Salvador: Torcida está dividida entre Brasil e Gana

O Centro Histórico de Salvador está enfeitado de bandeirolas verde-amarelas, mas nem todos os baianos afrodescendentes vão torcer apenas pela seleção brasileira, nesta terça-feira, diante de Gana, pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo. A partida contra o Brasil criou uma torcida híbrida, que vai dividir o coração de Salvador entre as defesas do baiano de Dida e as jogadas do capitão Appiah. Um dos principais pontos de encontro é a Casa de Angola, instituição localizada na tradicional Baixa dos Sapateiros, e que tem por missão divulgar a cultura angolana na Bahia. Lá, os negros baianos, que são maioria de 73% em Salvador, de acordo com o censo mais recente, terão oportunidade de tomar contato com a música e a culinária africanas. Segundo o administrador Paulo Souza, até um DJ foi contratado especialmente para dar o som da festa, e com um detalhe: veio de Gana passar uns dias em Salvador e vai torcer abertamente pelo país adversário. O Grupo Cultural Olodum também está presente na festa em que deverá se transformar a região do Pelourinho, independentemente do país que saia com a vitória. ?Uma tradição que vem desde 1990, quando Camarões fez boa campanha, e até venceu a Argentina?, lembra Cristina Rosário, militante do movimento negro e dançarina do Olodum, que ontem ensaiava uma coreografia especial para a festa da bola desta terça-feira. Além do Pelourinho, outras áreas de forte influência negra em Salvador também se preparavam para a animação a partir das primeiras horas da manhã. Como o jogo é ao meio-dia, o comércio vai funcionar apenas parcialmente pela manhã no bairro da Liberdade, onde o sul-africano Nelson Mandela foi homenageado e concentra o maior contingente negro da cidade. Na localidade do Curuzu, sede do bloco afro Ilê Aiyê, desde esta segunda, só se fala na partida contra os africanos. ?Já está na hora de um país da África ganhar uma Copa. É uma pena que terá de eliminar o Brasil?, previu, sem hesitar, a estudante do Colégio Duque de Caxias, Maria da Anunciação Castro. Para a colega Zezé Silva, a assídua participação africana entre os melhores das últimas cinco copas já demonstra o progresso do continente no futebol e em outros aspectos da vida social e econômica. Mas ela não curte a euforia dos brasileiros em tempos de copa, e torce contra, sem se importar se o adversário é africano ou asiático. ?Seria bom se pudéssemos também comemorar títulos em itens que revelassem um bom índice de desenvolvimento humano?, revelou, afirmando-se uma ?brasileira consciente?. Já a auxiliar de enfermagem Jane Costa, adepta do culto religioso de origem africana, não conhece nenhum jogador ganês da atualidade, mas lembra bem das boas campanhas feitas por Camarões, Nigéria e Senegal em outras competições internacionais e que tiveram forte repercussão em Salvador. Moradora do Engenho Velho da Federação, bairro originado de um antigo quilombo, ela disse que os orixás não se metem nestas disputas esportivas, mas ?guiados por Oxalá, o orixá da Paz, os baianos saberão torcer por um bom futebol entre as duas seleções amigas.?

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