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Saiba quem foi Mário Filho, o homem cujo nome pode ser trocado no Maracanã por Pelé

Ele batalhou pela construção do estádio na zona norte da cidade do Rio e é considerado um dos pioneiros do jornalismo esportivo brasileiro

Marcio Dolzan e Wilson Tosta/ RIO, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 16h24

O homem cujo nome a Assembleia Legislativa do Rio quer apagar da entrada do Maracanã batalhou pela construção do estádio na zona norte da cidade do Rio e é considerado um dos pioneiros do jornalismo esportivo brasileiro. Tão tradicional quanto a "Estátua do Bellini", tributo ao bicampeonato mundial do Brasil de 1958/62 junto à entrada do Maracanão, o nome de Mário Filho remete aos primórdios do futebol nacional. Ele batiza o estádio. Lembra também os craques pretos, pardos e pobres, alvos de preconceito, que homenageou como heróis no livro "O Negro no Futebol Brasileiro", além do time cuja mitologia ajudou a erigir, com "Histórias do Flamengo".

"(O presidente da Alerj, André Ceciliano, do PT-RJ) não deve saber quem foi meu avô. Se não sabe, que procure na Wikipedia, no Estadão, no Globo, que ele vai encontrar no mínimo seis páginas sobre quem ele foi", disse ao Estadão no mês passado Mário Rodrigues Neto, cujo avô (ainda) dá nome ao Maracanã. "Se não houvesse meu avô, talvez o Pelé jamais tivesse vindo jogar no Rio, porque em vez de um estádio para mais de 150 mil pessoas, iam construir um para 60 mil", recordou Mário Neto. A polêmica já é grande em torno da possível troca de nome do Maracanã, de Mário Filho para Edson Arantes do Nascimento, Pelé. 

A Assembleia do Rio aprovou nesta terça-feira, dia 9, a mudança de nome do Maracanã de 'Estádio Jornalista Mário Filho' para 'Estádio Edson Arantes do Nascimento - Rei Pelé'. A alteração, aprovada 34 dias após ser protocolada pelo presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), ainda precisa passar por sanção do governador em exercício, Cláudio Castro (PSC). Nas redes sociais, hashtags como #vetagovernador e #EstadioMarioFilho são compartilhadas às centenas como protesto pela mudança de nome.

As manifestações não são contrárias a Pelé. Criticam a retirada da homenagem a quem é considerado um dos grandes responsáveis pela construção do antigo 'maior do mundo'. Quem conhece a história do futebol e da política carioca sabe que a afirmação é verdadeira. Na metade final da década de 1940, a discussão sobre o novo estádio dividiu a então capital federal. Uma corrente, encabeçada por Carlos Lacerda, defendia a construção de um estádio menor e em Jacarepaguá, na zona oeste da cidade. Do outro lado, o compositor (e vereador, além de rubro-negro) Ary Barroso e o jornalista Mário Filho insistiam na importância de construir um gigante em uma área mais central da cidade. Afinal, o Brasil sediaria uma Copa do Mundo em 1950.

Proprietário do Jornal dos Sports desde 1936, Mário Filho publicou uma série de artigos sobre a polêmica. Defendeu a construção de um estádio para 150 mil pessoas no bairro do Maracanã, caminho do Centro da cidade. Venceu. O palco foi erguido no terreno que anteriormente sediara o Derby Club. Após sua morte súbita, em 1966, aos 58 anos, depois da derrota na Copa da Inglaterra, seu nome foi dado ao estádio.

Esportes

Nascido em 1908, Mário era filho de jornalista. Seu pai era Mário Rodrigues, um pernambucano que foi repórter político e dirigente do Correio da Manhã, no Rio. Nesse jornal, protagonizou a polêmica das Cartas Falsas, com insultos ao marechal e ex-presidente Hermes da Fonseca, atribuídos a Arthur Bernardes. O jornalista alegou ter sido enganado pelos falsificadores, que teriam feito o material chegar às suas mãos por meio da oposição.

Depois, desentendeu-se com Edmundo Bittencourt, o dono do CM, e virou dono de jornais: A Manhã e depois Crítica. Nessa, trabalhavam seus filhos Mário, Roberto e Nelson (o futuro teatrólogo Nelson Rodrigues). Em 1930, aconteceram o assassinato de Roberto Rodrigues na redação, a morte de Mário Rodrigues e o empastelamento da Crítica por apoiar o governo derrubado na Revolução de 1930.

Com o fim do jornal e os Rodrigues em dificuldades, Mário Filho assumiu o protagonismo. Tinha sido repórter esportivo na A Manhã e na Crítica e feito crescer a cobertura de Esportes. Lá, um dia, encarregado de fechar a primeira página, estampou um Flamengo x Vasco, assunto que tradicionalmente não estaria ali. Mário Rodrigues ficou furioso. Diz-se que a fúria diminuiu no dia seguinte, quando o jornal, que dera destaque à rivalidade que mobilizava a cidade, esgotou nas ruas.

Assim, Mário Filho construiu sua carreira no jornalismo esportivo. Com essas credenciais, virou editor de Esportes em O Globo. Não tratava apenas de futebol. Quando não havia bola rolando, publicava notícias até sobre automobilismo. Também teve  um pequeno jornal, O Mundo Sportivo, que seria o primeiro diário brasileiro inteiramente dedicado aos esportes. O MS promoveu o primeiro concurso que se transformaria no desfile das escolas de samba no Rio – hoje, o desfile da Marquês de Sapucaí, espetáculo internacional.

FLA-FLU

Mário Filho também é apontado como responsável pela criação ou popularização da expressão Fla-Flu e pela retomada, nos anos 1950, do Torneio Rio-São Paulo (que havia sido realizado sem sucesso em 1933, 34 e 1940). Mais tarde, o torneio passaria a incluir clubes de outros Estados e seria renomeado para Taça Roberto Gomes Pedrosa, que originou o atual Campeonato Brasileiro. Também criou os Jogos da Primavera, nos anos de 1940 – acreditava que um jornal também deveria, de certa forma, ser e criar notícia.

Ironicamente, entre os livros de Mário Filho, está "Viagem em Torno de Pelé", que narra o início da carreira do Rei do Futebol – cujo nome pode tomar o lugar do seu para batizar o estádio. Nelson Rodrigues um dia escreveu: "Mário Filho foi tão grande que deveria ser enterrado no Maracanã". A Alerj, porém, preferiu enterrar a homenagem que um dia foi feita a um dos maiores entusiastas da construção do estádio.

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