Lucas Figueiredo/ CBF
Jogadores ouvem o técnico Carlos Amadeu durante treino no Chile Lucas Figueiredo/ CBF

Seleção brasileira sub-20 luta contra novo fracasso no continente

Lanterna do Sul-Americano, time corre o risco de, pela terceira vez nas últimas quatro edições, perder vaga no Mundial

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2019 | 04h30

Rei do continente no futebol sub-20 e maior vencedor do Campeonato Sul-Americano da categoria, com 11 taças, o Brasil passou a colecionar vexames no torneio. No Chile, onde está sendo disputada a 29.ª edição, é lanterna do hexagonal final e corre sério risco de não se classificar para o Mundial – só os quatro melhores garantirão vaga. Tem mais dois jogos para evitar a tragédia: contra Equador, nesta quinta-feira, às 20h50 (de Brasília), e Argentina, no próximo domingo.

Se falhar, será a terceira vez nas últimas quatro edições que a seleção brasileira não conseguirá lugar na Copa do Mundo de juniores, cenário surreal para um país que, em 28 edições do Sul-Americano, só não foi campeão ou vice em dez oportunidades. 

Os tempos, porém, são outros. Desde 2011, quando o time de Neymar e Lucas Moura deu show no torneio sediado no Peru, o Brasil empacou na categoria, enquanto o sub-17, por outro lado, continua sobrando no continente – é o atual bicampeão e ganhou seis das últimas sete edições. Ou seja, é no último passo antes da seleção profissional que está falhando.

Mas qual seria, então, o problema? Na opinião de quem treinou a última equipe vitoriosa, há vários. "A gente sente que nos últimos anos a base teve muitos comandos, muitas trocas", diz Ney Franco, campeão sul-americano e mundial sub-20 em 2011. Desde que deixou o posto, no ano seguinte, para comandar o São Paulo, quatro nomes já assumiram a seleção: Emerson Ávila, Alexandre Gallo, Rogério Micale, além de Carlos Amadeu, o atual treinador.

Ney Franco também vê evolução nos rivais. "Há 20, 25 anos, alguns países não tinham cultura nenhuma no futebol. Na Venezuela, era o quarto, quinto esporte", diz. Os venezuelanos, atuais vice-campeões mundiais, ocupam a quarta posição no Sul-Americano, com quatro pontos, a dois de Argentina e Equador, e três atrás do Uruguai. Colômbia e Brasil têm um.

Gerações talentosas do Brasil vêm decepcionando no Sul-Americano

Mesmo que não tenha surgido um novo Neymar, gerações talentosas têm fracassado. Em 2017, por exemplo, o time que ficou em quinto no Sul-Americano contava com Richarlison, que vem sendo convocado por Tite, e Lucas Paquetá, vendido ao Milan nesta janela por € 35 milhões (R$ 146,6 milhões). Em 2015, quando se classificou ao Mundial com a última vaga, o Brasil tinha Gabigol e Malcom (hoje no Barcelona). 

Na atual disputa, as ausências de Vinicius Junior e Paulinho, vetados, respectivamente, por Real Madrid e Bayer Leverkusen (o torneio não é em data Fifa, logo, os clubes não são obrigados a liberá-los), são significativas, mas não explicam tudo. A Argentina também teve gente importante barrada (Garré, do City), assim como Colômbia (“Cucho” Hernánez, do Huesca-ESP) e Equador (Stiven Plaza, do Valladolid-ESP). 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,interacao-entre-selecoes-de-base-e-principal-no-chi

Ninguém do estafe de Tite está acompanhando a equipe sub-20 no Sul-Americano

Marcio Dolzan, Rio, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2019 | 04h32

Desde o ano passado, a seleção brasileira sub-20 vinha sendo observada mais de perto pela comissão técnica do time principal, tanto que Tite, mais de uma vez, chamou jogadores da base para participarem de treinos com o seu grupo. Isso aconteceu, inclusive, no período pré-Copa do Mundo da Rússia.

No Chile, contudo, a equipe que ocupa a lanterna do hexagonal no Campeonato Sul-Americano não tem empolgado o estafe do selecionado principal. Tite e o coordenador de seleções Edu Gaspar têm conversado por telefone com o técnico Carlos Amadeu, mas é só. Nenhum auxiliar viajou ao país para acompanhar jogos da equipe desde que o torneio começou, em 17 de janeiro. 

Enquanto isso, o auxiliar técnico Sylvinho esteve nesta quarta-feira nas tribunas do Camp Nou para observar o clássico espanhol entre Barcelona e Real Madrid, pela semifinal da Copa do Rei – além desse jogo, ele acompanhará mais sete nos próximos dias. Curiosamente, um dos personagens a serem observados no campo do Barcelona era o atacante Vinicius Junior, com quem Amadeu não pôde contar na seleção devido à recusa do time madrilenho em cedê-lo. 

O próprio Tite, além do auxiliar Cleber Xavier e analistas de desempenho da seleção, tem feito um giro pela Europa para acompanhar partidas in loco.

A falta de uma maior aproximação da cúpula da seleção principal no Sul-Americano é mais um indicativo de que o técnico Carlos Amadeu balança, e muito, no cargo. Escalado desde o ano passado para ser o comandante do Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio – isso, claro, desde que a seleção se classifique –, Amadeu dificilmente permanecerá no posto caso o fracasso se confirme no Chile.

A preocupação menor com a base talvez também tenha relação com o fato de apenas em outubro do ano passado a CBF ter anunciado um coordenador técnico específico para as divisões inferiores: o ex-lateral Branco. Até então, o cargo vinha sendo ocupado desde fevereiro de 2017 por Edu Gaspar, que, por razões óbvias, teve de se dedicar mais ao time profissional no ano passado, em virtude do Mundial da Rússia. Branco ocupou a mesma função entre 2003 e 2007.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Ney Franco: 'O Brasil não é mais o principal país das categorias de base'

Confira a análise do ex-treinador da seleção brasileira sub-20, campeão sul-americano e mundial de 2011

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2019 | 04h31

Campeão com a seleção brasileira sub-20 do Campeonato Sul-Americano e da Copa do Mundo da categoria, em 2011, o técnico Ney Franco, atualmente sem clube, fez uma análise para o Estado do momento atual vivido pelas seleções de base. Confira:

"Espero que o Brasil passe pelo Equador, depois vença a Argentina. Torço por isso, até porque o treinador que está no sub-20 é muito preparado. Mas essa campanha comprova que o Brasil não é mais o principal país das categorias de base. Continuamos revelando grandes jogadores, mas hoje outros países têm feito isso também. A competição está maior e isso só comprova que não estamos no primeiro posto nem na América do Sul.

Esta condição não se refere só à seleção. Em qualquer torneio internacional, os clubes brasileiros estão tendo dificuldades para enfrentar rivais de Venezuela, Peru, Equador. Em toda Libertadores ou Copa Sul-Americana, a gente sempre vê um grande brasileiro sendo eliminado por equipe de menor tradição. Então, é um problema geral do futebol brasileiro. A gente precisa cair na real.

Mas não acho que o sucesso ou insucesso de uma categoria de base do Brasil, seja no sub-20, sub-17, tenha relação direta com a seleção principal. São mundos diferentes, comissões técnicas e atletas diferentes. A relação maior está mesmo na preparação desses atletas para uma competição. Em alguns momentos, o treinador da sub-20 trabalhou com um time e, depois, não conseguiu levar muitos desses jogadores porque os clubes não liberaram, é uma questão mais política. As seleções de base têm poder menor nessa área. 

Enquanto não se definir um trabalho profissional em cada categoria, cada seleção com seus treinadores e comissão técnica definidos, não dá para chegar na competição e mudar tudo."

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.