Acervo pessoal
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'Se ele soubesse a gravidade, parava na hora', diz irmão

Daniel Ribeiro é um dos dez irmãos que perderam Serginho há dez anos. Ele fala sobre a dificuldade da família e o legado do zagueiro

Entrevista com

Daniel Ribeiro

CIRO CAMPOS E DIEGO SALGADO, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 09h42

Os dez irmãos e os pais do zagueiro Serginho continuam com avida simples que sempre levaram em Serra (ES). A morte do jogador ainda é umtrauma insuperável e as imagens causam mal estar nos familiares, que sereuniram neste domingo para homenagear o defensor. Em entrevista exclusiva aoEstado, o irmão de Serginho, o comerciante Daniel Ribeiro, contou que ozagueiro não tinha noção da gravidade do seu problema cardíaco.

O São Caetano continuou pagando salários por 14 meses, atédezembro de 2005. Vocês receberam alguma coisa?

Nunca procuramos ninguém para isso. Nossa família é muitosimples. Todo mundo continuou vivendo aqui. Todo mundo trabalhando.

Como é a vida de vocês hoje?

Está todo mundo bem, a gente vive bem. Somos unidos.

Vocês pensaram em recorrer à Justiça?

Ninguém pensou em entrar na Justiça. Isso não iria trazer oSerginho de volta. Os dez irmãos continuaram a suas vidas. Ninguém  queriadinheiro. Ninguém vivia do dinheiro do Serginho. Todo mundo tinha o seuemprego. Ele ajudava com o plano de saúde e com alguma coisa que precisasse.

Pediram algo para a Helaine (viúva de Serginho) depois damorte?

A gente pediu que ela continuasse ajudando a pagar o planode saúde dos nossos pais. Depois de três, quatro meses, ela parou de ajudar edisse que estava com  dificuldades. Nos juntamos aqui e continuamos apagar. Pagamos por oito anos. No ano passado paramos, porque o plano aumentoudemais.

É difícil para você relembrar tudo isso?

A vida segue. Ele mora no fundo do coração. Temos de lembrardo que ele foi. Do legado dele. Vamos fazer uma reunião aqui para lembrar.Minha sobrinha decidiu fazer uma camisa. Vamos fazer uma oração e lembrarum pouco dele. É bom lembrar.

Qual legado ele deixou?

Que quem batalha, quem quer um sonho, consegue. Ele mostrouque com simplicidade, honestidade, consegue chegar onde quer. Ele deixou umlegado muito bonito.

Os seus pais estão longe do filho do Serginho. Como encaramessa situação?

Eles sentem falta do neto, mas não tem como viajar para SãoPaulo e vê-lo.

Vocês têm mágoa de alguém?

Não existe mágoa alguma. Somos religiosos.

Você tem algum trauma?

Só temos trauma de ver a imagem. Mas sempre que vejo acamisa azul, o São Caetano jogando, eu torço.

Seus pais tiveram quantos filhos?

Eram 11 irmãos. Agora somos dez. Na verdade, somos 11 ainda.

Como o Serginho começou a jogar futebol?

Serginho ficou aqui em Serra até os 19 anos. Ele jogavacampeonatos de várzea. Nunca jogou profissional aqui. Ele viajava para ondeaparecia uma oportunidade. O patrão dele liberava e dizia para ele procurar osonho dele. Ele foi para Itu, Matsubara.

O que ele fazia?

Ele trabalhava em uma empresa de pias aqui em Serra.

Ele já se destacava?

Muito. Eram quatro irmãos na várzea. Eu era zagueiro ao ladodele. Eu já jogava e ele começou a jogar com 14 anos. Já era grandão, bom debola, magrelo e sempre disposto a jogar. Era um monstro. Disciplinado. Elejogava muito sério, não tinha meio termo com ele.

E como conseguiu ir para um clube e jogar profissionalmente?

Ele foi visto e conseguiu ir para o Serrano, de CoronelFabriciano. Ele disputou a segunda divisão do Campeonato Mineiro. O São Caetanocomprou o Serginho por R$ 200 mil, quando ele saiu do Araçatuba.

Vocês se falavam bastante?

Nos falávamos por telefone constantemente. Nossa família eraafastada dele por causa da distância. Mas fomos ver alguns jogos dele,como na final da Libertadores (em 2002), na semifinal do Brasileiro contra oAtlético-MG (em 2001). Meu pai e minha mãe foram em alguns aniversários doneto. A gente ia quando dava. E ele voltava para cá nos fins de ano.

Onde você estava no dia da morte?

Eu estava chegando de um curso. Fiquei sabendo que ele foipara o hospital. Mantive a calma e todos nós corremos para a casa dos nossospais. Todos, os  filhos e netos.

Alguém foi para São Paulo?

Não. O corpo foi para Coronel Fabriciano. Ela (Helaine) nãoliberou o corpo, que foi para Minas. Papai e mamãe insistiram, mas ela nãoliberou. Começou aí o desentendimento. O velório poderia ser aqui e o enterrolá. Família toda aqui, os dez irmãos. Nós tivemos que viajar, alugamos umônibus e fomos para Minas Gerais. Ele tinha de ser enterrado aqui, perto dafamília, onde cresceu.

Qual foi a última vez que você o viu pessoalmente?

Ele esteve aqui em julho. Nós tiramos fotos aqui em casa.Ele disse para nós que fez o exame e foi constatada (a arritmia), mas semgravidade. Passaram  os remédios. Ele continuou tomando a medicação ejogando. Se falassem do problema grave, ele pararia para fazer tratamento. Elejá tinha alguns terrenos já.  Tinha de ter dito que o coração dele estavaenorme. Quando há dinheiro no meio, é complicado.

Ele se mostrou preocupado?

Ele estava tranquilo. Ele sabia que tinha algum problema,mas não sabia da gravidade. Ele continuou jogando. Para ele era uma arritmiapequena. Ele fez o  cateterismo. Isso que passaram para ele: com oremédio, ele poderia continuar. Mas ele estava com o coração explodindo. Sefalassem, ele pararia de  jogar futebol. Ele me disse tudo issopessoalmente.

O Serginho tinha planos para o futuro?

Ele me disse que tinha cinco propostas boas da Europa. Eramcertas, para sair no fim do ano. O salário era muito bom. Ele queria jogar maiscinco anos, fazer o "pé de meia" na Europa e encerrar a carreira paracuidar do filho. Iria juntar mais dinheiro, montar um negócio em CoronelFabriciano e viver a vida.

Vocês ainda têm contato com a Helaine ou a diretoria do SãoCaetano?

O vínculo com eles acabou mesmo depois do falecimento doSerginho. Se ela (Helaine) ligar, a gente conversa. Ninguém guarda rancor. Elanão precisava se afastar. Se o filho dele aparecer, meus pais ficariammaravilhados. Eles ficariam perto do neto. Minha sobrinha tem contato pelainternet. A gente fica sabendo dessa forma.

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