Divulgação/MP Paraguai
Divulgação/MP Paraguai

Ronaldinho e seu irmão são impedidos de deixar o Paraguai por tempo indeterminado, diz MP

Astro do futebol e o irmão Assis, que gerencia sua carreira, foram detidos por uso de documentos falsos

Juan Carlos Lezcano, de Assunção, especial para, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 11h47

Ronaldinho Gaúcho e seu irmão Roberto de Assis Moreira ficarão à disposição da Justiça do Paraguai por tempo indeterminado, segundo informou nesta quinta-feira o promotor Federico Delfino, responsável pela investigação contra os dois ex-jogadores por porte de documentos falsos. O astro do futebol e o irmão, que gerencia sua carreira há anos, foram detidos na quarta-feira e passaram a noite sob custódia das autoridades paraguaias após operação policial realizada na suíte presidencial do Hotel Resort Yacht y Golf Club, em Lambaré, vizinho a Assunção. Os brasileiros entraram no país com passaportes autênticos, mas com conteúdos falsos. Ronaldinho disse em depoimento que os documentos eram "presentes" de um empresário.

Nesta quinta pela manhã, ambos prestaram depoimento na sede do Ministério Público paraguaio, em Assunção. Em seguida, o ex-jogador foi encaminhado para o Departamento de Crime Organizado do país, onde também teve de dar explicações. "Foi checada a documentação, que chamou a nossa atenção. Para ter a nacionalidade paraguaia, ser paraguaio naturalizado, tem de estar vivendo há algum tempo no país e ter um trabalho, essas coisas. Ronaldinho é uma pessoa de fama mundial... Estou igual a vocês (incrédulos) com o assunto. Já verificamos que os números de passaporte pertencem a outras pessoas. São passaportes originais, mas com dados apócrifos. Esses passaportes foram tirados em janeiro deste ano", informou o promotor Federico Delfino. Ronaldinho está "detido" porque usou passaporte e cédulas de identidade falsas.

O profissional explicou que ambos saíram de São Paulo e desembarcaram no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi por volta das 9h05, onde receberam os passaportes e as cédulas. Portanto, eles não teriam saído do Brasil com os documentos paraguaios. Ainda de acordo com Delfino, os documentos foram expedidos e retirados no Paraguai entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano. As cédulas eram de 2019. As numerações corresponderiam a de outras duas pessoas, que não tiveram as identidade reveladas, assim como não foi informado se estão enquadradas como suspeitas ou vítimas.

Ronaldinho afirmou, em depoimento, segundo o promotor, que identidades e passaportes foram "presentes" de uma pessoa que o convidou para visitar o Paraguai. Na noite de quarta, o brasileiro Wilmondes Sousa foi detido no hotel onde estavam os brasileiros. O dia de Ronaldinho na cidade foi bom. Ele foi tratado pelos paraguaios como verdadeiro "chefe-de-Estado". Andou em uma luxuosa picape, que contava com custódia policial pelas ruas da capital. A virada começou mais à noite, quando a polícia e setores de investigação de migração receberam uma denúncia e fizeram uma batida onde ele estava hospedado. Informações oficiais são conta de que Ronaldinho foi ao Paraguai para participar de eventos organizados pela Fundacion Fraternidad Angelical. Deveria ainda apresentar seu livro de nome "Gênio da Vida".

O terceiro preso é apontado como a pessoa que entregou os documentos a Ronaldinho logo depois do desembarque no aeroporto paraguaio, antes de eles irem para o controle de migração. Ronaldinho e Assis chegaram na quarta e passaram sem problemas por toda a fiscalização paraguaia. Fontes do Ministério do Interior do Paraguai explicaram à imprensa que o Departamento de Identificação informou ao de Migrações que os passaportes não estavam registrados no sistema.

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Ronaldinho disse a ele que recebeu os documentos falsos das mãos do empresário Wilmondes Sousa Lira, também preso na operação, em sua residência no Brasil.
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Gilberto Fleitas, diretor de investigação criminal da Polícia Nacional

Em uma das cédulas, ele era o cidadão paraguaio número 3.122.656. Trata-se de um documento feito na década passada pelos órgãos competentes do Paraguai. Portanto, autêntico. Mas Ronaldinho não era seu primeiro dono. Sobre ser um cidadão paraguaio, a Constituição do país estabelece que qualquer pessoa nessa condição deve ser filho de paraguaios nascidos no estrangeiro ou ter cinco anos de residência no país e emprego fixo. Ronaldinho não se encaixa em nenhuma dessas condições.  

Presente

O comissário Gilberto Fleitas, diretor de investigação criminal da Polícia Nacional, afirmou que "Ronaldinho disse a ele que recebeu os documentos falsos das mãos do empresário Wilmondes Sousa Lira, também preso na operação, em sua residência no Brasil. Mas essa versão se contradiz com o que informou o promotor Federico Delfino, da unidade de luta contra o crime organizado do MP Paraguaio. Ele relatou que os documentos foram entregues a Ronaldinho em um salão VIP do aeroporto internacional Silvio Pettirossi quando se deu sua chegada ao Paraguai. E que os passaportes eram verdadeiros, mas perteciam a outras duas pessoas paraguaias. Estavam adulterados.  

A promotoria e a polícia paraguaia trabalham agora na checagem dos fatos com as informações recebidas. Os órgãos competentes têm 24 horas para apresentar um relatório, e uma possível pena para Ronaldinho e seu irmão. "Dentro da lei, vamos ver que medidas tomaremos", disse o promeotor, após informar que a denúncia foi feita pela Policia Nacional.

Outro lado

O advogado de Ronaldinho, em Assunção, Adolfo Marín, disse que seu cliente está sendo extorquido e que "não entende o que aconteceu". Informou ainda que sua primeira missão é tirar Ronaldinho e Assis da condição de cidadãos presos no Paraguai. Eles não podem deixar o país por tempo indeterminado. "Não entendo porque usaram esses documentos se podiam entrar no Paraguaio com qualquer RG do Brasil. Não entendo de documentos, mas acho que deram a eles por uma cortesia, um presente." O advogado informou ainda que Ronaldinho usaria sua imagem em um cassino da cidade.

Senador

O senador Fernando Lugo, ex-presidente do Paraguai e membro de uma coalisão de esquerda no país, disse que o episódio com Ronaldinho demonstra a existência de uma máfia dedicada a vender documentos falsos no Paraguai. "Não é uma coisa nova. Na década de 1970, tinha gente da Brigada Vermelha com passaporte paraguaio na Europa. Depois, veio a Máfia da Migração e tudo isso segue funcionando no país."

Problemas com a Justiça

Ronaldinho fechou acordo em setembro de 2019 com o Ministério Público do Rio Grande do Sul para liberar o seu passaporte brasileiro, que estava retido pela Justiça, o que o impedia de realizar viagens internacionais. Ele fez o pagamento, em valor que não foi revelado e acertado em acordo, que permitiu a liberação do documento. Estima-se que tenha sido R$ 6 milhões.

Anteriormente, Ronaldinho e seu irmão Assis haviam sido condenados por crime ambiental em Porto Alegre, em área protegida no Lago Guaíba. A condenação os multou em cerca de R$ 8,5 milhões. E como não havia feito o depósito do valor, o passaporte do craque havia sido retido pela Justiça, assim como o de Assis.

No ano passado, o ex-jogador foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro como embaixador do Turismo. No fim de outubro, já com o passaporte liberado, viajou para disputar partida festiva em Israel. Desta vez, ele entrou no Paraguai com um passaporte supostamente falso, mesmo com o país vizinho aceitando o RG brasileiro como documento para entrada.

/Com informações da EFE

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