Seleção brasileira tem cara 'europeia', com atletas que deixaram cedo o País

Equipe de Felipão tem pouca intimidade com torcida brasileira e já está há anos na Europa

Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S. Paulo

08 de março de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - A seleção que Felipão vai escalar para a Copa do Mundo tem mais cara de europeia do que brasileira. Essa evidência se torna cristalina diante de um rápido perfil de 32 jogadores candidatos a entrar na lista final do treinador para a disputa do Mundial. A maioria deles deixou o País quando tinha entre 18 e 21 anos. Pode se dizer que entraram criancinha na pré-escola do futebol no Brasil e tiraram o diploma na Europa.

Muito do que aprenderam veio do ensinamento de treinadores do velho continente e das práticas profissionais dos clubes que os contrataram. São brasileiros que jogam ao estilo europeu e se comportam como tal, dentro e fora de campo.

Nem mesmo identidade com a torcida do País eles têm. Se por acaso Willian, formado no Corinthians e hoje titular do Chelsea, passear a pé pela Avenida Paulista neste domingo quase ninguém vai reconhecê-lo como jogador da seleção brasileira que vai disputar a Copa. Willian deixou o Brasil quando tinha apenas 19 anos, recém-saído das categorias de base do Corinthians, para jogar no Shakhtar Donestk, da fria Ucrânia.

O seu caso não é muito diferente dos zagueiros David Luiz e Dante, do lateral Marcelo, do volante Luiz Gustavo, entre outros selecionáveis de Felipão, que saíram quase desconhecidos do País e hoje são destaques de no futebol europeu.

Diante desse quadro, cabe a pergunta: a seleção brasileira ocupada por esses jogadores com formação europeia vai levar vantagem na Copa no Brasil nos confrontos com as grandes forças da Europa?

A resposta está com especialistas do assunto. "É um ganho importante do ponto de vista tático e técnico. Esses jogadores estão acostumados a enfrentar jogadores de alto nível na Europa, sabem lidar com esse desafio. O Brasil só tem a ganhar com isso", diz Paulo Roberto Falcão que, na Copa do Mundo de 1982 na Espanha, era o único “europeu” do timaço formado por Telê Santana.

Falcão ressalta ainda que a falta de identidade deles com a torcida brasileira não deve provocar nenhum efeito negativo na Copa. "A torcida não quer saber se os nossos jogadores são ídolos aqui ou não. Ela quer torcer e ver a seleção ganhar"

Deco é outra voz de respeito sobre esse tema. Ele surgiu quando tinha 20 anos no Corinthians em 1997 e na mesma temporada foi jogar em Portugal. Construiu vitoriosa carreira na Europa, no mesmo padrão dos selecionáveis de Felipão agora. Deco diz que o Brasil com cara da Europa vai levar vantagem na Copa do Mundo.

"Se você pegar as principais seleções do mundo, elas são europeias. A maioria dos jogadores das grandes seleções joga na Europa. É lá que você tem os melhores campeonatos do mundo com os melhores jogadores do mundo. Eles já estão acostumados a se enfrentarem. E o mais importante é que jogam em alto nível sempre."

Deco também pensa como Falcão quando se discute a falta de intimidade da torcida brasileira com os jogadores “europeus” de Felipão. "Isso não interfere no desempenho do time. Antigamente o torcedor assistia menos jogos pela tevê. Agora você tem todos os jogos, dos principais campeonatos do mundo na tevê. Você vê muitas crianças com a camisa do Chelsea, Barcelona e outros grandes clubes da Europa. O torcedor acompanha os principais jogadores do mundo pela tevê. E, claro, os brasileiros também."

Até o pontapé inicial da Copa do Mundo, dia 12 de junho na Arena Corinthians em Itaquera, a vida desses eleitos de Felipão vai ser exposta ao público do Brasil. E quando a bola rolar, vai ser fácil concluir se aposta nos "brasileiros europeus" foi a melhor opção da comissão técnica da seleção. Por enquanto, tem dado certo.

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