Felipe Trueba/EFE
Felipe Trueba/EFE

Russos abraçam sua seleção com campanha surpreendente no Mundial

Rússia se supera com classificação na primeira fase e ida às quartas de final

Gonçalo Junior, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 05h00

Desde a classificação da Rússia para as quartas de final, a Praça Vermelha foi dominada pelos russos. Não houve mais “divisão de território” com as outras torcidas como no início do Mundial. Os donos da casa tomaram conta. Agora, diante da Croácia, eles vão tentar comprovar uma estatística sobre a força dos anfitriões em Mundiais. Em 13 das 20 Copas anteriores, os donos da casa ficaram entre os quatro melhores. É o fator casa que está empurrando um time desacreditado e sem esperança.

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Esse entusiasmo sai das arquibancadas e se esparrama também pelas ruas e pelo cotidiano de um povo que não é tão apaixonado por futebol.

“Acho que nós, torcedores da seleção russa, ajudamos o time a vencer com toda aquela energia do estádio. As vitórias da nossa seleção deixam todo mundo feliz. Espero que a gente ainda ganhe da Croácia no próximo jogo”, diz o advogado Illia Romanov. “É muito bom vencer no esporte e no futebol quando o mundo todo está olhando. Parece que as pessoas estão mais felizes. Claro que não é uma coisa que vai, mas acho que o país está em um bom momento”, afirmou a jornalista Yelena Andropova.

Os humores dos russos variam ao longo do Mundial. Hoje, é a hora da alta, mas o time já esteve de mal com a torcida. Depois de tantos fracassos na fase de classificação, os torcedores já estavam preparados para uma eliminação ainda na fase de grupos. Antes de a competição começar, a Rússia estava havia oito meses (desde outubro de 2017) sem vencer uma partida oficial.

A fase de preparação terminou de maneira incômoda, com o empate por 1 a 1 com a Turquia, na Arena CSKA, em junho. Nesse cenário, os comentaristas russos – e também os torcedores – esperavam que a anfitriã terminaria em último lugar no Grupo A. Além disso, era o time com a pior colocação no ranking da Fifa e apontado dentro do próprio país como postulante ao título de pior da Copa.

A situação mudou. Em dois jogos – goleada sobre a Arábia Saudita e classificação garantida diante do Egito –, o time reverteu o quadro. Os donos da casa confirmaram uma tendência na história das Copas: em 20 edições anteriores, somente em 2010, na África do Sul, a seleção anfitriã não passou da primeira fase. “A torcida estava desconfiada porque os resultados não aconteciam. Depois, a situação mudou”, disse o lateral Mario Fernandes, brasileiro naturalizado russo. A derrota para o Uruguai não tirou o entusiasmo da torcida.

 

O momento de maior sintonia foi a batalha diante da Espanha, campeã de 2010. Os jogadores reconheceram a inferioridade e adotaram a figura do lutador Rocky Balboa como símbolo da disputa. Ele foi citado pelo atacante Artem Dzyuba como inspiração. No dia seguinte, os torcedores foram ao estádio vestidos como o lutador: robe amarelo e luvas de boxe.

Mais que a sintonia entre a torcida e o time, recuperada depois de quase perdida, o país recupera sua imagem na visão dos jogadores. “Os nossos torcedores e os de outros países entendem que a Rússia é um país que joga futebol e sabe organizar uma festa”, disse o goleiro Akinfeev, herói da classificação.

É a primeira vez que a Rússia chega às quartas de final da Copa. Desde o fim da União Soviética, em 1991, o time disputou outros três Mundiais e sempre deu adeus na fase de grupos. Em 1966, na Inglaterra, a URSS chegou à semifinal. O último resultado expressivo sob a bandeira Soviética havia sido na Copa de 1986, quando foi eliminada pela Bélgica nas oitavas de final. “Estamos fazendo história”, diz o empreendedor Alexei Erdynev.

DOPING

A recuperação da autoestima dos jogadores e da população ainda tem um caminho a percorrer. O próximo passo é superar a suspeita de doping que ainda paira sobre o esporte na Rússia. Recentemente, a TV alemã ARD apontou um suposto esquema para acobertar o uso de substâncias proibidas por parte de atletas russos, inclusive com ajuda do governo. Os casos teriam chegado ao futebol e uma amostra de urina do zagueiro Kambolov teria sido trocada em junho de 2015.

Ele chegou a ser investigado, mas o processo foi arquivado por falta de provas. O defensor acabou sendo cortado antes do Mundial. Questionado, o treinador Stanislav Cherchesov ficou irritado e não respondeu.

 

 

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