Ronaldo de bem com a vida no Real

Ronaldo entra como titular em campo neste sábado, às 15h30 (horário de Brasília), e deve jogar 60 ou 70 minutos contra o Racing Santander. O jogo será na casa do adversário e o Real Madrid não contará com Raúl e Figo, contundidos. Mas a responsabilidade não pesa mais sobre o Fenômeno. "Vou sempre ter de estar provando", diz o artilheiro da última Copa. "Isso não me incomoda."Na entrevista a seguir, feita com exclusividade, por telefone, Ronaldo reafirma estar em boas condições físicas, elogia o equilíbrio tático do Real Madrid e assegura que pode fazer gols como aqueles que fez no Barcelona na temporada de 1996 e o fizeram famoso. "Não vejo mudança no meu estilo", garante. O brasileiro afirma ainda que "seria um grande presente" ser eleito de novo o melhor do mundo.Agência Estado - Mesmo tendo feito o que você fez na Copa, as pessoas ainda têm dúvidas sobre suas condições físicas. O que você diria a elas? Você se vê jogando diversas partidas inteiras em seguida?Ronaldo - As pessoas nunca vão deixar de ter dúvidas, até porque a lesão que tive não foi comum. Vou sempre ter de estar provando. Mas estou tranqüilo, porque sei das minhas condições, e as equipes médicas do Real Madrid e da seleção sabem das minhas condições. É claro que vou chegar ao ponto de jogar diversas partidas inteiras em seguida. Mas a cada jogo vou ter de estar provando. Isso não me afeta, eu faço o que sei fazer.AE - Muita gente criticou sua ida para o Real Madrid. Você acha que a felicidade que temos visto quando você joga mostra que sua opção era correta?Ronaldo - Acho que ela também mostra. O fato de estar feliz, num time tão bom, que me ajuda bastante, já é importante. Além do mais, foi a melhor opção porque as coisas não foram colocadas da melhor maneira pela Inter de Milão. Mas ficou evidente a má vontade que havia comigo. Até na Itália, onde existe mágoa pela minha saída, muita gente percebe que existia um problema.AE - Desde que sua contratação pelo Real foi anunciada, mais de 200 mil camisas suas foram vendidas e os ingressos, mais caros, sempre se esgotam. Isso significa que sua contratação, por US$ 45 milhões, já deu quase a metade de retorno para o clube. Não falta essa percepção a muitas pessoas?Ronaldo - Claro, futebol é também negócio e envolve muito dinheiro. Fico orgulhoso de ter vendido tantas camisas mal tendo começado a jogar. Nós jogadores temos de nos preocupar em treinar e jogar bem, mas futebol também envolve tudo isso. O Real não ia me contratar para jogar dinheiro fora.AE - Mas isso faz com que o acusem de ser um produto de marketing.Ronaldo - Mas o ponto é outro. Marketing é importante, mas sempre depende do que o jogador faz em campo. Se não fosse assim, o Real ia contratar um jogador mais bonito ou carismático do que eu. Tudo está relacionado com o que faço em campo. Mesmo no período em que estive fora do campo, eu já tinha um currículo, uma história que contava muito. É bom que as pessoas tenham dúvidas, mas também é bom que saibam que, se sou produto, tenho que produzir. E o que tento fazer é isso: produzir um bom trabalho.AE - Como você vê a Copa, agora que já se passaram quase quatro meses? A impressão é que o grupo de 2002 era mais unido que o de 98 tanto fora como dentro de campo.Ronaldo - Era sim. O grupo de 98 teve tempo para trabalhar, fez diversos amistosos porque não disputou as Eliminatórias, etc. Mas só formou a equipe durante a competição. Em 2002 tivemos menos tempo, mas o Felipão tinha uma base e depois encaixou outros jogadores, como eu mesmo. E acho que houve um amadurecimento de muitos atletas de uma Copa para a outra.AE - Na Copa você fez muitos gols na área, acho que apenas naquele contra a Turquia você veio com a bola de mais de trás. Há quem interprete isso como uma mudança de estilo, uma decisão sua de reservar a energia para os momentos de finalização. O fato de você não ter feito na Copa aqueles gols que fazia no Barcelona, driblando três ou quatro adversários, não explica que muitos ainda digam que você "nunca mais será o mesmo"?Ronaldo - Acho que sim. Aqueles gols na época do Barcelona são coisas que acontecem de vez em quando. Naquele ano mesmo (1996) eu fiz três ou quatro daquele jeito que ficou famoso. Mas no futebol espanhol, vira e mexe, acontece isso. Acho que agora vai voltar a acontecer comigo. Não vejo mudança no meu estilo. Continuo com a mesma velocidade e a mesma força.AE - Como é jogar no Real Madrid? Às vezes esses "dream teams" não dão certo, mas o fato é que a equipe tem uma coerência tática: Figo arma e ataca mais pela direita, Zidane pela esquerda, Raul é leve e toca de primeira, Roberto Carlos vem da extrema-esquerda...Ronaldo - O time foi contratado assim, para ser assim. Tinha o projeto de uma equipe bem equilibrada. Tudo se encaixa no time, até mesmo as opções de reserva. É claro que as pessoas só esperam vitórias de um time como esse.AE - A propósito, aquele seu primeiro gol, um chute para a bola quicar à frente do goleiro, foi intencional?Ronaldo - Com certeza. Você pode ver pela posição do pé-de-apoio e pelo modo como o pé está flexionado. Chutei conscientemente naquela direção. Se a bola fosse direto, sem quicar, o goleiro pegaria. Foi como se faz num gol de cabeça: você manda para o chão para dificultar o goleiro.AE - Por falar em cabeceio, o seu melhorou?Ronaldo - Tenho treinado muito e melhorei sim. Acho que vou fazer uns gols de cabeça aqui. Ainda mais com o Figo cruzando.AE - No mundo todo você foi considerado o nome da Copa, mas a Fifa elegeu Oliver Kahn e no Brasil muita gente apontou Rivaldo, até o Felipão. Isso incomoda?Ronaldo - Não incomoda nem um pouco. O importante foi ter ganhado a Copa e jogado bem. É claro que fiquei feliz principalmente quando os jornais da Europa disseram que fui o melhor. São elogios que agradam, assim como aceito as críticas. O meu objetivo é sempre jogar com prazer.AE - Mas você tem chance de ser eleito de novo, pela terceira vez, o melhor do mundo neste ano.Ronaldo - Seria um grande presente. Vou esperar, mas sem muita ansiedade.AE - Você se vê jogando ainda por muitos anos? E se vê, digamos, voltando ao Brasil para jogar no final da carreira?Ronaldo - Enquanto eu me sentir bem jogando, vou jogar. Quero estar em mais duas copas, quero jogar muito ainda. Acho difícil voltar ao Brasil. Só se mudar muito. Falta estrutura, falta organização. Tenho acompanhado a campanha eleitoral, por exemplo, e fico triste porque nossos candidatos não falam sobre futebol, não têm propostas novas para os esportes. É uma pena.AE - Você intensificou seus projetos sociais?Ronaldo - Vou cada vez fazer mais, especialmente esses que relacionam esporte e educação, como o centro de fisiologia esportiva no Rio.AE - Até porque você é uma prova dos avanços da fisiologia esportiva.Ronaldo - Pois é, e eu tive de procurar médicos na França e na Inglaterra. Quem sabe o Brasil não avance nisso. O mais importante, na verdade, é a mensagem, principalmente quando os políticos estão tão sem credibilidade.

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