NEWTON MENEZES/FUTURA PRESS
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São Paulo aproveita mal goleiros criados em suas divisões de base

Formador de talentos na linha, clube insiste em ir ao mercado quando precisa de reforço no gol: ‘Era para ter três’, diz Zetti

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2018 | 05h00

O interesse do São Paulo na contratação do santista Vanderlei, conforme informou o editor de Esportes do Estado, Robson Morelli, retomou um antigo debate: como o clube conhecido por formar (e vender) bem tantos talentos em todas as posições não consegue revelar goleiros com a mesma frequência?

Hoje em dia, Jean e Sidão, contratados do Bahia e Botafogo, respectivamente, disputam lugar na equipe. Lucas Perri, de 20 anos, é a terceira opção e o único criado pelo clube.

"Em 14 anos no profissional e quatro no amador, sempre bati na mesma tecla de que o São Paulo não poderia contratar goleiros. Na minha época, contratamos Bosco, Denis, Renan (Ribeiro). Vieram porque não tinha reposição na base", diz Haroldo Lamounier, preparador de goleiros que trabalhou com Rogério Ceni durante mais de uma década no Morumbi e atualmente é membro da comissão técnica do treinador do Fortaleza.

O "efeito Ceni", titular por quase duas décadas do time, e alguns erros de avaliação de diferentes diretorias ajudam a explicar por que poucos garotos forjados em Cotia ou antes mesmo da inauguração do CT da base tricolor, em julho de 2005, tiveram chance de jogar na equipe profissional. É o que pensa Zetti, dono da meta são-paulina no início dos anos 90 – e outro exemplo de alguém trazido de fora (pertencia ao Palmeiras) para a posição.

"Acho que era para ter três goleiros em formação com potencial para servir o São Paulo. Quando o Ceni assumiu como titular, acho que o departamento da base se esqueceu, pensou que não precisaria de um goleiro porque tinha o Rogério Ceni. Não houve uma evolução. Mesmo se falar da geração que veio depois, não criou ninguém, a não ser o Ederson, que perderam e o menino virou um dos goleiros mais caros do mundo", afirma, citando o atual titular do Manchester City e figura constante nas convocações da seleção brasileira. 

Hoje com 25 anos, Ederson passou pela base do São Paulo entre 2006 e 2009, mas acabou dispensado. Mas foi só um dos novatos que viram a diretoria dar preferência a nomes de fora. Durante a Era Ceni e após a aposentadoria do "Mito", o clube contratou nove goleiros: Roger (Flamengo), Alencar (Ituano), Flávio Kretzer (Criciúma), Bosco (Fortaleza), Fabiano (Rio Branco-SP), Denis (Ponte Preta), Renan Ribeiro (Atlético-MG), Sidão (Botafogo) e Jean (Bahia).

Assim, quem subia da base mal tinha vez entre os profissionais, casos de Mateus e Marcio, que passaram a maior parte do tempo de seus contratos sendo emprestados – o segundo chegou a ser vice-campeão estadual pelo Paulista, em 2004, e atualmente treina os goleiros do infantil do São Paulo.

O São Paulo também teve de contratar goleiros por causa de uma tragédia. Em 11 de agosto de 2006, Weverson, então com 19 anos, morreu em um acidente automobilístico na Rodovia Régis Bittencourt. Já Bruno, que tinha 20 anos e dirigia o veículo, ficou tetraplégico. Ambos estavam no profissional e, no clube, eram tratados como o futuro da posição, inclusive com convocações para as seleções de base.

Atualmente, a principal aposta é Lucas Perri, promovido no ano passado ao elenco de cima. No clube desde os 15 anos, ele ainda espera por sua estreia. "Será o titular do São Paulo futuramente, pela qualidade, técnica e pelas conquistas que teve na base. Precisa ter coragem de lançar o menino, não pode frear. Assim que tiver oportunidade, tem de colocar para jogar", diz Lamounier, que chegou a trabalhar com o garoto quando passou um ano em Cotia, trabalhando na base do São Paulo.

Duas perguntas para: Zetti, ex-goleiro do São Paulo

O São Paulo forma poucos goleiros, diante da estrutura que tem?

Sim, o São Paulo é um clube que tem todo esse potencial, uma estrutura fantástica. Os treinadores que passaram se acomodaram também com a situação de ‘ah, eu tenho o Ceni, está bom, põe qualquer outro goleiro aí para jogar de vez em quando’. Não teve uma preocupação com a base em detectar isso. Agora, condições de criar goleiro, tem. 

Como avalia o Sidão? Ele foi criticado injustamente pela torcida?

O problema não é a torcida, é o Rogério Ceni, o Zetti, o Waldir Peres. Por essa tradição de goleiros, a exigência nessa posição acaba sendo muito forte em cima do atleta. Qualquer goleiro do São Paulo precisa ganhar título para ser ídolo.

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