Christian Hartmann/Reuters
Christian Hartmann/Reuters

Rússia usa Copa para se vender como liberal, mas continua fiel a velhos hábitos

Membro do serviço de inteligência russo fez visita à Casa da Diversidade, em Moscou

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 05h00

As autoridades russas enviaram o serviço de inteligência ao único local desta Copa do Mundo designado a manter um espaço para minorias e direitos humanos. Em Moscou, a Fifa e a entidade Fare (sigla em inglês para Futebol Contra Racismo na Europa) criaram a Casa da Diversidade, destinada a abrigar ONGs e a promover a igualdade e debates sobre temas como homofobia e racismo.

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Fontes de alto escalão responsáveis por organizar o espaço revelam que, dias depois da abertura do local, em 14 de junho, uma pessoa foi até lá e se identificou como sendo do serviço de inteligência. Então, passou a ir todos os dias. Na interpretação dos funcionários da Casa, a presença serviria para identificar quem eram os frequentadores do espaço, alvo de controvérsia no país. Ativistas criticam as autoridades por não combater a homofobia e o racismo.

Um instante de descontração, porém, foi quando os organizadores locais fizeram um bolo para comemorar um evento. O bolo era em formato de arco-íris, a bandeira do movimento LGBT. O agente do serviço de inteligência não teve problema em comer um pedaço.

Procurado, o Ministério do Interior da Rússia não deu respostas à reportagem sobre a permanência do representante do serviço de inteligência no local.

O plano original da Fare era o de ter duas Casas da Diversidade. Uma seria em Moscou e a segunda, em São Petersburgo. No entanto, 12 horas antes da inauguração, o dono do estabelecimento que abrigava a iniciativa expulsou os organizadores, sem dar explicações. Durante dias, houve uma pressão de grupos políticos para impedir que a Casa fosse aberta, com grupos LGBT e outras minorias.

 

MAQUIAGEM

Enquanto o governo russo usa os meios estatais na TV para promover uma ideia de uma Rússia diversa e unida, os bastidores revelaram uma outra realidade.

A realização de uma partida de futebol na Praça Vermelha entre refugiados foi alvo de polêmica dentro dos organizadores russos. Autoridades de Moscou fizeram uma queixa aos organizadores do evento para questionar a iniciativa.

A Rússia não reconhece, por exemplo, a situação dos sírios como sendo de emergência e não os confere status de refugiados. Apesar de possuir um território que representa um terço da massa territorial do mundo, a Rússia conta com apenas 9 mil refugiados, contra mais de 1 milhão na Alemanha ou 4 milhões na Turquia.

Nos hotéis da Fifa, porém, não são raras as ocasiões em que a reportagem do Estado e de outros jornalistas internacionais foram fotografados de forma discreta por seguranças ou por mulheres com roupas atraentes.

 

 

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