Matthew Childs/Reuters
Matthew Childs/Reuters

Sandro Meira Ricci vê falta de experiência como risco para o VAR no Brasil

Em conversa com o 'Estado', árbitro comenta a tecnologia que estreia nesta quarta no País, em partidas da Copa do Brasil

Entrevista com

Sandro Meira Ricci, árbitro brasileiro na Copa do Mundo

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2018 | 07h00

Sandro Meira Ricci, árbitro de campo e de vídeo na Copa do Mundo, revela que os árbitros brasileiros receberam o mesmo treinamento dado pela Fifa para utilização do VAR e, por isso, estão preparados para o uso do árbitro de assistente de vídeo hoje, nas quartas de final da Copa do Brasil. Por outro lado, ele mostra preocupação com o número de câmeras e a precisão da linha de impedimento que, na Fifa, é tridimensional.

Até 16 câmeras e primeira escala definida: os detalhes do VAR na Copa do Brasil

Em entrevista exclusiva ao Estado, o árbitro de 43 anos que acabou de se aposentar revela que ficou dececpionado por não ter apitado a final. Acredito que fizemos um trabalho para merecer a indicação à final. Outros também o fizeram e ao final a FIFA tinha que escolher apenas um e optou pelo argentino. Para mim, ficou a decepção porque eu queria encerrar a carreira com esse título”, afirmou Ricci.

Como avalia a estreia do VAR na Copa do Brasil a partir desta quarta-feira?

Os treinamentos recebidos pelo VAR no Brasil são muito parecidos aos que recebemos na FIFA. Torço para que os resultados sejam também parecidos. A diferença de estrutura pode interferir um pouco, principalmente no que diz respeito ao número de câmeras disponíveis e à precisão da linha de impedimento, que na FIFA é tridimensional. A questão da falta de experiência em jogos oficiais também pode pesar um pouco. Na Copa, a maioria dos árbitros de vídeo tinha bastante experiência porque vinham utilizando essa ferramenta em suas competições nacionais.

Qual avaliação o senhor faz da primeira Copa com o VAR? O que funcionou bem? O que pode melhorar?

A avaliação que faço do VAR é muito boa. Nos 64 jogos da Copa do Mundo, o árbitro de vídeo corrigiu 17 decisões equivocadas do árbitro de campo. É uma quantidade bastante elevada de intervenções, mas graças a isso, o índice de acerto da arbitragem nas decisões capitais superou os 99%, que é praticamente a perfeição. Para melhorar, entendo que é preciso experimentar mais vezes o VAR em jogos reais, pois a realidade do jogo apresenta um cenário de pressão bem diferente do treinamento. Acredito que o protocolo está bem claro para todos, mas a linha de intervenção, ou seja, o conceito de erro claro ainda carece de critérios mais objetivos para que as intervenções sejam mais uniformes. Também defendo que as equipes deveriam ter direito a pedir pelo menos um desafio à arbitragem, exatamente para torna-las protagonistas também nesse projeto de VAR que é excelente.

De maneira geral, qual sua opinião sobre o VAR?

Sou completamente a favor do VAR porque traz justiça ao futebol. A pior sensação para o árbitro é saber, depois do fim de uma partida, que suas decisões interferiram no resultado. A vontade é poder voltar atrás e fazer o jogo novamente, sem cometer erros. Agora, o VAR nos dá a oportunidade de corrigir nossos erros na hora e com isso não comprometer o resultado nem o seguimento da nossa carreira.

Como foi a experiência de trabalhar numa Copa do Mundo pela segunda vez?

A emoção é a mesma da Copa passada, mas é fato que a experiência ajuda a lidar melhor com a ansiedade prévia aos jogos. Aquela espera no túnel com as seleções e a entrada no campo ao som do hino da Fifa é um momento realmente extraordinário. Fica passando um filme na sua cabeça. Você oscila momentos de concentração para o jogo com a emoção de lembrar da família e de todos aqueles que te ajudaram a chegar ali. A sensação de que toda a dedicação valeu a pena. É a concretização de um sonho que não é só nosso, mas de todos aqueles que percorreram a trajetória ao nosso lado.

No início da Copa, o senhor mencionou algo bem interessante na entrevista coletiva de arbitragem sobre a preparação psicológica dos árbitros para terem suas decisões revistas pelo VAR. Como foi essa preparação? Como o senhor e os árbitros em geral se comportaram com o VAR?

Não tivemos uma preparação psicológica específica. Mas, desde 2016, tivemos vários treinamentos e experiências em torneios oficiais com o VAR. A orientação era muito clara. Os árbitros deveriam ter a humildade para mudar a decisão no caso de erro claro, pois do contrário estariam prejudicando o projeto e sua própria sequência na competição. Nos meus jogos, não houve intervenções do VAR, mas caso tivessem ocorrido e o erro fosse comprovado, certamente mudaria minha decisão de campo, afinal somos árbitros para servir ao futebol e para garantir a justiça e o bom espetáculo.

Para o árbitro, quais as diferenças entre atuar na sala de vídeo e no campo?

Trabalhei na função de VAR e na função de árbitro em várias competições da Fifa e admito que a pressão na cabine do VAR, com no máximo 10 pessoas, é bem superior à pressão no campo de jogo, com mais de 50 mil. O árbitro de campo tem a seu favor a necessidade de tomar uma decisão imediata com apenas um ângulo de visão. Por isso, seus erros são, muitas vezes, compreensíveis. Já o VAR não pode errar, pois ele tem tempo para poder ver a jogada por vários ângulos. Marcelo Tas disse que o VAR brinca de Deus, pois é onipresente e enxerga tudo. Eu concordo com ele, pelo menos em teoria.

Que avaliação o senhor faz da arbitragem da Copa no geral?

Eu dividiria essa análise em dois momentos. Na fase de grupos, a arbitragem deixou um pouco a desejar e acabou sobrecarregando o VAR, principalmente em lances de área. A Copa da Rússia foi a que mais teve pênaltis marcados, muito deles pelo VAR. Embora o importante seja, no final, o acerto na decisão, o número de intervenções do VAR é inversamente proporcional ao desempenho dos árbitros de campo. Já na segunda fase, de mata-mata, houve apenas duas intervenções em 16 jogos, que é um índice excelente e compatível com o desempenho esperado de uma arbitragem de Copa do Mundo.

Como os árbitros brasileiros são vistos no contexto mundial? Em sua visão, quais as principais qualidades dos árbitros brasileiros?

O Brasil tem muita tradição no futebol e os árbitros brasileiros também. Claro que, no final, vai contar o desempenho no campo, mas a escola brasileira é muito respeitada pela dificuldade das competições em que está acostumado a atuar, principalmente Brasileirão e Libertadores. Quem apita essas competições, apita qualquer jogo.

Como o senhor avalia sua participação? Qual foi o momento mais marcante? Qual a maior dificuldade?

A avaliação é positiva. Emerson de Carvalho e Marcelo Van Gasse, na função de assistentes, Wilton Sampaio, na função de VAR, e eu atuamos em três jogos e fomos muito bem avaliados. Certamente o jogo de mata-mata, entre Rússia e Croácia foi o mais marcante e emocionante, por envolver a seleção da casa e ter sido decidido na disputa de pênaltis. Particularmente, a minha maior dificuldade foi lidar com a não designação para a final.

O senhor tinha a expectativa de atuar na final?

Tinha. Acredito que fizemos um trabalho para merecer a indicação à final. Outros também o fizeram e ao final a FIFA tinha que escolher apenas um e optou pelo argentino. Para mim, ficou a decepção porque eu queria encerrar a carreira com esse título. Infelizmente, não foi possível.

O que pretende fazer a partir de agora?

Infelizmente, não existe, formalmente, aposentadoria para árbitro, pois não recebemos nenhum benefício quando encerramos a carreira. Decidi pendurar o apito porque acredito que meu ciclo de árbitro de campo se encerrou. O processo de preparação para um mundial dura praticamente 3 anos e exige muita dedicação. Deixei de lado muita coisa para participar de duas Copas do Mundo. Agora quero me dedicar mais à minha carreira de servidor público e, quem sabe, a algo relacionado ao futebol, porém sem abdicar da convivência com minha futura esposa, minhas filhas, meus pais e meus amigos.

Quais as tendências em relação à arbitragem para a Copa de 2022?

Acredito que a Copa será cada vez mais tecnológica. Sinceramente, não sei o que esperar de inovação no futebol, mas certamente o VAR estará bem mais maduro, assim como os árbitros para atuarem com o VAR. Será uma Copa maravilhosa e já estou fazendo economia para participar como torcedor.

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