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Sábado e domingo

Viu o menino transformado em torcedor como se tivesse incorporado um ritual

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2018 | 04h00

No sábado tinha uma tarefa a cumprir. Levar o filho de seis anos ao estádio pra ver um clássico. Não era a primeira vez que o menino ia ver um jogo, mas sempre em companhia de tios e primos, nunca do pai. Nenhuma razão especial, talvez cansaço, quem sabe um pouco de preguiça. Ele mesmo foi frequentador de estádios e assistiu a toda espécie de jogos. Grandes jogos e outros nem tanto. Tinha sentido o calor das multidões quando seu time ia bem e sofrido o frio das arquibancadas vazias quando a coisa andava mal. Tinha sido um torcedor fiel até começar a perceber que a qualidade do futebol não era mais a mesma e pouco a pouco desistir de esperar que melhorasse um dia.

No entanto, tinha de alguma forma misteriosa transmitido ao filho o gosto pelo jogo. Acompanhava à distância o interesse do garoto por esse futebol pobre que anda por aí. E ainda por cima fizera do menino um torcedor de seu próprio time. De qualquer forma, tinha prometido que iriam a um clássico e lá se foram, o garoto, durante o trajeto, lamentando essa coisa de torcida única que impedia que vitória ou derrota se dessem na cara do rival e não pelas costas, já que só uma estava lá. Ele também lamentava a torcida única, algo nunca visto em sua época, mas a alegria da companhia do filho começava a fazer seus efeitos. Entraram no estádio e viram que estava lotado. Imediatamente notou que o clima daquele jogo diferente tinha contagiado não só a multidão, mas o seu menino. Não conseguia tirar seus olhos do garoto.

Notou primeiro o encantamento, o feitiço que tinha tomado conta dele, depois sua gradativa integração aos demais torcedores. Viu os lábios do menino se movendo primeiro timidamente, quase sem som, depois com desenvoltura, acompanhando os cantos da torcida. Reencontrou palavras que ele mesmo tinha pronunciado um dia, e perdido, cantos que ele tinha acompanhado sem hesitação, como o difícil hino do clube, urrado pela multidão.

Viu o menino instantaneamente transformado em torcedor como se tivesse incorporado um ritual imediato e mágico, um veneno que se inocula num instante e passa a correr nas veias. Ele que nunca tinha ido a um clássico. Lia no rosto do filho expressões que ele próprio tinha tido e julgava definitivamente enterradas.

Maravilhado ouviu bordões de outras épocas, talvez até anteriores à sua própria época, e que continuavam a ser cantados indiferentemente ao passar dos anos, indiferentemente ao mau futebol. Seria mesmo um mau futebol? Seria toda aquela multidão absolutamente indiferente à qualidade do jogo? Ou haveria alguma coisa mais em clássicos, alguma coisa que dispensasse a qualidade do futebol, alguma coisa que estivesse além, ou acima, do que se passava no campo? Ele mesmo não sabia mais dizer se o jogo tinha sido bom ou ruim. E não se importava. Sequer lhe interessava o resultado final.

Compreendeu que aquela multidão estaria presente nos jogos e torneios futuros a despeito dos resultados. Ele mesmo se sentiu parte da multidão como nunca ultimamente. E ligado ao menino de uma maneira que excluía palavras e explicações. Tinham compartilhado uma experiência única, feito parte daquela massa que não respeitava nem hino nacional nem minuto de silêncio, apenas o nome sagrado do clube. Para sua surpresa, a torcida única não tinha conseguido diminuir o jogo. O comportamento das multidões é sempre o mesmo, e a torcida rival mesmo ausente estava lá de alguma forma, ainda que nos insultos e xingamentos. Saíram do estádio quase sem comentar o jogo. O sábado perfeito se prolongou noite adentro. Adormeceu feliz e ainda era sábado. Domingo, sob vestígios agradáveis da véspera, acordou. Levantou da cama e encontrou o Brasil.

 

 

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