'Se classificarmos, não vamos ser campeões da Copa do Mundo em 2018'

'Se classificarmos, não vamos ser campeões da Copa do Mundo em 2018'

Campeão do mundo com a seleção em 1970, ex-jogador faz análise crua e sincera do futebol brasileiro

Entrevista com

Roberto Rivellino

Amilton Pinheiro, especial para o Estadão, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2015 | 13h08

Ex-jogador da seleção nas Copas de 1970, 1974 e 1978, Rivellino, que atuou 123 vezes com a camisa da seleção, diz que precisamos reestruturar todo o futebol brasileiro para pensarmos em ganhar outro mundial, mesmo que para isso seja necessário deixar de ir a uma Copa do Mundo. “Temos que voltar às origens do nosso futebol, mesmo que para isso tenhamos que sacrificar a participação numa Copa do Mundo. Temos que mexer com o futebol brasileiro, reestruturá-lo. Antes a gente tinha dois, três, jogadores lá na frente que resolviam o nosso ataque, hoje só temos Neymar”, fala. 

A seleção brasileira corre algum risco de não se classificar entre as quatro das Eliminatórias sul-americanas?

Todas as Eliminatórias foram difíceis, não tem fácil. Antigamente o processo [de classificação] era diferente. Mas, claro, que a seleção em si, pelo mal futebol que apresenta atualmente tem riscos maiores do que no passado. Além disso, as seleções estão mais niveladas. O Chile cresceu, a Venezuela também. É bom esclarecer que estamos nivelados por baixo. Vai ser difícil, sofrível, mas eu acho que mesmo sendo sofrível, acredito que a seleção tem condições de se classificar.

Temos risco de ir para repescagem?

Não, pois se não se classificar nas eliminatórias de turno e returno é melhor volta para casa, não vale a pena ir para a Copa do Mundo, via disputa na repescagem. Caso não se classifique entre as quatro seleções, e depender de uma vaga lá na Oceania, aí, meu Deus, é demais para a gente, é muito sofrimento.

O que vem acontecendo com o futebol brasileiro nesses últimos anos?

O nível técnico caiu muito, mesmo o campeonato brasileiro, que está interessante esse ano, mas a qualidade técnica dos jogadores em si é muito baixa. Faltam poucas rodadas para terminar o campeonato e você não tem grandes jogadores, os que mais vêm se destacando são os mais velhos. Mesmo o Corinthians, que é o primeiro da tabela, não encanta, apesar de apresentar algumas vezes um bom futebol, não passa de um time regular, que vem se mantendo assim como o primeiro da tabela. Quero ver qualquer time brasileiro jogando com um, por exemplo, Bayern [de Munique], um Barcelona, um Real Madrid, certamente as dificuldades seriam muito grandes.

Por que os atletas brasileiros que jogam fora do País e são escalados para a seleção brasileira têm melhor rendimento nos seus clubes de origem do que na seleção, é só olhar o que aconteceu na Copa do Mundo do Brasil?

Os jogadores que são escalados, com raras exceções, não são protagonistas nos seus clubes lá fora. Eles usam o espaço do campo para de vez em quando fazer uma jogada, mesmo o Neymar, ele não é protagonista no Barcelona. Esses jogadores aparecem por causa dos outros atletas que se destacam nesses clubes. Você tem, por exemplo, um Philippe Coutinho (que joga no Liverpool), bom jogador, mas não é aquele jogador que vai pegar a bola e fazer algo sensacional. Ele vai tocar do lado até criar uma situação. Da mesma forma que um Willian (do Chelsea) e mesmo o Oscar (também do Chelsea). Dentro da seleção, que joga lá fora, só tem mesmo Neymar, que cria, que faz jogada individuais. O resto dos atletas só fazem tocar do lado. Claro que de vez em quando eles têm que fazer uma jogada e fazem. Quando vem para a seleção existe essa cobrança de fazer jogadas individuais, ainda mais por eles jogarem em times de bom rendimento. Lá eles funcionam dentro de um esquema tático, que na maioria das vezes é bem diferente do que é desenvolvido na seleção brasileira.

Na Copa do Mundo do Brasil....

Na vergonhosa Copa do Mundo do Brasil, você quer dizer. Foi a maior vergonha da seleção dentro de uma Copa do Mundo até hoje.

Muito se falou que um dos problemas da seleção brasileira na Copa foi a falta de base do nosso futebol. O que você pensa a respeito?

Claro que teve isso, mas têm outras coisas. É um processo maior. A base hoje é de fato um problema. É só ver o campeonato brasileiro, que em outras épocas, já teria mostrado alguns jogadores novos diferenciados. Hoje não tem. Aparece um aqui, outro ali, que não é lá essas coisas. O conceito de base mudou muito nesses últimos anos. Na minha época, quando ia se fazer a famosa 'peneira', o moleque já mostrava para o que veio, mostrava qualidade técnica e talento individual. Hoje o moleque corre vinte quilômetros e dizem que ele é bom, mesmo que ele não seja tecnicamente. Outra concepção errada em relação a base é a exigência da marcação. Estamos deixando de lado os moleques que têm talento natural para o drible, para a jogada individual, mesmo que não seja um bom marcador, esse moleque não serve nesse conceito de base.

Quem foi o melhor técnico de todos os tempos?

Melhor dizendo, quem é o melhor técnico, pois para mim é o (Pep) Guardiola (que atualmente dirige o Bayern de Munique), ele é o maior treinador de todos os tempos. Ele tem um entendimento de marcação, que eu também comungo, que é ocupação de espaço. Cadê a famosa camisa 10 dos times de hoje?  Sumiu, como sumiram os pontas. Agora todo mundo fala que tem que ter ponta na seleção brasileira, que o problema da seleção é ponta.

Isso lembra o personagem Zé da Galera, que Jô Soares interpretava no seu programa humorístico, na Globo, quando cobrava do técnico Telê Santana os pontas...

Naquela época se cobrava pontas como também se cobra agora. Os times atualmente jogam com três volantes. Os treinadores estão preocupados com a qualidade dos passes, para que os jogadores de defesa saibam sair tocando a bola, até porque não há bons jogadores no meio de campo, são cada vez mais raros. Você tem Lucas Lima, do Santos, que é um garoto que me agrada muito.

Qual a visão dos técnicos brasileiros?

Os treinadores só sabem fazer o seguinte: como não têm bons jogadores vindos da base, eles preenchem o meio de campo com três, quatro marcadores e o resto vai nesse esquema.

E a qualidade do futebol lá fora?

Apesar do futebol brasileiro andar mal das pernas, lá fora não é muito diferente. Veja, por exemplo, os atletas que vencem o prêmio [FIFA] de melhor jogador do mundo. Ou é Cristiano Ronaldo ou é o Messi. 

Voltando para as Eliminatórias, o Brasil é favorito?

Não sei. O que sei é que temos que rezar para que o Brasil se classifique entre os quatro. Depois da vergonha que nós passamos na Copa do Mundo do Brasil, pensei que iam mudar o conceito do futebol brasileiro, mas estamos cometendo os mesmos erros.

O Dunga foi a melhor escolha como técnico?

Não tenho nada contra ele, mas teria que ser outro técnico. Para mim seria o Tite, mas eles (a CBF) preferem conveniências, os interesses. Temos que voltar as origens do nosso futebol, mesmo que para isso tenhamos que sacrificar uma participação numa Copa do Mundo. Temos que mexer com o futebol brasileiro, reestruturá-lo. Antes a gente tinha dois, três, jogadores lá na frente que resolviam o nosso ataque, hoje só temos Neymar.

E se a seleção se classificar, o que você espera da nossa participação na Copa do Mundo da Rússia?

Se nós nos classificarmos, eu não espero muita coisa. Não vamos ser campeões do Mundo em 2018. Para vencermos outra Copa do Mundo, temos, digo novamente, que reestruturar todo o nosso futebol, da base a seleção. Por exemplo, colocamos um treinador (Dunga) que só se preocupa em ganhar. Ele não está preocupado com o futebol brasileiro. Ele quer ganhar os jogos para continuar sendo técnico da seleção brasileira.

 

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