Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Rua centenária de Moscou reúne arte, história e jogos da Copa

Milhares de russos e turistas cruzam todos os dias a via de pedestres mais antiga e conhecida da capital

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

De um lado, uma infinidade de artistas de rua: pintores, retratistas, músicos de todos os tipos, artesãos, isso sem esquecer dos milhares de livros históricos espalhados por todo o canto e ainda das lembranças típicas da Rússia e da União Soviética à venda em várias lojas. Do outro, bares modernos, com telões para quem quiser acompanhar os jogos da Copa enquanto faz sua pausa para o café, para um almoço ou para o narguilé. Entre esses dois polos opostos, milhares de pessoas cruzam todos os dias a Rua Arbat, a mais antiga e conhecida via de pedestres de Moscou, no coração da capital russa.

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Com nada menos do que 525 anos, a via ficou mundialmente conhecida por causa do romance Os Filhos da Rua Arbat, de Anatoli Ribakov. No livro, o escritor russo, que foi um dos primeiros a criticar o regime soviético, mistura ficção e realidade de jovens nascidos na região durante o regime comunista na década de 1930, quando o país era governado por Joseph Stalin.

Em mais uma rápida volta ao passado, a Rua Arbat foi um importante reduto de artistas, músicos, poetas e intelectuais russos no começo do século 19. E até hoje mantém parte dessa aura vanguardista. Fechada apenas para pedestres, ela exala seu ar cultural logo no primeiro passeio, com suas mansões luxuosas e que um dia foram propriedade da nobreza intelectual de Moscou. 

Hoje em dia, a via, que foi reformulada em 2013, tem limpeza incessante: a cada hora, caminhões fazem uma espécie de varrição geral, funcionários recolhem o lixo que escapa da máquina e ainda pequenos caminhões-pipa atravessam seus metros lavando o trajeto. 

 

Logo na primeira parte da caminhada de pouco mais de um quilômetro, várias estátuas se destacam. As primeiras formam a obra Pushkin e Goncharova, em homenagem ao grande poeta russo Alexander Pushkin e a sua mulher Natalia. A casa onde eles viviam, aliás, também fica na Rua Arbat - e está aberta à visitação. Em frente ao Teatro Eugene Vakhtangov está a Princesa Turandot, junto com uma fonte. Ainda pode-se observar uma estátua para o cantor folclórico e poeta Bulat Okudzhava.

Além das estátuas, a literatura também tem o seu espaço garantido e vendedores de livros antigos se espalham pela via. Entre as obras, muitas falam sobre o tempo do regime soviético. São textos sobre Lenin e Stalin, mapas políticos da União Soviética, histórias da Primeira e da Segunda Guerra Mundial.

Até mesmo a biografia de Pelé (em russo, é claro) estava à venda no estande de uma garota, ao lado de um dos livros da saga do bruxo Harry Potter. “Você sabe quem era esse jogador de futebol”, perguntou à reportagem do Estado a Ekaterina, a vendedora de 14 anos. Ela, desconfiada, abriu o livro e descobriu o segredo. “Ah, é sobre futebol. Pelé é alguém muito famoso no... ei, você é do Brasil?”, indagou, com cara de espanto. 

O futebol tem mesmo dado as caras na Rua Arbat nesses tempos de Copa do Mundo. Além de uma infinidade de quadros com vários personagens e paisagens típicas da Rússia, as lojas de lembrancinhas típicas estão recheadas com tudo o que se pode imaginar sobre o mundo da bola. Ímãs de geladeira, copos para vodca, chapéus russos, camisetas, moletons, matrioshkas... Além do Mundial de 2018, outro personagem que não passa em branco é o presidente Vladimir Putin. Ele aparece em canecas, roupas, bonés e em mais uma infinidade de produtos a preços bons.

Passeando pela rua estavam os brasileiros Paulo Rogério Martins e Alexandra Paris. Os dois estão acompanhando a seleção brasileira, chegaram a Moscou antes da equipe do técnico Tite e foram conhecer a Rua Arbat. “Achei legal, bonita, com bastante artista. Muita gente, a Copa tem sido muito legal aqui na Rússia”, diz Paulo Rogério. “Mesmo com esse calor, eles não bebem nada gelado”, brinca Alexandra, sobre a cerveja e a água que são vendidas pela cidade nesses dias em que os termômetros marcam 30 graus. Os dois ainda buscam ingressos para a partida de quarta-feira, no estádio Spartk, quando o Brasil encara a Sérvia.

MISHA E OUTROS URSOS

Em um cantinho escondido de uma galeria na Arbat, Mikhail, um senhor de cabelos e barba grisalhos, trabalha incessantemente com uma talhadeira. “Eu amo o meu ofício. Isso é a minha vida”, diz. Ele conta que, por causa da Copa do Mundo e do verão, as vendas estão indo muito bem. Sobre o trabalho, mostra o urso Misha, símbolo dos Jogos Olímpicos de Moscou de 1980, e vários outros ursos com uma bola de futebol. “Eu levo algumas horas para fazê-los. Alguns eu demoro até um dia ou mais, dependendo do meu humor”, diverte-se.

No fim da via, para quem desce desde a Estação Smolenskaia do metrô, fica a parte preferida das crianças. É lá que estão sorveterias, docerias e cafés, que funcionam como uma despedida para os turistas, que saem com sabor de doce na boca. Quem passa pela Arbat leva, sem perceber, uma bagagem de cultura e humanidade. Um belo passeio.

 

 

 

 

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