Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Santa Cruz encerra seu calvário e está de volta à elite após 10 anos

Depois de ir ao fundo do poço e cair até a Série D, time faz 3 a 0 no Mogi Mirim, em Itu, e se garante na Primeira Divisão nacional

Lucas Lopes, Especial para O Estado de S. Paulo

21 Novembro 2015 | 19h40

A derrota diante do Santos por 3 a 1 na Vila Belmiro em 2006 foi apenas a confirmação formal do castigo para o Santa Cruz, que acabou rebaixado à Série B do Campeonato Brasileiro daquele ano, uma temporada após subir à primeira divisão. Dez anos após o primeiro descenso (sofreu outros dois), início de diversas desventuras em série, a equipe pernambucana está de volta à elite do Brasileirão.

O Santa Cruz ganhou do Mogi Mirim neste sábado, em Itu, por 3 a 0, e confirmou seu passaporte à Série A. Com o triunfo, chegou aos 64 pontos e não pode mais ser superado por Bragantino, Náutico e Sampaio Corrêa.

É a redenção de um dos mais tradicionais clubes do nordeste, que chegou ao fundo do poço em 2008, quando amargou a queda para a Série D, sua terceira seguida, e cogitou até o encerramento de suas atividades.

O merecido acesso vem das mãos do técnico Marcelo Martelotte, que substituiu Ricardinho, campeão pernambucano (28º título), mas que acabou demitido após início ruim na Série B. O comandante do acesso chegou para salvar uma campanha que iniciou na pior forma possível.

O Santa Cruz entrou na zona de rebaixamento na 4ª rodada e a sequência de resultados ruins, cinco pontos conquistados em sete jogos, custaram o cargo de Ricardinho. Martelotte foi o escolhido para salvar o clube da situação complicada. E fez mais que isso.

São 26 jogos a frente do comando da equipe nesta segunda passagem. Martelotte conquistou 17 vitórias, empatou quatro vezes e foi derrotado em cinco partidas desde a 8ª rodada. O time saiu da 18ª colocação para o 3º lugar, e sacramentou a tão sonhada volta à elite do futebol brasileiro.

Além de Martelotte, outra chegada ajudou a impulsionar a campanha do Santa Cruz. O atacante Grafite, 36 anos, que disputou a Copa do Mundo em 2010 pela seleção brasileira e retornou ao tricolor pernambucano 14 anos após deixar o clube. "Conversei com o Coritiba antes de voltar ao Brasil, na época eu tinha contrato com o Al Ain (dos Emirados Árabes Unidos) e não foi interessante. Quando eu voltei pro Brasil, uma pessoa do Vasco me ligou perguntando se eu tinha interesse em jogar no Rio. Porém, comecei a conversar com o Santa Cruz e achei interessante o projeto, conversei com a minha família e decidi acertar com o clube", explica Grafite.

O atacante estreou na 17ª rodada, diante de um Arruda lotado, com mais de 44 mil torcedores do Santa Cruz. E coube ao atacante marcar o gol da vitória que levou o estádio a delírio. Desde então Grafite disputou 14 jogos e marcou sete vezes.

Para o diretor e vice-presidente do clube, Constantino Junior, a contratação de Grafite animou a torcida coral. "A chegada dele foi de impacto. A confiança do público e do time aumentou. Foi importante a chegada dele para a equipe", afirma Tininho, como é conhecido no clube.

O camisa 23 não participou do duelo decisivo com o Mogi Mirim. Estava suspenso. Não jogou, mas, como peça-chave da campanha do Santa Cruz, espera permanecer em Recife.

"Eu tenho contrato até agosto do ano que vem. Ainda não se foi falado sobre uma renovação de contrato. Tem que ver o planejamento. Nunca joguei um Pernambucano, uma Copa do Nordeste e uma Copa do Brasil, tenho vontade de disputar essas competições. Estou priorizando ficar aqui", diz.

Grafite quer ficar e já avisa que o Santa Cruz terá dificuldades na elite do futebol brasileiro. Para ele, o planejamento é essencial para o futuro do tricolor pernambucano. "A Série A é um campeonato muito difícil. É importante para o clube subir e conseguir permanecer no mínimo dois, três anos pra se restabelecer, se reestruturar economicamente. É uma batalha muito grande pra subir, precisa de um planejamento pra não ficar brigando no ano seguinte pra cair de novo", declara.

O CALVÁRIO DO SANTA CRUZ 

Foram vários os capítulos tristes escritos na história recente do Santa Cruz. Além da queda, em 2008 a torcida coral viveu um pesadelo que parecia não ter fim. O Santa Cruz não se classificou entre os melhores do Campeonato Pernambucano e teve que disputar um hexagonal para evitar a queda para a segunda divisão do estadual. Conseguiu escapar deste rebaixamento, mas agonizava na disputa da competição nacional.

A CBF havia anunciado que os times que não ficassem entre os 20 melhores dos 63 clubes participantes da Série C seriam rebaixados à recém-criada Série D. O Santa Cruz conseguiu se classificar à segunda fase da competição, mas conquistou apenas quatro pontos em seis jogos e viu o pesadelo da quarta divisão se tornar realidade. 

Nem o Estádio José do Rego Manoel, o Arruda, se salvou na derrocada tricolor. Com a constante falta de receita o estádio teve a energia cortada e passou a funcionar à base de geradores movidos a diesel. Uma parte da arquibancada foi interditada na mesma época.

A equipe pernambucana parecia não dar sinais de reação após se tornar o primeiro time da história do Brasil a sofrer três rebaixamentos consecutivos. O Santa Cruz acumulou duas eliminações seguidas nas fases classificatórias da Série D, em 2009 e 2010.

A VOLTA POR CIMA 

Em 2011 a história começou a mudar. Sob a batuta do presidente Antônio Luiz Neto e com O técnico Zé Teodoro no comando, a equipe pernambucana sagrou-se campeã do estadual em cima do Sport e conquistou o vice-campeonato da Série D, perdendo a final para o Tupi, mas conseguindo o acesso à terceira divisão do Brasileirão.

O ano seguinte foi um misto de sensações para o torcedor coral. Após anos de sofrimento e chegando a um dos mais baixos patamares do futebol brasileiro, o Santa Cruz mostrou sua força e venceu o bicampeonato Pernambucano, novamente em cima do rival Sport. A euforia pelo segundo título estadual consecutivo fez a torcida sonhar com o acesso à Série B, porém o Santa Cruz padeceu no campeonato e amargou a 14ª colocação, com dois pontos a mais que o compatriota Salgueiro, rebaixado à Série D em 2012.

O ano de 2013 foi o mais especial da história recente do Santa Cruz. Com o atacante Caça Rato como estrela da equipe e o treinador Marcelo Martelotte substituindo Zé Teodoro, o tricolor pernambucano superou o Sport pela terceira vez consecutiva na final do estadual e conquistou o tricampeonato do torneio. A sequência de vitórias em cima do rival já era motivo de orgulho, porém a felicidade maior veio no Campeonato Brasileiro.

Martelotte deixou o comando do Santa Cruz e acertou com o Sport. Sandro Barbosa assumiu a equipe, mas quem levou o tricolor pernambucano à glória na Série C foi o treinador Vica. A equipe coral se classificou no topo do Grupo 1 na primeira fase, passou pelo Betim nas quartas de final, pelo Luverdense na semifinal e sagrou-se campeã ao vencer o Salgueiro por 2 a 1 dentro de casa, após empate sem gols no jogo de ida, conquistando assim o primeiro título nacional da história do clube.

Em 2014 o Santa Cruz freou a empolgação do torcedor e teve um ano sem grandes emoções. Nada de título o acesso. O ano foi marcado pela troca de comando técnico. Vica deixou o cargo, Sérgio Guedes assumiu e foi substituído por Oliveira Canindé, que fracasso na Série B acabou trocado pelo ex-jogador Ricardinho.

O ano marcou também a saída de Antônio Luiz Neto, considerado o presidente que "virou o jogo" para o tricolor pernambucano. Apesar dos bons resultados em suas duas gestões, o cartola não se vê como uma figura especial no clube. "No Santa Cruz cada um tem que ser apenas mais um. Eu sou apenas mais um humilde torcedor", explica. Alírio Moraes tomou posse da direção do clube em dezembro de 2014.

Mas 2015 seria o ano de nova consagração: o tão sonhado retorno à elite. 

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