Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Rússia? Que Rússia?

Será que, acabada a Copa, vamos ficar com a mesma imagem de sempre

Ugo Giogertti, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2018 | 04h00

O maior enigma que essa Copa vai oferecer é a própria Rússia. Ninguém sabe nada sobre esse enorme país, meio Europa, meio Ásia. Ou por outra, sabemos o superficial, o anedótico, tudo aquilo que durante a Guerra Fria os filmes americanos nos impingiram como imagem da Rússia. Gente brutal, triste, sempre carrancuda, e, ainda por cima, comunista! 

+ ANTERO GRECO: Técnico, sim. Messias, não.

+ BOLÍVIA ZICA: A Copa como ela é

+ Leia os colunistas de Esportes

A queda do regime não melhorou muito a imagem da Rússia no Ocidente. De pesadelo, virou piada. Dirigentes cambaleando de bêbados diante das câmeras, indústrias aos pedaços, Exército em farrapos. Até nós, brasileiros, nos divertíamos ao ver velhos Ladas pós-soviéticos andando por algum tempo ruidosamente por nossas ruas. Tudo por culpa dos comunistas! 

E não é que esse país miserável, que tinha se transformado numa anedota, ressurge? Armada até os dentes, atrevidamente dando de novo as cartas no palco da política internacional, se interpondo mais uma vez no caminho dos americanos. Imediatamente voltou a ser atacada. Criou-se até uma nova versão do ogro comunista (agora não mais comunista) na figura que nos vendem de V. Putin. 

Essa Rússia poderosa não é aceita e não é aceita porque não se entende. Tudo se embaralha na figura de Putin, a bola da vez em termos de maldade e má-fé. E, no entanto, esse país vai sediar a Copa. E alguém precisa mostrar algumas coisas dele. E dá-lhe matérias para os desinformados, repletas de lugares-comuns, preconceitos e ignorância repetidos à exaustão dia e noite. Não seria esta uma oportunidade que o futebol nos oferece para saber mais, desta vez de maneira um pouco mais isenta? Não seria o caso de reunir o corpo da cultura brasileira representado por editoras, orquestras, teatros, salas de cinema e inclusive a Academia para um esforço comum, usando como pretexto a Copa para mostrar a um público amplo o imenso patrimônio cultural que a Rússia oferece à humanidade?

Será que, acabada a Copa, vamos ficar com a mesma imagem de sempre da Rússia? Pra que a Copa, então? Só pra servir às ambições políticas e de domínio, os sonhos de reencarnação da velha União Soviética? De tudo isso, sabemos. 

Essa Copa provavelmente não vai oferecer grandes surpresas. Muitas equipes tradicionais e vencedoras ficaram de fora, como Itália ou Holanda. Hoje em dia, pela televisão, chega tudo. Sabemos bastante bem como jogam e o que podem oferecer as grandes equipes que ainda restam para disputar essa Copa. Se as grandes equipes conhecemos, as pequenas equipes não interessa conhecer. A própria equipe da Rússia provavelmente não vai fazer um papel relevante na competição. 

Essa Copa parece oferecer pouco em campo e, num certo sentido, justifica-se a atitude de mais de cinquenta por cento dos brasileiros que se mostram indiferentes à competição. Então, o que ela pode nos oferecer? A própria Rússia. É uma das pouquíssimas vezes em que um país é atração em si mesmo. É uma das poucas oportunidades para levantar um pouco o véu que cobre a Rússia e seu povo.

Mais conteúdo sobre:
Copa do Mundo Rússia 2018 [futebol]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.