Segunda classe

O bairro chegou perto do estádio, invadiu a área dele; não vice-versa

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2016 | 05h00

Tradição antiga: as ruas em volta do estádio ficam tomadas por torcedores em dias de jogos do Palmeiras. Aquele que não tem ingresso perambula pela zona para sentir-se próximo ao time. Mesmo do lado de fora, crê na possibilidade de mandar bons fluidos. O pessoal passa o tempo a bebericar e mordiscar nos bares da redondeza.

A versão terceiro milênio do bom e velho footing intensificou-se com a transformação do histórico Palestra Itália no imponente Allianz Parque. Com os ingressos bem mais caros, e com o sucesso da iniciativa "Avanti", de sócio-torcedor, muito mais gente se viu excluída da visita ao estádio com a bola a rolar. A compensação para os sem-ingresso se limita a zanzar pela Turiaçu e adjacências. 

Sobretudo nos fins de semana, a onda verde se espalha e vira um mar. É palmeirense a dar com pau espalhado naquele pedaço de Perdizes. Festa, farra, confraternização. Cidadãos de todos os tipos e extratos sociais a dividirem a rua como espaço comum, público, como é a vida em sociedade.

Agora mudou. 

Dias atrás, antes do jogo com o Sport, palmeirenses souberam que não poderiam circular num quadrilátero em volta do campo. Naquele trecho só seria permitida a presença de quem apresentasse o respectivo bilhete para a partida. Os demais que se virassem, a ordem era para "circular, circular"!

Não apareceu oficialmente o pai de tal atitude, embora haja uma pista. Tempos atrás, o Ministério Público havia acenado com essa opção, como uma das ações para combater a violência. A alegação da PM para medida que inibe o direito de ir e vir: evitar proliferação de cambistas e ambulantes. Quer dizer, se combate comércio ilegal impedindo que seus agentes fiquem pertinho do estádio. Se os abusos ocorrerem longe, não há problema? Qual a lógica de tal estratégia?

Medida adicional foi a proibição de consumo de bebidas alcoólicas na vizinhança. Como se assim todos se mantivessem sóbrios – os que têm o privilégio de ostentar a entrada para o espetáculo e a ratatuia que lambe os beiços com vontade de ver o time em ação. Quem quer encher a cara o faz, com ou sem a permissão de autoridades. Quem quer brigar, igualmente arruma motivos, com ou sem pinga na cabeça.

Há quem veja nessa limpeza de área conforto para os moradores. Sem dúvida, com menos gente por lá, a tendência é a de zoeira no mínimo mais branda. Esquecem-se, porém, de dois detalhes: viver numa cidade é compartilhar espaços, ceder, trocar experiências. Não se pode exigir que ruas sejam fechadas como se fossem condomínios. Para esse tipo de moradia há áreas devidamente preparadas e reservadas.

Reclama-se da apoquentação provocada pela presença de um estádio de futebol no coração de bairro de classe média alta. Calma lá! O Palestra Itália existe desde 1902, quando a região era afastada do centro nervoso de São Paulo. O bairro chegou perto do estádio, invadiu a área dele; não vice-versa. Não tem culpa o Palmeiras se a especulação imobiliária transformou uma zona aprazível, antes repleta de sobradinhos simpáticos, em concentração de espigões.

A restrição imposta sem conversa embute preconceito contra torcedores. Pessoas comuns são tratadas como cidadãs de segunda classe. Parte-se do princípio de que quem curte o joguinho de bola, por definição, está disposto a arrumar bafafá, em detrimento da ordem pública. Em uma palavra: é um desqualificado. Portanto, merece ficar na mira da Lei. Sabe-se lá qual lei seria...

A repressão é mal silencioso, ladino; insinua-se sem alarde. Uma hora é uma restrição aqui, depois estende-se para acolá e lá adiante, como se nada fosse. Quando o povo se der conta, a mordaça terá virado realidade. Melhor o diálogo, a prevenção; deixem torcedores circularem em paz, não lhes neguem o prazer de ficar perto do "templo". Se o sujeito arrumar treta, se o cambista for acintoso, que sejam retirados. E que os demais curtam o ócio em harmonia.

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