Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Russos que não jogam xadrez

Os estereótipos são sempre perigosos, reunindo diferentes como se iguais fossem

Milton Leite, jornalista

22 Junho 2018 | 04h00

Em 2006, meses antes da Copa do Mundo da Alemanha, um grupo de jornalistas reunia-se duas vezes por semana para receber aulas de alemão. O objetivo não era ser fluente no idioma, não haveria tempo para tanto, mas ter algumas ferramentas para interagir minimamente com a população local. Eram maneiras de se apresentar, cumprimentar, saber pedir no restaurante, questionar um atendente na recepção do hotel. 

+ ANTERO GRECO: Que baixe o espírito de 70

+ Leia outros colunistas de Esportes

Passados 12 anos daquela Copa do Mundo, sobraram apenas alguns “Guten Morgen”, “Gute Nacht”, “Danke”, “Entschuldigung”, “Auf Wiedersehen”... Ou, na mesma ordem, “bom dia”, “boa noite”, “obrigado”, “com licença”, “até logo...”

A simpática professora não se preocupava apenas com vocabulário, gramática e concordância verbal. Dava dicas de comportamento, porque algo muito corriqueiro em uma cultura, muitas vezes é uma ofensa em outra. Em uma das aulas, foi taxativa: “não encontraríamos nos alemães nada parecido com as manifestações de emoção às quais os latinos estão acostumados, principalmente os brasileiros” - contatos físicos, alegria exacerbada, calor humano não estavam no repertório dos anfitriões.

A recordação daquelas aulas voltou nesta viagem à Rússia. Afinal, diz o senso popular, os russos são frios, até soturnos. À distância, seria fácil concluir: quem enfrenta temperaturas de 30 graus negativos, dias com pouco mais de quatro horas de luz e metros de neve no inverno, de acordo com nossos olhos tropicais, não deve ter razões para ser expansivo, sorridente e sair por aí beijando e abraçando desconhecidos.

 

Mas nada como uma boa vitória no futebol para que um estereótipo seja destruído.

Quando a nossa equipe de trabalho deixava o estúdio montado pertinho da Praça Vermelha, no centro de Moscou, na madrugada da última quarta-feira, parecíamos caminhar por ruas de São Paulo, Rio de Janeiro ou qualquer cidade brasileira. Carros passavam em velocidade, bandeirinhas russas ao vento, buzinas gritando, jovens com o corpo para fora da janela. 

Centenas de pessoas caminhavam pelas ruas da capital russa gargalhando e cantando, saindo dos bares, restaurantes e Fan Fests. A seleção da Rússia acabara de derrotar o Egito e garantir vaga nas oitavas de final, contrariando as análises que colocavam em dúvida a capacidade de o time de avançar na competição de seu país.

Naquela Alemanha de 2006, um jovem time dirigido por Jürgen Klinsmann tinha provocado fenômeno semelhante. Mesmo sendo um país acostumado a vitórias e títulos - e com ligações muito mais sólidas com o futebol do que a Rússia tem -, não se esperava que milhões fossem para as ruas, pintassem o rosto, buzinassem freneticamente nos seus carros, festejando o time que caminhou até as semifinais do Mundial.

Não satisfeitos, os torcedores, daquele distante 2006, até então considerados sisudos, invadiram a área do Portão de Brandemburgo, em Berlim, para festejar o terceiro lugar na Copa do Mundo que recebiam. Sim, eles comemoraram efusivamente o terceiro lugar.

Os estereótipos são sempre perigosos, reunindo diferentes como se iguais fossem. Mas, em tempos de mundo globalizado, meios de comunicação velozes e eficientes, internet e redes sociais, têm menos sentido ainda. Nem todo brasileiro é apaixonado por futebol e expansivo, como nem todo russo é circunspecto e louco por xadrez.

*MILTON LEITE É NARRADOR DO SPORTV

 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.