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Cláudio Nogueira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2018 | 05h00

O Catar quer entrar para a história do futebol. Se ainda não consegue fazer isso dentro de campo, com uma seleção forte, vai tentar na organização do evento - o Mundial a ser disputado em 2022, quando a França defenderá sua conquista este ano na Rússia. O excesso de confiança do Comitê responsável é gigantesco, como demonstra Fatma Al Nuaimi, diretor de comunicação do Comitê Supremo do Catar para Entrega e Legado, nome oficial do grupo organizador do torneio. Logo de saída, a Copa do Catar já tem um atrativo diferente. Por causa do calor nos meses de junho e julho, de 50 graus C, a disputa está marcada entre 21 de novembro e 18 de dezembro. 

Por falar em grande evento, Nuaimi explica que a competição estará aberta a todos, inclusive à comunidade LGBT, e garante. “Sim, estamos prontos para quebrar os paradigmas da organização de Copas do Mundo e nos estabelecermos como referência em termos de megaeventos esportivos e seu legado. Espero que vocês possam juntar-se a nós em 2022”, declarou em entrevista exclusiva ao Estado.

Ritmo das obras

Estamos felizes com o progresso que temos feito em nossos estádios, desde o início das construções em 2014. O Khalifa International Stadium (existente desde os anos 70, reformado), é o primeiro estádio do Catar pronto para o Mundial. Foi concluído mais de cinco anos antes do torneio, em maio de 2017 quando sediou a final da Copa do Emir, a copa da liga nacional catari. As construções estão evoluindo bem nas nossas outras sete instalações, e todas estarão concluídas em 2020.

Receio de atrasos nas obras

De jeito algum. Estamos planejando lançar dois estádios no começo do próximo ano, Al Bayt e Al Wakrah, e todas as nossas arenas estarão concluídas em 2020, bem antes do início da competição. Vale mencionar aqui que tínhamos planos de contingência em andamento. Isso nos permitiu ser capazes de responder rapidamente ao bloqueio ilegal ao Catar (em junho de 2017, Bahrein, Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos fecharam suas fronteiras aéreas e impuseram bloqueios político e econômico à futura sede da Copa). Estabelecemos rotas alternativas de suprimento por meios de países como Omã, Irã, Turquia, Paquistão, China e Malásia. Atualmente há muito trabalho, como de costume, e estamos em dia com o cronograma em todos os nossos projetos.

Investimentos

Estamos trabalhando com um orçamento de cerca de 23 bilhões de riyals (US$ 6,32 bilhões, ou R$ 25,64 bilhões). É importante notar que a maior parte da construção da infraestrutura teria sido levada adiante, independentemente da vitoriosa candidatura para sediar a Copa do Mundo. Expansões da malha rodoviária, o sistema nacional do metrô e a expansão do Aeroporto Internacional de Hamad são todos projetos integrantes da Visão Nacional Catar 2030 e foram todos planejados antes de o país ter-se decidido, em 2009, a se candidatar para sediar o Mundial.

Mudanças mais importantes em Doha

Os três projetos que mencionei serão transformadores para o Catar e seu povo. Tão logo esteja operando, o Metrô de Doha, por exemplo, vai tirar 200 mil automóveis de circulação. É também totalmente movido a eletricidade, reduzindo a poluição na cidade, e as estações de trem estão em média a 2 minutos de distância uma da outra. Isso significa que os passageiros poderão viajar através de Doha e para fora da cidade de forma rápida e eficiente. Do mesmo modo, a malha rodoviária é ambiciosa em sua concepção, com 19 novas vias expressas concluídas e outras dez com obras em andamento. O premiado Aeroporto Internacional Hamad será capaz de receber mais de 50 milhões de passageiros por ano, após a conclusão de sua expansão, tornando-o um dos mais movimentados e mais modernos aeroportos do mundo.

Copa das Confederações

Todos os nossos estádios estarão concluídos em 2020. Então, a infraestrutura estará montada bem antes do evento-teste proposto para 2021. Entretanto, estamos ainda finalizando os planos para qualquer que seja o evento-teste da Fifa. Nós teremos alegria em organizar qualquer que seja o evento-teste que consideremos o melhor para testar a preparação do Catar, antes do pontapé inicial para a Copa do Mundo.

Álcool e comunidade LGBT

O álcool não é parte da cultura catari e não poderá estar disponível em todos os lugares, e sim em áreas designadas. A Fifa vai trabalhar junto com o Comitê Organizador, como faz em todas as nações-sede de todas as Copas do Mundo, para encontrar uma solução que satisfaça as partes interessadas internas e externas. Com relação aos torcedores LGBT, todo mundo será bem-vindo. O Catar é um país relativamente conservador, mas tudo o que pedimos aos visitantes é que respeitem nossa cultura e tradições. O Catar foi recentemente considerado o país mais aberto no Oriente Médio e o oitavo mais aberto do mundo no que diz respeito à concessão de visto pela Organização Mundial de Turismo, que nos ajudará a garantir que possamos facilmente recepcionar o máximo de pessoas que pudermos em 2022.

Operários empenhados

Temos uma força de trabalho total de mais de 28 mil pessoas ao redor de todos os nossos locais de construção e escritórios. Agora estamos nos aproximando do nosso período de pico de construções e provavelmente iremos superar os 30 mil trabalhadores lá pelo fim deste ano ou no início do próximo.

Oportunidades de trabalho para brasileiros

É claro! Temos uma equipe incrivelmente diversificada e talentosa que inclui mais de 50 nacionalidades. O Catar é uma economia global, recepcionando sem visto pessoas de quase 90 países, e isto está refletido na força de trabalho e no Comitê Supremo do Catar para Entrega e Legado.

Denúncias de trabalho escravo

A saúde e a segurança dos nossos trabalhadores permanece sendo a prioridade número 1. Temos nos nossos locais de trabalho uma taxa de frequência de acidentes comparável ou superior a muitos padrões internacionais, inclusive os preparativos para os Jogos Olímpicos de Londres, amplamente considerados os mais seguros da história. Mas também reconhecemos haver ainda muito trabalho a ser feito e vemos o fato de o Catar sediar a Copa do Mundo como um catalisador para acelerar iniciativas positivas já em andamento no país. Isto deixará um legado de progresso significativo e sustentável com relação ao bem-estar dos trabalhadores ao redor do país. Esperamos estabelecer um novo parâmetro para a nossa região (o país é circundado pelo Golfo Pérsico, no Oriente Médio). Dos padrões de acomodações que foram melhorados à tecnologia utilizada para a refrigeração (das arenas); do reembolso das taxas de recrutamento aos programas de nutrição que ajudam a educar e a criar preferências alimentares mais saudáveis (por parte dos trabalhadores), não estamos medindo esforços em nosso empenho para tornar o trabalho e a vida no Catar tão confortável e recompensadora possível para nossa força de trabalho engajada nos projetos para a Copa do Mundo.

Melhor de todas as Copas

Embora a Rússia tenha estabelecido um padrão muito elevado com a Copa do Mundo de 2018, estamos confiantes que nossos preparativos irão oferecer aos fãs do futebol, aos jogadores e aos dirigentes e técnicos igualmente uma inesquecível experiência. O Catar é não apenas um dos países mais seguros do mundo, tornando-se particularmente popular junto a crianças e famílias. Mas toda nossa infraestrutura da competição, inspirada na cultura árabe e com tecnologia de ponta, se estende por um raio de 50 km a partir do centro de Doha. Isso promete uma atmosfera festiva em Doha ao longo do torneio de 28 dias. A apenas quatro horas de voo para dois bilhões de pessoas, o Catar também tem uma localização central no mapa, para tornar a viagem conveniente para os fãs, alguns dos quais podem jamais ter tido a oportunidade de assistir antes a uma Copa do Mundo ao vivo. Estamos ansiosos para dar calorosas boas-vindas ao estilo catari para milhões de visitantes de todos os cantos do globo que estamos aguardando para 2022. Vemos o fato de sediar a primeira Copa do Mundo no Mundo Árabe como uma imensa oportunidade para educar as pessoas sobre a nossa região, utilizando o poder do futebol para reunir as pessoas. Também consideramos o Mundial uma parte vital dos planos de desenvolvimento nacional do Catar, acelerando iniciativas governamentais e de infraestrutura para ajudar a tornar nosso país mais saudável e mais sustentável para futuras gerações. Em resumo, sim, estamos prontos para quebrar os paradigmas da organização de Copas do Mundo e nos estabelecermos como referência em termos de megaeventos esportivos e seu legado. Espero que vocês possam juntar-se a nós em 2022.

 

 

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Claudio Nogueira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2018 | 05h00

O Catar parece mesmo disposto a não poupar esforços para tornar seu Mundial o melhor de todos, a “Copa das 1001 Noites”, em referência aos fantásticos contos da literatura árabe. Será também a primeira Copa do Mundo de sua seleção. No ano que vem, convidados pela Conmebol, a Confederação Sul-Americana de Futebol, os cataris vão disputar a Copa América, cujo palco será o Brasil.

Para 2022, ano do primeiro Mundial de futebol num país árabe, o Catar trabalha na construção de sete estádios, além de já ter pronto, totalmente reformado, o Khalifa International Stadium. Inaugurado em 1976, é o mesmo que havia sediado o Mundial de Juniores de 1995, os Jogos Asiáticos de 2006 e a Copa Asiática de 2011. Sua reforma para a Copa foi concluída em maio de 2017, deixando-o com capacidade para receber 40 mil torcedores.

Um dos estádios em construção é o Al Wakrah Stadium, tambem para 40 mil pessoas e com inauguração prevista para 2019. Al Wakrah é a segunda maior cidade catari e faz limite, ao leste, com as praias do Golfo Pérsico. Também a ser aberto ao público em 2019, o Al Bayt Stadium deverá ter capacidade para 60 mil espectadores, na cidade de Al Khor, no norte do país, a 60 km da capital. Será o mais distante de Doha, epicentro da celebração futebolística.

Este será o Mundial mais compacto da história e, devido às curtas distâncias e à facilidade de transportes, será possível ao torcedor assistir ao primeiro e ao último jogo de uma rodada em que haja três partidas. Ainda em 2019, outra arena a ser inaugurada será a do Al Rayyan Stadium, para 40 mil pessoas. Posteriormente, vai servir ao clube poliesportivo homônimo.

Em 2020, deverão ser inaugurados três instalações esportivas. Uma delas será o Al Thumama Stadium, cujo formato lembra o de um gorro usado pelos homens na cultura árabe. Nele, caberão 40 mil espectadores. Embora o emirado do Catar seja rico, não irá desperdiçar dinheiro em eventuais elefantes brancos. Por isso, o Ras Abu Aboud Stadium será totalmente desmontável. Está sendo edificado com partes pré-fabricadas, que posteriormente serão utilizadas noutros projetos. Deve ser inaugurado em 2020, e vai ser outro estádio com capacidade para 40 mil pessoas.

Também daqui a dois anos, em 2020, finalmente o planeta futebol conhecerá um segredo guardado a sete chaves: o Lusail Iconic Stadium, o principal do Mundial, para 80 mil pessoas, e cujo projeto é secreto, embora já tenham sido publicadas algumas ilustrações de como seria (nenhuma delas confirmada). Lusail está a 15 km de Doha e atualmente é pouco mais que um deserto, mas a localidade irá se desenvolver em função dessa arena, dando origem praticamente a um novo bairro ou nova cidade.

Mais adiante, em 2021, será inaugurado o Qatar Foundation Stadium, como parte do complexo de escolas e universidades denominado Cidade da Educação, também em construção. Na Copa, vai receber 45 mil espectadores, mas após o megaevento, sua capacidade será reduzida para 25 mil, tornando-se um estádio de atletismo e esportes universitários.

É fato que que até hoje o processo de escolha do país, ocorrida em 2010, para sediar o megaevento foi considerado corrupto – teria havido compra de votos de membros da Fifa. Mas no Catar, o próximo grande objetivo esportivo, depois do Mundial, será organizar a Olimpíada e a Paralimpíada. Doha já foi pré-candidata derrotada na luta para ser sede dos Jogos de 2016 e de 2020.

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Cláudio Nogueira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2018 | 05h00

A extração e o comércio de pérolas, no distante século 8º, foram responsáveis por algumas das primeiras citações históricas de uma região então pouco conhecida, mas que agora está a quatro anos de se tornar um estádio planetário, graças a outro tipo de esfera: as bolas de futebol. Trata-se do Catar, atualmente o país de melhor PIB per capita da Terra (US$ 129.112 por pessoa), futura sede da próxima Copa do Mundo. A competição não acontecerá nos meses tradicionais de junho e julho, porque em tal período a temperatura ambiente, sob o sol, passa facilmente dos 50ºC.

Graças principalmente ao gás natural, ao petróleo e aos investimentos no mercado financeiro, o pequeno emirado do Golfo da Arábia cresceu de forma incrível, em especial a partir dos anos 90 do século passado, a ponto de estar se preparando para sediar o Mundial de futebol e ter como grande sonho esportivo organizar uma edição dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Verão.

Somente quem ainda não teve a oportunidade de conhecer o Catar duvida de sua capacidade de realização, embora o país esteja sendo desde junho de 2017 alvo de um embargo político, econômico e de rotas aéreas por parte de nações vizinhas, como o Bahrein, Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Para ficar restrito apenas ao aspecto esportivo, vale observar que os cataris realizaram nas últimas duas décadas uma série de eventos, como o Mundial Sub-20 de 1995. Mais recentemente, sediou os Jogos Asiáticos (competição poliesportiva semelhante aos Jogos Pan-Americanos), em 2006; a Copa Asiática de Futebol (torneio continental, como a Copa América), em 2011; o Mundial de Natação em Piscina Curta (25m), em 2014; Mundiais de Handebol, Atletismo Paralímpico, Boxe Amador e Tênis Escolar, todos em 2015; Mundial de Ciclismo de Estrada, em 2016; e o Campeonato Mundial de Ginástica Rítmica, que vai ocorrer entre o próximo dia 25 de outubro e 3 de novembro.

Ao mesmo tempo, prepara-se para sediar um dos maiores eventos do esporte, o Mundial de Atletismo, no ano que vem, algo que pode, sim, ser visto como uma forte demonstração do interesse de um dia organizar a Olimpíada. Além disso, promoveu ou promove anualmente GPs do Mundial de Motovelocidade, e torneios de tênis, golfe e outras modalidades.

Vale lembrar que a holding Qatar Sports Investments é a dona do PSG da França, clube do brasileiro Neymar. E o país mantém em Doha o moderno centro poliesportivo de formação de atletas chamado Aspire.

Mas que país é esse, desconhecido no mundo do futebol, que jamais disputou uma Copa e que sonha voar tão alto? Trata-se de um “pequeno gigante”, com seus 11,571 mil km², quase a metade dos 21,910 mil km² do Sergipe, o menor Estado brasileiro. Nação que, apesar desse reduzido tamanho e da população de 2,710 milhões de pessoas, vem-se mostrando capaz de grandes realizações, em especial a partir dos anos 40, quando começou a exploração dos poços de petróleo, quando sua economia deixou de depender das pérolas preciosas.

Uma curiosidade é que, de sua população total, apenas cerca de 30% são cataris natos, sendo a maioria imigrantes da Ásia e da África que para lá seguem para trabalhar. A população masculina é maior que a feminina, já que muitos dos imigrantes homens não podem levar suas famílias para o país, onde moram em alojamentos. Dados de 2016 do site www.statista.com informavam haver 1,975 milhão de homens para 642 mil mulheres.

No aspecto político, consiste numa monarquia islâmica e absolutista, governada pelo emir (soberano) Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani. Por isso, é chamado também de emirado. A bandeira é marrom ou bordô, com nove dentes brancos, que significam a entrada do país como nono membro do Tratado de Paz dos emirados daquela região com a Coroa Britânica, em 1916. Foi protetorado britânico até 1971, quando declarou sua independência.

Por tradição, seu hino garante ser aquela a terra onde surgiu a humanidade, devido às descobertas arqueológicas que indicam a presença humana na região desde a Idade da Pedra. A canção oficial, de louvor a Alah e ao emir, termina afirmando que os cataris são pacíficos como pombas em tempos de paz, mas igualmente aguerridos e determinados como os falcões – pássaros astros da falconeria, um dos esportes favoritos da nação – quando têm de sacrificar-se por ela. 

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