Christopher Hanewinckel/USA Today
Eleita a melhor jogadora de futebol do mundo seis vezes, Marta comanda o Brasil Christopher Hanewinckel/USA Today

Seleção brasileira de Marta perde rumo e status às vésperas do Mundial

Mesmo com a melhor jogadora do mundo, Brasil acumula sete derrotas consecutivas e se distancia das favoritas ao título na França

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2019 | 04h30

Mesmo após Marta ser eleita pela sexta vez a melhor jogadora do mundo, um recorde absoluto na premiação da Fifa, a seleção brasileira feminina de futebol deverá chegar ao Mundial deste ano, na França, desacreditada. A competição começará no dia 7 de junho e até lá o técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão, terá pouco tempo para preparar e mudar o rumo da equipe nacional, que sofreu sete derrotas nos últimos sete jogos. 

Embora defenda que o Brasil jogou bem e merecia melhores resultados nas três partidas finais desta sequência, contra Inglaterra, Japão e Estados Unidos, o treinador admite que, no momento, o seu time não pode se colocar entre as principais potências do futebol feminino e, consequentemente, não está entre as favoritas ao título. A situação do time coloca em xeque a modalidade no País, que vive às turras com a falta de investimento dos grandes clubes.

Vadão reconhece que a seleção não conseguiu evoluir, ao passo que várias outras rivais cresceram e se tornaram mais protagonistas do que o Brasil. “Antigamente, tinha quatro ou cinco equipes favoritas no Mundial. Hoje, temos umas dez. Tem a Inglaterra, que subiu demais, Japão, Canadá, Noruega, Austrália, França, Alemanha... (não cita o Brasil). A evolução do futebol feminino dos outros países foi muito grande, enquanto nós estacionamos”, afirmou o técnico ao Estado.

Desde que Vadão reassumiu o comando do time, em setembro de 2017, o Brasil disputou 21 jogos, nos quais acumulou 12 vitórias, um empate e oito derrotas, todas para equipes que estarão no Mundial. O último triunfo ocorreu dia 29 de julho de 2018, quando bateu as japonesas por 2 a 1 em amistoso nos EUA. Nove das 12 vitórias de Vadão foram sobre rivais sul-americanas, quase todas de um nível considerado fraco ou até amador no futebol feminino.

REFLEXO DA GERAÇÃO

O técnico vê o Brasil também com uma geração carente de talentos. “Se você pegar a seleção brasileira masculina, quando o Felipão ganhou a Copa de 2002, tinha Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e uns cinco jogadores excepcionais. Hoje só temos o Neymar como fora de série”, compara. “Em um passado um pouco distante, o Brasil tinha a Sissi, a Marta e várias outras atletas com poder de decisão. Hoje são poucas. A Formiga, com 41 anos, jogou 90 minutos nos três últimos jogos e nós precisamos dela. A Marta não estava na melhor de sua condição nestes últimos confrontos, mas a gente precisava dela...”

Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF, também reconheceu ao Estado que a seleção é dependente de nomes como Marta e Cristiane para brilhar, mas crê que o nível do futebol brasileiro “melhorou absurdamente” e vai evoluir mais com a obrigatoriedade recente de os clubes manterem times femininos. 

Entretanto, o dirigente admite que o Brasil não está entre os principais postulantes a conquistar o título do Mundial, apesar de o País carregar a tradição de quem foi vice-campeão da Copa de 2007 e faturou medalha de prata olímpica em Atenas-2004 e Pequim-2008.  “Não vejo como o Brasil poderia ser favorito. Favoritos são os quatro primeiros do ranking, os outros são times que estão em busca de sua oportunidade”, disse, referindo-se ao fato de as brasileiras, hoje, ocuparem o 10.º lugar na listagem da Fifa.

DUAS PERGUNTAS PARA...

Marco Aurélio Cunha, COORDENADOR DE FUTEBOL FEMININO DA CBF

1. Como você viu o fato de o Brasil ter sido derrotado nos últimos sete jogos?

Não me assusta em nada os resultados. Olhe os rivais que enfrentamos e onde jogamos. Temos de melhorar, pelo padrão elevado que a seleção tem. Tivemos convites para jogar torneios menores, mas fomos aos EUA e só encaramos seleções que estão acima do nosso ranking. Não adianta nada pegar seleções medianas e ganhar de 3 ou 4 a 0.

 

2. A CBF estuda a possibilidade de fazer mudanças na comissão técnica ou fortalecê-la visando ao Mundial?

A crítica ao trabalho que está sendo feito, apenas pela crítica, sem apresentar qualquer solução, não adianta nada. Qual seria o coelho que poderíamos tirar da cartola agora? Hoje a CBF garante todo o respaldo, financeiro e estrutural, para que a seleção feminina seja forte no cenário mundial.

 

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ANÁLISE: ‘Seleção do Vadão é uma desorganização gigantesca em campo’

Parece um “catadão” em termos táticos, embora tenha jogadoras de qualidade

Juliana Cabral, ex-jogadora e comentarista dos canais Espn, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2019 | 04h30

O cenário do futebol feminino de clubes não poderia ser melhor dentro do Brasil. O momento é muito promissor. Mas o da seleção brasileira é preocupante. Preocupa não pelos resultados. Se tivesse conteúdo em todos os momentos dos jogos, não teria problema nenhum perder as partidas. Mas, sinceramente, não consigo enxergar nada nesta atual seleção do Brasil. 

Você vê seleções com pouco tempo de história, mas que já estão melhores do que o Brasil. Consigo ver a seleção com muito talento, mas, coletivamente, eu não vejo nada no jogo do Brasil. Vejo apenas esforço físico. A seleção japonesa sem a bola, taticamente, é impressionante, e a seleção brasileira é uma desorganização gigantesca. 

Na minha visão, faltam coisas básicas ao Brasil no aspecto tático. Joga de maneira muito espaçada, muito distante entre os setores, um jeito de jogar que não dá pra acreditar.

Desde que o futebol feminino existe, sempre enfrentamos dificuldades. Sempre foi assim, mas apesar disso ganhamos duas medalhas de prata olímpicas e um vice-campeonato mundial. 

O maior investimento da seleção feminina aconteceu na era Vadão. Já na primeira passagem dele houve a criação da seleção permanente, o que nunca ocorrera antes. E nada justifica este retorno do Vadão. Com ele, a seleção disputou todos os torneios possíveis e imagináveis. E hoje temos vários clubes com categorias de base, tem o Campeonato Paulista da base. 

Não dá para concordar com o Vadão quando ele fala que não houve como treinar a seleção. Todas as outras seleções têm dificuldades, a da Inglaterra começou ontem no futebol, mas já está tendo resultados. Para mim falta trabalho. 

A Emily Lima teve uma série de derrotas e foi demitida, mas a seleção dela tinha conteúdo, sabia o que fazer em todos os momentos, com ideias de como jogar. As meninas da seleção têm condições de se superar e tenho certeza de que farão de tudo para isso no Mundial, mas a seleção do Vadão hoje parece um “catadão” em termos táticos, embora tenha jogadoras de qualidade. Também não concordo que o Brasil tenha jogado bem nestes últimos três jogos, como disse o Vadão. E não teria motivo para ele ser o técnico após a saída da Emily.

Marco Aurélio Cunha não tem história no futebol feminino, não vejo motivo para estar neste cargo na CBF. 

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