Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Rússia faz homenagem controversa ao criador da arma que mais matou no mundo

Estátua no centro de Moscou reverencia mentor do fuzil AK-47, que mudou a história do planeta

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 05h00

Erguida no centro da capital da Rússia, uma estátua feita em bronze e com mais de sete metros de altura provoca as mais diversas reações em quem para e contempla a obra. Não deixa de ser um tanto quanto espantoso olhar a figura de um senhor com jaqueta de piloto de bombardeio, olhar fixo e mãos firmes em uma das mais conhecidas armas de guerra do mundo, o fuzil AK-47, a sua mais conhecida criação. A reportagem do Estado em Moscou parou em frente ao monumento em homenagem a Mikhail Kalashnikov.

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Kalashnikov, que morreu em 2013, aos 94 anos, é considerado um dos maiores heróis de guerra da União Soviética e da Rússia. Ele começou a projetar o fuzil em 1945, em uma fábrica estatal na região leste do país.

Em 1947, chegou ao que julgou ser o ideal e a arma passou a ser produzida e distribuída em escala maior em 1949, quando passou a ser usada pelas Forças Armadas Soviéticas. “O senhor Kalashnikov não tem responsabilidade pelo uso de sua obra. Ele foi um gênio e mudou a história não apenas da União Soviética e da Rússia, mas também de toda a humanidade”, comentou Karol, um polonês casado com uma russa que morou dois anos no Brasil. “Eu sei o que você quer dizer, mas não quero entrar no mérito político, no simbolismo deste monumento. Ele criou a arma porque a União Soviética precisava se defender”, argumentou o rapaz.

O colombiano Carlos Martinez, que ainda estava em Moscou dois dias depois de sua seleção ter sido eliminada da Copa nos pênaltis para a Inglaterra, pensa o oposto do amigo polonês. “De jeito nenhum, não concordo com isso. O russo aí criou uma arma usada para matar milhões de pessoas. Tem sangue em suas mãos sim”, argumentou sem levar em conta o próprio escrito na estátua. “Criei uma arma para a defesa de minha terra natal”. Essa frase, de Kalashnikov, está gravada no pedestal da estátua e reflete o pensamento do povo russo em geral em relação à obra.

 

Na cerimônia de inauguração da obra, o escultor Salavat Schherbakov falou com os jornalistas sobre o fuzil de assalto. “Esta arma é a defesa da história da Rússia. É um dos símbolos do país. Infelizmente, para que a vida continue, para que as adoráveis crianças cresçam, para as lindas mulheres da Rússia, é preciso haver uma arma dessas.”

O fuzil AK-47 (Avtomát Kaláshnikova 1947, em russo, ou Kalashnikov automática 1947) é a principal arma do arsenal das Forças Militares da Rússia há mais de 60 anos. Seu desenho está em bandeiras de vários países do continente africano – exércitos de mais de 50 países possuem o armamento. Especialistas estimam que a arma matou mais pessoas do que todos os tipos de outras armas somados e uma projeção dá conta de que uma a cada cinco armas de fogo do planeta seja o fuzil. Estima-se que mais de 70 milhões de unidades foram comercializadas desde a sua criação.

Em vida, Kalashnikov foi autor de célebres frases e deixou claro muitas vezes que a satisfação por ter criado a arma se misturava à dor de vê-la utilizada por criminosos e crianças, principalmente na África. Em uma delas, ele explicou seu sentimento. “Quando vejo na televisão Bin Laden (o terrorista Osama bin Laden, morto por fuzileiros navais dos EUA em 2011) com seu AK-47 em mãos, fico revoltado. Mas o que posso fazer? Os terroristas não são bobos. Também escolhem armas confiáveis.”

 

 

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