Salvar a pele

Dunga caiu – pedra cantada, já que a permanência era insustentável após o fiasco na Copa América. Assim como antes haviam sido demitidos Felipão, Mano, ele mesmo em 2010, Parreira, Leão, Luxemburgo, e por aí vai. Técnico de seleção perde emprego por aqui, com a mesma facilidade com que recebe bilhete azul em clubes.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2016 | 03h00

Tite está a caminho por ser a bola da vez, por méritos, como anteriormente foram Felipão, Mano, Parreira, Luxemburgo, Leão, na movimentação dessa roda-viva. Dava até para entender a experiência com eles, pelo momento profissional que viviam – inexplicável, fenômeno pra valer, foi Dunga ter duas chances sem lastro que o sustentasse, a não ser o passado como capitão do tetra.

Mas não interessa agora; Dunga é página virada, de novo. Eis a questão central, sem embromar: pouco importa o professor da hora, tanto faz se for Tite, Sampaoli, Guardiola, Bielsa, Cuca, todos respeitáveis e competentes. Ou Tostão ou Casagrande, que entendem muito de futebol, são sérios e até podem ficar bravos com esta lembrança (uma homenagem e não provocação). Venha o sujeito mais batuta do mercado, o maior ganhador de títulos, que topará com uma barreira: a CBF.

A entidade que comanda o esporte mais popular do País é o entrave para o sucesso de um projeto consistente para resgatar a amarelinha. Ou, mais precisamente, a mentalidade que a rege, as pessoas que a dirigem, o discurso vazio que ostentam deixam com pé atrás qualquer um com dose mínima de senso crítico e desconfiômetro.

Por exemplo, até que ponto Tite, ou qualquer outro no lugar dele, tem como confiar nas promessas de uma empresa cujo presidente não passou a ter aparições esporádicas, até em eventos oficiais, que de um instante para outro perdeu o prazer de viajar, de acompanhar o time? Onde estava Del Nero na noite em que o Brasil amargou nova humilhação, com a derrota para o Peru? E, por ironia, com gol de mão?

A CBF tritura reputações de treinadores, desde que se salve a pele da cartolagem. Foi assim nas demissões recentes, repetiu a dose com Dunga. Não hesitou em despachá-lo, menos de dois anos depois de apresentá-lo como o homem com perfil ideal para reconstruir o prestígio nacional estraçalhado pelos 7 a 1 para a Alemanha. Nem vale argumentar que a contratação se deu por obra e graça da vontade de José Maria Marin. Só tonto cai nessa. O ex-presidente, hoje enroscado com a justiça dos EUA – a mesma que apavora muito dirigente graúdo por aí –, era carne e unha com Del Nero. Ao menos nas decisões de âmbito futebolístico.

Ou seja, retornar a uma solução que havia fracassado na Copa de 2010 teve o aval do presidente atual da CBF. Dunga não era a pessoa adequada para a empreitada, depois do fiasco do Mundial em casa. No entanto, foi bancada pelos mesmos donos da bola. Com isso, perderam-se dois anos de trabalho, sem assumir culpa, com a constatação de que a equipe regrediu. Basta olhar a sexta colocação nas Eliminatórias, o fracasso na Copa América de 2015 e a escorregada nos EUA.

A revolução deveria começar de cima – pela queda do comando da CBF. Todos os executivos, presidente a encabeçá-los, cairiam fora. Claro, trata-se de divagação, pois jamais entregariam a rapadura, a não ser que se vissem obrigados, como fez aquele que, da noite para o dia, abandonou os preparativos para a Copa de 14 e se mandou para Miami.

Também não há quem os cobre, exceto vozes incômodas na imprensa e esporádicos (ou quixotescos) dirigentes. De resto, mantêm federações em cabresto curto e têm controle sobre os clubes; uns sustentam os outros e nada se altera.

A CBF não merece Tite, e Tite não merece a CBF atual. Ou não se mereciam, vai saber. Seis meses atrás, até apoiou abaixo-assinado no qual várias personalidades pediam a renúncia de Del Nero. Teria algo mudado de lá para cá? A vida dá voltas... Tite é competente, mas não gênio tático. Que tenha sorte e discernimento.

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