranda, com três.

O sistema causa estranhamento em jornalistas de outros países, que costumam questionar Tite sobre o assunto nas entrevistas. Em clubes europeus, há uma hierarquia de capitães, em certas vezes com até quatro opções para o posto. Mexer nessa posição costuma ser delicado e envolver vaidades.

“Antes da Copa, coloquei para vocês que havia uma série de atletas com maturidade suficiente para continuar esse rodízio de capitães”, disse Tite na última semana. O elenco garante entender a posição do treinador e assimilou desde a estreia dele, em junho de 2016, que as vagas de titular estariam em disputa aberta, mas a braçadeira de capitão jamais teria dono.

 

OPINIÕES

Para quem têm experiência na área de gestão de pessoas, a iniciativa de Tite ajuda a seleção a se fortalecer.

“A medida que o Tite coloca a faixa no braço de vários jogadores, está dando a devida importância para cada um deles. Se ele só deixa o Neymar como capitão, é como se o Neymar fosse o diretor da seleção, como se só ele fosse importante”, diz o master coach da Sociedade Brasileira de Coaching (SBCoaching), Liamar Fernandes, que trabalha há 43 anos com desenvolvimento e gestão de pessoas.

Segundo Fernandes, o fato de conseguir se relacionar bem com o elenco e ganhar respeito pela decisão incomum no futebol confere ao treinador habilidades desejadas em líderes de grandes empresas.

Já para o especialista em gestão e liderança Renato Grinberg, a postura com os capitães se assemelha a uma abordagem moderna no mercado empresarial chamada open space. Nela, desde funcionários mais simples até os diretor corporativos dividem o mesmo espaço, em um processo de empoderar quem poderia se sentir inferior.

Por outro lado, o presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac, considera o processo como negativo. “Esse tipo de situação fragiliza ainda mais a noção de união, de coesão, de grupo, de força de equipe. A ausência de um líder acaba fragilizando ainda mais o universo tanto individual como coletivo do time”, analisa Cozac. / COLABOROU ALMIR LEITE

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.