Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Rússia paulista', Vila Zelina se prepara para a Copa do Mundo

Estima-se que no bairro da zona leste de São Paulo existam cerca de 10 mil descendentes de russos e familiares

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2018 | 07h00

Duas grandes bandeiras – uma da Rússia e outra do Brasil – são o cartão de visitas da pizzaria Famiglia Klestoff, que prepara pizzas inspiradas nas principais seleções da Copa do Mundo. Na próxima semana, os moradores da rua Manaias vão pintar as calçadas. Alguns ficaram em dúvida entre o azul, branco e vermelho da terra natal e o verde e amarelo que os acolheu no Brasil. Ficaram com a segunda opção. A Vila Zelina, bairro localizado na Zona Leste e que concentra o maior número de russos e descendentes de São Paulo, começa a viver o clima de Copa. 

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O maior torneio de futebol do planeta aproxima os russos do futebol. O estudante André Gers, neto de russos, pratica corrida e natação normalmente, mas faz questão de assistir aos jogos do Mundial. “A Copa do Mundo significa a união de vários países em torno do futebol. Vou torcer para o Brasil”, diz o aluno de 16 anos e um dos destaques da aula de Robótica. 

O mesmo movimento acontece em Campina das Missões (RS), local do início da migração russa no Brasil. Lá, as pessoas costumam praticar futebol, vôlei e caminhada de acordo com Jacinto Zabolotsky, presidente da Associação Cultural Russa Volga do Brasil. “Já existe uma expectativa grande pela Copa. Todo mundo só fala de futebol”, conta. 

As novas gerações têm um papel importante nessa paixão repentina. E até mudam a lei natural das coisas. “Eu sempre fui palmeirense fanático e meu pai tinha de me levar aos jogos desde criança. E ele começou a gostar. No nosso caso, foi o filho que levou o pai a gostar de futebol”, conta Rafael Klestoff, ex-jogador de handebol. 

O professor de Educação Física Thiago Lopes Gandolfi relembra uma espécie de Copa do Mundo que agitou a região. Em 2008 e 2010, ele levou a equipe de futsal do Colégio São Miguel Arcanjo para um torneio em Moscou a convite da prefeitura de lá. Foram 12 modalidades ao todo, mas o futebol foi o carro-chefe. “Foram experiências muito importantes, que ficam para a vida toda”, diz o coordenador de Esportes do colégio. “Nós montamos um grupo de Whataspp com os jogadores que foram à Rússia e vamos fazer um churrasco para celebrar aquela viagem”, diz o professor. 

 

“Os russos valorizam muito o esporte. Em parte do ano, eles precisam ficar confinados por causa do clima. Por isso, primavera e verão são muitos valorizados e, nesse contexto, o esporte é uma ocupação importante do espaço externo”, completa Irene Anfimovas, diretora adjunta do colégio, que concentra dezenas de alunos descendentes do Leste Europeu. 

Konstantin Biryukov, adido cultural do Consulado da Rússia em São Paulo, confirma a Vila Zelina como maior concentração de russos, mas explica que os números não são oficiais. A Associação de Moradores cita dez mil. No total, seriam entre 100 mil e 200 mil russos e descendentes no Brasil. Esse movimento se dividiu em várias ondas no Brasil, desde o início de 1900, com a chegada de camponeses da Sibéria e a Segunda Guerra Mundial (1939/1945). A mais recente traz dezenas professores de exatas, uma das especialidades dos russos. “Vários imigrantes não tinham passaporte russo quando chegaram nas décadas anteriores. Além disso, temos 190 etnias na Rússia atual. Tudo isso dificulta a totalização”, explica Biryukov. 

Efeitos da Copa

Os descentendentes de russos acreditam que a Copa é uma chance para a Rússia se aproximar do Ocidente. Tamara Dimitrov, presidente da Associação Cultural Grupo Volga de Folclore Russo, acredita que a Rússia mostrar uma face mais positiva para o mundo. “Somos um povo alegre e acolhedor. Apenas a temperatura é fria; as pessoas, não. A Copa vai mudar nossa imagem”, diz Tamara cujos pais chegaram à região em 1954. 

No Brasil, a Copa será uma oportunidade para reapresentar os costumes às novas gerações. A pizzaria Restloff, decorada com palavras e imagens tradicionais do maior país do mundo, tem um sabor totalmente russo. É o icrá (berinjela refogada com cebola, tomate e pimentão e cobertura com requeijão). O local já tem reservas para a estreia entre Rússia e Arábia Saudita. 

Coroinha acredita na mensagem de união

A maioria dos russos que vivem no Brasil é ligada, de uma maneira ou de outra, à Igreja Ortodoxa. A Vila Zelina concentra vários templos, entre eles, a Santíssima Trindade, um verdadeiro microcosmo da importância da religião russa no Brasil. Existem semelhanças e diferenças em relação ao catolicismo. Entre as semelhanças estão os principais sacramentos, como batismo, crisma, comunhão (com pão e vinho no lugar da hóstia), casamento e confissão. 

A principal diferença é a permissão para os padres se casarem. Filho de padre e neto do bispo, o estudante Filipe Petrenko sabe que tem a responsabilidade de fazer a tradição seguir em frente. Hoje, ele é coroinha, uma espécie de ajudante dos líderes religiosos. 

“Por mais que você estude e pense em se tornar um padre ou um bispo, você precisa ter uma luz do alto para acender em você a chama do sacerdócio. É um chamado”, diz Felipe, que pretende prestar vestibular para Física. 

Filipe acredita na mensagem de integração trazida pela Copa do Mundo. “A Copa é união. Não importa o time para qual você torça, você se torna brasileiro. Tem essa união da nação toda, todos são um só nessa festividade”, afirma. “O esporte ajuda a manter o corpo e a mente saudáveis”, avalia.

 

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