Wilton Júnior/ESTADÃO
Wilton Júnior/ESTADÃO

"Ronaldo e Bom Senso foram no estouro da boiada", diz Feldman

Ex-deputado atua como secretário-geral da Confederação Brasileira de Futebol

Entrevista com

Walter Feldman

Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2015 | 17h47

Se a ex-ministra Marina Silva tivesse sido eleita presidente em 2014, o ex-deputado tucano Walter Feldman, que foi seu principal operador político na campanha, estaria nesse momento despachando em algum gabinete da Esplanada dos Ministérios em Brasília. Mas a história tomou outro rumo e Feldman acabou surpreendendo o mundo do futebol (e da política)  ao assumir o cargo de secretário-geral da CBF. Quis o destino que ele tenha se tornado braço direito do presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, pouco antes de vir à tona um escândalo de corrupção de proporções inéditas e que respingou na entidade. Nessa entrevista exclusiva, o braço direito do dirigente tenta descolar Del Nero da crise, crítica Ronaldo, o Bom Senso e garante: "Não há constrangimento". 

As denúncias de corrupção constrangem a CBF?

O constrangimento foi zero. Não há nenhum problema. O Marco Polo não teve seu nome citado em nenhum momento. Passou 5 horas na Câmara e saiu ileso, apesar da determinação dos deputados. Muitos dos parlamentares estavam inclusive com matérias do Estadão que foram subsidiadas pelo (repórter) Jamil Chade (Nota da Redação: o repórter Jamil Chade não enviou nenhum material aos deputados). Há concretamente um exagero e um enquadramento do Marco Polo. Isso é injusto do ponto de vista da Constituição e do direito à inocência. Não tenho dúvida de que há uma ideia equivocada em relação à CBF: de que há uma continuidade. Marco Polo recebe o acúmulo de críticas de toda a história do futebol, como se ele fosse continuidade do modelo e do sistema. Quando você diz que a atual gestão é continuidade do passado, isso é política no futebol. 

Mas no jogo contra o México Marco Polo saiu antes do fim. Não foi para evitar constrangimento?  

Ele saiu um pouco antes porque tinha que chegar ao Rio de Janeiro para preparar a reunião dos clubes na segunda-feira. Antes esteve no hotel, cumprimentou todos os jogadores, veio junto no ônibus e esteve no vestiário. Não teve problema ou dificuldade. Marco Polo também esteve na Granja Comary. Falou com os atletas, mas não quis falar com a imprensa. O esquema de segurança foi o mesmo. Houve um exagero interpretativo. 

Como o escândalo influiu no clima da concentração?

A Seleção está muito tranquila. A vitória belíssima (contra o México) mostrou que não há nenhum tipo de conflito ou contaminação pelo excesso de notícias. Podemos chegar a Copa América com dez jogos invictos. (N.R.: a entrevista foi feita antes do amistoso desta quarta-feira contra Honduras. O Brasil venceu por 1 a 0 e chegou a dez jogos de invencibilidade).

O que mudará no estatuto da entidade?

Isso faz parte da democratização dos países e oxigenação permanente de seus líderes. Mandato será de quatro anos com uma reeleição, os clubes terão uma comissão nacional permanente na CBF e autonomia de debate dos seus problemas. Tem, ainda, o fim do poder de veto da CBF nos conselhos arbitrais. Tudo que for decidido sobre competições, valor de ingresso, rendas será decidido pelos clubes, sem interferência da CBF. 

Esse processo de democracia interna esvazia a criação da Liga? 

A Liga é feita por setores de oposição que fazem contraponto a CBF. É um movimento político. Não há elemento de dificuldade junto à CBF. A Liga aparece para criar um sistema de crítica à CBF. Isso é injusto porque a CBF cumpre seu papel sem ter nenhum retorno do ponto de vista financeiro.

Não há retorno financeiro? Estamos vendo no noticiário que não é bem assim...

Os erros cometidos por gestões anteriores estão sendo investigados. A CBF tem seu recurso auferido do patrocínio da Seleção Brasileira. Essa é a receita.

Você que pediu a retirada do nome do Marin da sede da CBF?

Quando houve a decisão do banimento provisória, a diretoria, na ausência do Marco Polo, achou que deveria sugerir a retirada do nome até o julgamento final;. Foi uma decisão coletiva. 

O nome pode voltar ao prédio?

Se ele foi inocentado temos que rever o banimento.

O Bom Senso pediu a renúncia do Marco Polo. O que achou disso?

O Bom Senso foi no estouro da boiada. Um boi fica nervoso, dispara e a turma vai atrás sem muito entender o que está acontecendo. Eu lhe pergunto: qual o motivo para a renúncia do Marco Polo? Acho estranho pedir a renúncia. Temos falado com eles reiteradamente. 

O Ronaldo, que foi um aliado, também começou a criticar a atual gestão. O que achou disso? 

Ronaldo é um extraordinário jogador, mas chutava para fora também. Nesse caso, ele também foi no estouro de uma parte da boiada. 

Vocês pretendem em algum momento assumir a defesa do Marin e do Teixeira?  

Não. Cada um responde por seus atos. Estamos fazendo uma reanálise de todos os contratos, mas não existe responsabilidade pelo que a gestão anterior.

Marin e Del Nero não eram do mesmo grupo? Você acha que o Tancredo era do grupo do regime militar? O Itamar era do grupo do Collor?

Era. Tanto que foi seu vice presidente... Estar junto não é ser do mesmo  grupo. Marco Polo entra e propõe contratar a Ernst & Young, criar um sistema de compliance, reduzir o mandato, dar mais espaço para o clube. Outras gestões não fizeram isso. O grande esforço de setores contra a gestão da CBF é dizer que é tudo a mesma coisa. Isso é onda, espuma, cena. A gestão Marco Polo tem a cara dele. É inteira nova. 

Por que escolheram João Doria para comandar a delegação no Chile? 

O futebol é uma atividade do Brasil, não de dirigentes e jogadores. Pertence a todo pensamento e alma do povo brasileiro. Um dos problemas do futebol foi ter ficado um longo período  sob a batuta dos dirigentes.  Marco Polo quer abrir completamente. Trazer formadores de opinião e agentes não militam no futebol.

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