Sávio fala em sair do Real em junho

Uma virtude que Sávio cultiva é a paciência. Controlar os impulsos já o ajudou em muitas situações delicadas na carreira - dentro e fora dos gramados. Mas a tolerância começa a atingir o limite. O ponta brasileiro do Real Madrid vai esperar no máximo até junho para decidir que rumo tomará sua vida. Se continuar na reserva da equipe espanhola, discutirá com dirigentes a possibilidade de sair do clube que o tirou do Flamengo três anos atrás."É estranha essa situação", admite Sávio, titular do Real até o início da temporada de 2000/2001. "Antes eu jogava todas e agora às vezes não fico sequer no banco", reconhece o brasileiro, sem esconder decepção com o treinador Vicente del Bosque. "Não sei onde quer chegar."Sávio sabe que o caminho é ir embora, mas fica dividido por causa dos dois anos de contrato que ainda tem pela frente. Em 2003, segundo acordo feito com o Real Madrid - e conforme lhe garante a legislação esportiva -, terá passe livre, poderá negociar com mais facilidade com qualquer clube interessado. Sondagens, garante ele, já existem, mas toda negociação está sendo transferida para o final da temporada que pode dar outro título espanhol e europeu ao Real. "Meu desejo é ficar, porque gosto do clube", avisa. "Mas tenho de pensar em mim. Até junho alguma coisa vai acontecer."Enquanto não chega a hora da definição, Sávio segue a rotina preparada pelo Real Madrid. No período da manhã, deixa o condomínio de luxo de Fuente del Fresio, nos arredores de Madri, e vai aos treinos na Ciudad Deportiva. Corre, bate bola, participa de coletivos e, às vezes, é convocado para a concentração. Quando surge a oportunidade, entra em campo, ou para disputar jogos do torneio doméstico ou da competição européia, da qual foi campeão em 98 e no ano passado."Não deixo de fazer nada que me mandam", reconhece, sem alterar a voz e com o bom-mocismo que o tornava querido das torcidas desde os tempos do Flamengo. Clube que jamais esqueceu. Embora tenha contato apenas com Bruno Quadros, seu ex-companheiro de juvenis, o time carioca é parte de seus sonhos. "Se tiver de voltar para o Brasil para jogar, terá de ser no Rio", avisa, para emendar que o Fla é sua preferência. Vasco, Botafogo e Fluminense não fazem sua cabeça. Assim como o futebol de São Paulo ou de outro centro nacional. Pelo menos neste momento, em que ainda tem opções na própria Europa.Jogar também é uma forma de não ser esquecido. A torcida do Real ainda o procura, ao final dos treinos, mas não com a mesma intensidade e com o mesmo carinho com que tratam Roberto Carlos, Raúl, Figo, Hierro, McManamann, as estrelas atuais. Amagar reserva tem outro aspecto mais negativo: ficar fora da seleção. Sua última partida com a camisa nacional foi em junho do ano passado, no empate de 1 a 1 com o Uruguai, no Maracanã, pelas Eliminatórias da Copa de 2002. "Não dá para pensar em seleção, se eu não tiver chance de jogar aqui", reconhece. "Ninguém vai vir me observar nos treinos", é a concusão óbvia.Mesmo à distância, Sávio não perde o contato com o Brasil. Embora viva na Espanha há três anos, o sotaque capixaba se mantém quase inalterado. Ele raramente se deixa trair pelo "portunhol" que vira dialeto da maioria de seus colegas imigrantes. Para não ficar desatualizado, navega diariamente pela internet. As páginas virtuais da Agência Estado, da Gazeta de Vitória (sua cidade natal) e do jornal esportivo Lance são as que consulta com regularidade. "Os jornais daqui dão pouca importância ao Brasil", lamenta.Sávio recentemente decidiu também assinar um canal português a cabo que retransmite emissoras brasileiras. Com isso ele a mulher e os filhos Bruno (3 anos) e Hugo (1) podem ver novelas, telejornais e desenhos na "língua de casa". Uma alternativa local de matar saudades é acompanhar os capítulos da novela "Terra Nostra", que a TVE-1 transmite todo final de tarde. Mas soa estranho ver "Matteo", "Paola" falando uma mistura de espanhol com italiano. Já era esquisito em português...

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