Divulgação|Ronaldo Academy
Ronaldo e os alunos da escola de futebol na Barra da Tijuca Divulgação|Ronaldo Academy

Ronaldo Fenômeno ensina futebol aos chineses

Ex-atacante tem 33 escolas em seis províncias do país asiático; futebol completa currículo de educação física

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2017 | 17h00

Ronaldo Fenômeno foi escolhido pelo governo chinês para ajudar o país a se transformar em uma potência do futebol até 2050. A Ronaldo Academy, a escola do jogador, assinou um convênio com as secretarias de educação de seis províncias chinesas para ensinar futebol como um complemento curricular das aulas de educação física.

 Em pouco mais de um ano, já são 33 unidades espalhadas por localidades como Hebei, Sichuan e Henan. Desse total, 30 estão dentro das escolas chinesas. O número é maior até que as unidades no Brasil – hoje são 31. Ronaldo é pioneiro nesse formato, o de ensinar futebol dentro das escolas. Seu “concorrente” mais forte é o português Luís Figo, que tem 15 unidades no formato tradicional. Na China, as mensalidades giram em torno de US$ 100 (R$ 320).

O gigante da Ásia é apenas um marco da expansão mundial do negócio de Ronaldo. Ao todo, são 74 escolas no mundo, criadas no sistema de franquia em parceria com o empresário Carlos Wizard. Nos demais países, ao contrário do que acontece na China, as unidades adotam o formato tradicional, com uma estrutura própria, com quadras e campos, para as aulas.

As unidades têm a mesma cara no mundo todo. As quadras são decoradas com banners que retratam momentos importantes da carreira do jogador. Na entrada, frases como “o foco não é ensinar habilidades do futebol para pessoas, mas sim formar cidadãos através do futebol”. Em vários pontos das quadras, a marca R9 e o lema “Be phenomenal”, em inglês. “O objetivo é fazer com que o aluno se sinta ‘em casa’ em todas as unidades’, diz Rafael Bertani, CEO da Ronaldo Academy.

Todos ali preferem o termo “academia” a “escolinha”. Para eles, a academia possui “uma matriz filosófica que desenvolve a maturidade, educação, capacidade objetiva, disciplina, eficiência e foco em resultados”.

No Brasil, a abertura de uma franquia custa entre R$ 300 mil e 500 mil. Em troca, o dono da escola recebe a customização das quadras e uniformes e a vantagem de estampar a “marca” Ronaldo. Hoje, a média é de 200 alunos por unidade. Aqui, os preços variam de acordo com a região entre R$ 150 e 200.

Na infinidade de negócios do ex-jogador – marketing esportivo e gestão de imagem, futebol nos Estados Unidos, mídia digital, investimentos imobiliários, mercado publicitário, além dos patrocínios pessoais – as academias recebem atenção especial. Ronaldo acompanha de perto as unidades, esteve presente na maioria das inaugurações e participou do encontro recente com os franqueados em Águas de Lindoia. Seu próximo passo é bater cartão na abertura na Flórida.

O ex-jogador conta que decidiu abrir escolas de futebol para tentar retribuir o que conquistou e “motivar as crianças a realizar seus sonhos”. Ronaldo despista quando questionado se é mais fácil ser atacante – ou empreendedor. “Ao longo da minha carreira como jogador, tive a oportunidade de conhecer muitos empresários. Fiz grandes amigos, fechei negócios e sigo aprendendo como empreendedor”, diz o ex-jogador em entrevista exclusiva ao Estado.

Plano. Na China, a atuação de Ronaldo está inserida no plano estratégico traçado pela Federação de Futebol local que pretende investir em 20 mil centros de treinamento e 70 mil campos até 2020. Eles querem construir um campo de futebol para cada 10 mil habitantes até 2030. Neste mesmo período, o futebol masculino deve estar entre os melhores da Ásia, enquanto o time feminino deve ser um dos melhores do mundo.

Ronaldo afirma que a conquista do penta com a seleção brasileira na Copa de 2002, disputada no Japão e Coreia, abriu as portas. “A China é um país muito querido, que sempre me recebeu muito bem. Com a Copa de 2002, na Coreia e no Japão, o futebol ganhou maior projeção na Ásia, e as pessoas se apaixonaram pelo esporte. Nos últimos anos, o interesse aumentou. Identificamos a demanda e abraçamos a oportunidade de elevar o nível do futebol chinês, trabalhando na formação”, diz o segundo maior artilheiro da seleção brasileira com 67 gols em 105 jogos.


A China quer ter 50 milhões de “boleiros” em quatro anos. A partir daí, a ideia é pinçar uma seleção nacional. Até 2050, o país deve se transformar “numa superpotência de primeira linha” que “contribui para o mundo do futebol”. Esses são trechos do plano estratégico da Federação Chinesa de Futebol.

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    País comemora inchaço da Copa de 2026

    País pode ter mais chances após aumento do número de participantes a partir de 2026

    Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

    14 de janeiro de 2017 | 17h00

    Os chineses comemoraram a decisão da Fifa, divulgada nesta semana, de ampliar o número de seleções na Copa do Mundo a partir de 2026. O total de times passa de 32 para 48 e, com isso, os chineses acreditam que terão mais chances de conquistar uma vaga na Copa. A China é uma potência olímpica, mas quando se trata do futebol, está só engatinhando. Até hoje, o país só disputou a Copa de 2002 e ocupa o distante 83º lugar no ranking da Fifa.

    O cenário para a Copa de 2018 não é muito favorável. Nas eliminatórias asiáticas, os chineses estão em último lugar no Grupo 1, formado também por Irã, Coreia do Sul, Usbequistão, Síria e Catar. Até agora, foram dois empates e três derrotas em cinco partidas. No segundo turno, os chineses vão precisar de um milagre – tirar uma diferença de oito pontos para a Coreia do Sul – para alcançar uma das duas vagas diretas para o Mundial da Rússia.

     A China não quer apenas jogar uma Copa, mas também quer fazer seu próprio Mundial. Por isso, estuda se candidatar para 2026 ou 2030. O problema é que já tem gente na fila. Como o torneio de 2022 será disputado no Catar, a China não poderia ser a sede de 2026 pela regra de revezamento dos continentes – os dois países se localizam na Ásia.

    Se o foco for 2030, os chineses vão enfrentar outro obstáculo: a Copa está “prometida” para a candidatura conjunta de Uruguai e Argentina para celebrar o centenário do torneio. O presidente da Fifa Gianni Infantino se comprometeu com os uruguaios a fazer um Mundial no local da primeira edição depois de 100 anos de disputa.

    As favas não estão totalmente contadas. A favor dos chineses está a enorme infraestrutura do gigante asiático. A China é um dos poucos países no mundo com capacidade de, sozinho, sediar 80 jogos em apenas um mês de acordo com o novo formato do Mundial. Dinheiro não falta. Basta olhar a lista de estrelas mundiais contratadas recentemente, como Carlitos Tevez e Oscar. Além disso, os chineses são parceiros comerciais da “nova Fifa” e patrocinaram o último Mundial de Clubes. Obviamente, a determinação para o desenvolvimento do futebol na China veio de cima. O presidente Xi Jinping é um entusiasta do futebol.

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      Análise: Desafio chinês é sair da ‘correria’ em campo e refinar parte técnica

      Plano chinês é se tornar uma superpotência no futebol até 2050

      Felipe Corazza *, O Estado de S.Paulo

      14 de janeiro de 2017 | 17h00

      O plano chinês de se tornar uma superpotência no futebol até 2050 terá de passar por um processo que o futebol africano dos anos 90, na imensa maioria dos casos, não conseguiu completar: transformar um jogo de muita velocidade e pouca técnica em um estilo mais equilibrado. O preparo físico geral dos jogadores chineses é bom – auxilia nisso o fato de o país ter um serviço militar obrigatório de dois anos para todos os homens, mas o resultado da correria em campo não é agradável. 

      Antes dos anos 90, com o país ainda relativamente fechado e pouco interesse da população pelo futebol, a instabilidade dos clubes e a falta de consenso sobre organização de campeonatos mantinham emperrado o desenvolvimento do esporte. A entrada pesada de grandes empresas do país, como o grupo Citic, gigante que começou suas atividades no ramo imobiliário e se expandiu continuamente, foi um ponto de virada. Clubes que foram montados ou comprados pelas corporações passaram a investir com mais intensidade em jogadores estrangeiros, estrutura de treinamento e até torcida – arquibancadas passaram a ter espaços reservados para grupos organizados de torcedores recrutados pelas próprias empresas em alguns jogos, como os do Beijing Guoan, cujo proprietário é o Citic.

      Em meados dos anos 90, começaram as tentativas mais frequentes de atrair treinadores e jogadores estrangeiros para influenciar na formação técnica dos chineses. Muricy Ramalho chegou ao país em 1998. O campeonato italiano tornou-se um dos mais populares do país após acordos para que algumas das partidas fossem disputadas em horários “amigáveis” ao fuso da China. E foi a Copa de 2002, na Coreia do Sul e no Japão, que acendeu de vez o interesse chinês – especialmente o econômico – em tornar o futebol algo grande por ali.

      Ronaldo, referência da conquista brasileira na Ásia, era e ainda é uma das primeiras palavras que muitos chineses devolvem ao ouvirem que um visitante estrangeiro é do Brasil – ainda que seja na forma do “apelido carinhoso” Fei Luo, o “Rô gordo” em tradução livre. Falta, agora, que o ídolo ajude os chineses a saírem do estágio “correria” para uma fase mais equilibrada e capaz de ser competitiva no cenário internacional.

      * Jornalista e subeditor de Internacional do Estadão

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