Ronaldo: cinco anos depois

Há cinco anos o artilheiro Ronaldo, do Real Madrid, estarreceu o mundo. Caído no gramado do Estádio Olímpico de Roma, num choro incontido, urrava de dor e levava as mãos ao joelho direito: o tendão se rompeu completamente. Iniciou-se naquele momento uma recuperação lenta, de um atleta desacreditado por vários médicos, mas confiante em sua força de vontade, que resultaria em uma das maiores demonstrações de amor ao futebol. "Lembro de tudo, como se fosse hoje. Cada instante e minuto de sofrimento", disse Ronaldo, que no jogo retornava de uma inatividade de 144 dias, por causa de um rompimento parcial do tendão do joelho direito, que o levou a segunda cirurgia na carreira. A primeira foi em 1996 quando retirou fragmentos de cartilagem do tendão patelar do mesmo local. "Nunca pensei que iria parar. Meu amor pelo futebol, que é a minha vida, não deixava desanimar." E justamente pelo sucesso da segunda intervenção, Ronaldo esbanjava confiança em sua volta, até porque a possibilidade de um dia se submeter a um novo procedimento no local era praticamente nula. Mas, no dia 12 de abril de 2000, a Internazionale de Milão perdia para a Lazio por 2 a 1, na primeira partida da final da Copa da Itália. O atacante entrou aos 14 minutos do segundo tempo e permaneceu em campo por somente sete minutos, quando em uma de suas tradicionais arrancadas rumo ao gol sofreu a pior contusão em sete anos de carreira. A imagem de um caroço crescendo no joelho direito de Ronaldo, dando a impressão de que sua rótula sairia voando do corpo, explicitou a gravidade da contusão. Vários médicos não se furtaram em afirmar que o atacante estava acabado para o futebol. E, caso conseguisse se recuperar, nunca mais seria o jogador hábil e veloz que o levou até então a ser eleito por duas vezes, em 1996 e 1997, o melhor do mundo pela Fifa. "Hoje em dia tem muita gente por aí tendo que morder a língua. Falaram muita besteira naquela época. Tem um que não esqueço o nome, o Cohen (Moisés)", afirmou Ronaldo. "Agora estão todos calados." Diante da incerteza e de tantas opiniões desfavoráveis, Ronaldo teve por estímulo o amor pelo futebol e o nascimento do filho Ronald. E, se a princípio, a previsão feita pelo médico francês Gerard Saillant, que o operou no noite do dia 13 de abril no Hospital La Pitié Salpetriére, em Paris, era de uma inatividade de sete ou oito meses, a lenta recuperação mostrou que o prazo não seria cumprido. "Um momento marcante foi que após sete meses operado meu joelho tinha somente 60 graus de flexão. Era muito pouco, porque o normal de um atleta é ter o dobro", recordou Ronaldo em um tom de voz que não escondeu a angústia vivida. A ida para consultar um especialista nos Estados Unidos também o marcou. "O médico nem quis falar na minha frente e se reuniu com quem me acompanhava. Disse a eles que a solução seria me operar de novo. Ao saber, recusei e retornei a Paris." A confiança no médico francês foi recompensada. Entregue ao fisioterapeuta brasileiro Nilton Petrone, o Filé, aos poucos, Ronaldo se recuperou. E 17 meses e oito dias depois da contusão, contrariou vários prognósticos médicos e voltou a atuar, em 20 de setembro de 2001, pela Copa da Uefa, contra o Brasov, em Trieste, na Romênia. Após um período de contusões musculares, característica de um jogador inativo, veio o ano da redenção, 2002. Na Copa do Mundo da Coréia e Japão, o mesmo Ronaldo que há dois anos havia aterrorizado o mundo, agora, o encantava. Artilheiro da competição com oito gols, foi decisivo para a conquista do quinto mundial do Brasil. Voltou a brilhar e a colecionar títulos: foi pela terceira vez eleito o melhor do mundo, e já no Real Madrid se sagrou campeão espanhol. No ano seguinte, campeão mundial Interclubes e ainda recebeu o Laureus World Sports Award, o oscar do Esporte, de melhor recuperação. Ronaldo contou que o aprendizado foi enorme durante o seu período de recuperação. Mas, das muitas lições, frisou que uma das principais foi a de cuidar melhor do corpo. Realizar exercícios e ter atenção a aspectos físicos antes ignorados. "Tudo o que passei trouxe uma preocupação com o meu corpo. Antes nem me cuidava tanto. Não tinha preocupação com todos os detalhes", revelou Ronaldo. "Agora, todos os dias faço exercícios específicos, como alongamento e trabalho de reforço muscular." A aparente apatia ante a atual má fase é sinônimo de tranqüilidade para Ronaldo. Os difíceis momentos vividos com a contusão de 2000 o ensinaram a lidar com situações adversas, sem lhe tirar a ansiedade por novamente dar a volta por cima. Recuperação que pode ter começado no domingo, quando teve boa atuação e marcou o segundo gol da vitória do Real Madrid por 4 a 2 sobre o rival Barcelona, pelo Campeonato Espanhol.

Agencia Estado,

12 de abril de 2005 | 09h44

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