Sérgio Moraes/Reuters
Lugano e Fabão vibram com gol na final Sérgio Moraes/Reuters

SÃO PAULO COMPLETA DEZ ANOS DO TRI DA COPA  LIBERTADORES

Conquista de 2005 marcou ano vitorioso e encerrou 12 anos de jejum

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2015 | 07h00

Demorou 12 anos, um mês e 19 dias para o São Paulo voltar a conquistar a América do Sul. O título da Copa Libertadores de 2005, há exatos dez anos, levou ao Morumbi a terceira taça continental e encerrou a ansiedade da torcida com uma campanha cujo roteiro teve diversos feitos inéditos e algumas mudanças bruscas de rumo.

Ao longo dos 14 jogos, o São Paulo trocou de treinador e de atacante titular. Tais alterações pareciam ter derrubado os pilares da equipe, mas quem chegou, conseguiu se encaixar perfeitamente a um clube que no ano anterior havia retornado a disputar a competição após dez anos. O planejamento iniciado em 2004 colheu como frutos em 2005 também o Campeonato Paulista, em abril, e o Mundial de Clubes, em dezembro.

Para reconquistar o título que era a obsessão o São Paulo precisou superar barreiras. Começou a campanha na altitude de La Paz, onde buscou um 3 a 3 no segundo tempo contra o The Strongest após estar perdendo por 3 a 1. Ainda conseguiu pela primeira vez na história pontuar em um jogo na Argentina, onde empatou com o Quilmes em 2 a 2.

A principal mudança de rumo veio em abril, quando o então técnico, Emerson Leão, aceitou uma proposta do futebol japonês e deixou a equipe logo após o título estadual. Paulo Autuori veio, manteve o esquema 3-5-2 e guiou a equipe pelo restante da Copa Libertadores.

A superação dos problemas naquela campanha teve Grafite como grande epicentro. O atacante destaque da equipe foi vítima de ato racista durante jogo contra o Quilmes, no Morumbi, e ainda se machucou gravemente nas quartas de final. O atleta tinha sido convocado para a seleção brasileira quando uma lesão no joelho o tiraria do restante da Libertadores. Do drama, veio o grande reforço para a reta final. Amoroso chegou para as semifinais e foi decisivo para o título.

Na campanha até a decisão quem brilhou foi Rogério Ceni. Autor de dois gols no mesmo jogo contra o Tigre, o goleiro terminou o torneio com cinco tentos e foi um dos artilheiros da equipe, ao lado de Luizão.

Dois fatos inéditos marcaram as fases derradeiras da competição. Pela primeira vez o São Paulo ganhou uma partida de Libertadores na Argentina. Os 3 a 2 sobre o River Plate, no Monumental de Núñez, credenciaram a equipe para estar em campo na primeira decisão da história entre clubes do mesmo país.

Antes de receber o Atlético-PR no lotado Morumbi o clube precisou aguardar a resolução de uma polêmica. O local da primeira partida da decisão ficou sob suspense enquanto a Conmebol decidia se a Arena da Baixada poderia atender aos requisitos de capacidade mínima do estádio para abrigar uma final. Por não poder receber 40 mil torcedores, o local foi vetado e a penúltima parada antes da sonhada taça foi em Porto Alegre.

Entre tantas surpresas, pelo menos a final aparentemente deu a lógica para a torcida são-paulina. A equipe manteve o 100% de aproveitamento no Morumbi, comprovou o favoritismo e em novo episódio raro, aplicou um placar elástico na decisão. A goleada por 4 a 0 é a maior goleada da história de finais de Libertadores. 

CAMPANHA

Fase de grupos

3/3 - The Strongest 3 x 3 São Paulo

9/3 - São Paulo 4 x 2 Universidad de Chile

16/3 - Quilmes 2 x 2 São Paulo

13/4 - São Paulo 3 x 1 Quilmes

21/4 - Universidad de Chile 1 x 1 São Paulo

11/5 - São Paulo 3 x 0 The Strongest

Oitavas de final

18/5 - Palmeiras 0 x 1 São Paulo

25/5 - São Paulo 2 x 0 Palmeiras

Quartas de final

1º/6 - São Paulo 4 x 0 Tigres

15/6 - Tigres 2 x 1 São Paulo

Semifinal

22/6 - São Paulo 2 x 0 River Plate

29/6 - River Plate 2 x 3 São Paulo

Final

6/7 - Atlético-PR 1 x 1 São Paulo

14/7 - São Paulo 4 x 0 Atlético-PR

FICHA TÉCNICA DA DECISÃO

SÃO PAULO: Rogério Ceni; Fabão, Lugano e Alex Bruno; Cicinho, Mineiro, Josué, Danilo e Júnior (Fábio Santos); Amoroso (Diego Tardelli) e Luizão (Souza). Técnico: Paulo Autuori.

ATLÉTICO-PR: Diego; Jancarlos, Danilo, Durval e Marcão (Rodrigo); Cocito, André Rocha (Alan Bahia), Evandro e Fabrício; Lima (Fernandinho) e Aloísio. Técnico: Antônio Lopes.

Gols: Amoroso, aos 17 minutos do 1º tempo. Fabão, aos 8, Luizão, aos 26 e Diego Tardelli, aos 44 minutos do segundo tempo.

Público: 71.986 pagantes (Renda de R$ 3.026.395,00)

Local: Morumbi

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'Fui ao São Paulo com a certeza de que seria campeão', diz Amoroso

Ex-atacante chegou na semifinal e foi decisivo para a conquista

Entrevista com

Amoroso

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2015 | 07h00

Com Grafite fora de combate e o São Paulo a quatro jogos da chance de título da Copa Libertadores de 2005, a diretoria foi repatriar um velho conhecido do futebol brasileiro. Amoroso, então com 31 anos, chegou pouco antes da semifinal com o River Plate para reviver com o companheiro Luizão a antiga parceria dos tempos de Guarani. Com bom humor e irreverência, repetiu o trocadilho do "Morumtri" antes mesmo de marcar o gol que abriu o placar na decisão. Em entrevista exclusiva ao Estado, o ex-atacante relembrou bastidores daquela conquista.

Você chegou às vésperas da semifinal com o River Plate. Como foi o entrosamento com o elenco?

O fato de eu ter a amizade com o Luizão, que foi o meu companheiro desde as categorias de base do Guarani, foi muito fácil, a gente se conhece muito bem. Só de um dominar a bola, já sabem onde o outro está posicionado. Isso me ajudou a me adaptar. Também já conhecia o Junior, porque jogamos juntos no Parma, o Roger, goleiro reserva, foi meu companheiro no Flamengo em 1996, e o próprio Rogério Ceni, porque estivemos juntos em algumas convocações para a seleção brasileira. Então isso para mim foi fundamental para me readaptar. O Paulo Autuori me recebeu com braços abertos, me deu total liberdade para que eu me tornasse um dos líderes do grupo pela experiência. Estavá há 11 anos fora e vindo para uma reta final de Libertadores, trouxe uma bagagem diferente.

Como foi a recepção dos jogadores?

Foi fantástica. Tinha Cicinho, Lugano, Danilo, Josué, Mineiro, Alex, Edcarlos, era um grupo muito bom. Eu me senti muito bem, porque todos eles viram na minha apresentação, que já falei que estava ali para ser campeão do mundo e da Libertadores. Isso trouxe confiança para o grupo. O respeito por parte dos companheiros foi recíproco e isso fez com que a gente pudesse ter todo um ambiente positivo no elenco e isso me ajudou muito.

E você se sentiu na responsabilidade de corresponder ao papel que o Grafite vinha fazendo?

Ele tinha sido um dos grandes responsáveis pela campanha naquele momento, por fazer o São Paulo chegar até onde estava, fez gols decisivos. Cheguei com uma missão desafiadora, porque muitos não sabiam que eu estava muito bem no Málaga. Vim de férias para o Brasil e recebi duas propostas para voltar para o futebol espanhol, mas acabou surgindo a proposta do São Paulo. Mas me entrosei rapidamente e me adaptei ao clube também pelo carinho dos torcedores, que apoiaram a todo instante, sempre me deram grande importância. Então tudo ficou mais fácil.

Como foi a negociação com o São Paulo?

Eu tinha feito uma temporada no Málaga, com a opção de mais dois anos de contrato. Como vim para o Brasil de férias, recebi propostas para voltar para o futebol espanhol, mas quando estava descansando e avaliando propostas, o meu fisioterapeuta, o Nivaldo Baldo, me ligou e falou: "Precisamos ir para São Paulo porque tem uma proposta para você importante e de conquista, de projeção, que é para jogar a Libertadores". Então já fui de olho fechado. Não fui para o São Paulo por questão financeira, mas sim para ganhar o título, que era o meu objetivo. Libertadores da América é completamente diferente das competições europeias. Aqui vale tudo, tem que se acostumar com cuspida na cara, com tapa no rosto, com tudo o que tem de malandragem e malícia no futebol sul-americano você tem que estar preparado. Para mim não foi um bicho de sete cabeças. Estava confiante que a gente ia ganhar. Muitos não acreditavam, mas eu tinha certeza que esses dois títulos não iam escapar.

Você ainda foi um dos primeiros a usar o termo "Morumtri" e falou isso antes mesmo da final. Por que havia tanta confiança?

Acabei ganhando o apelido de monstro do Morumtri (risos). Quando você tem confiança e se sente em plena forma de falar e cumprir com aquilo, dá certo. Estava muito bem. Até o professor Antônio Lopes (técnico do Atlético-PR) ficou bravo, criticou que o São Paulo se considerava campeão antecipadamente e disse que eu não deveria ter falado isso. Só que foi uma polêmica do bem. Eu estava muito confiante, otimista e que poderia ser campeão e mudar o nome do estádio de Morumbi para Morumtri. E isso o grupo pegou, o torcedor se empolgou também e deu certo.

O quanto a sua experiência na Europa ajudou o elenco?

O fato de eu ter vivido tanto tempo fora e enfrentado grandes jogadores na Europa, como Baresi, Maldini e Zidane, me deu bagagem. Cheguei em um clube onde poucos tinham jogado campeonatos de grande importância na Europa, como o Junior, Christian e o Luizão. Eram poucos com bagagem internacional. Acabei chegando com a responsabilidade de dar um toque a mais de experiência e tranquilidade para o grupo. O Paulo Autuori me escolheu um dos líderes e me fez crescer. O jogo contra o River Plate, em São Paulo, eu posso colocar na lista de uma das minhas melhores atuações em 20 anos como profissional. Só não fiz gol. No primeiro tempo fiz uma jogada em que driblei quatro.

Como mexeu com o grupo a indefinição do local do primeiro jogo?

A gente tem que estar concentrado para o jogo, independente de onde ele fosse. A gente sabe que sabe quando joga na casa do adversário, com a torcida contra, é sempre díficil. Como a Conmebol tirou o jogo da Arena da Baixada, isso fez com que a gente tivesse uma chance maior de conquista, porque o time do Atlético-PR era muito bom, muito forte. Era equipe chata, com jogadores malandros, tinha o Marcão, Cocito, Aloísio, Lima, Fabrício, o Rodrigo, Danilo e tinha ainda o Fernandinho começando. Na Arena da Baixada seria um jogo muito difícil, porque teríamos de jogar como se fosse contra uma equipe argentina. Jogar em Curitiba é muito complicado. Mas quando tirou o jogo de lá e levou para outro lugar (Porto Alegre) por causa da capacidade do estádio, aí eu falei: "Agora já era".

Foi difícil superar a ansiedade até a final no Morumbi?

Foi tranquilo até. A gente foi como íamos para todos os jogos. Havia uma concentração que cada um levava a sua para o campo e eu não posso chegar e interferir nisso. O gurpo era muito unido, sabia que dentro de casa era muito forte, não perderia de maneira alguma aquela final, com o Morumbi lotado. A questão não era nem de concentração e ansiedade, era de acabar logo o jogo, pegar a taça, botar a plaquinha de tricampeão do São Paulo e ir para a churrascaria comemorar.

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