Seleção desembarca para jogo em estádio onde futebol é raridade

Arena das Dunas compensa a falta de partidas com eventos corporativos, feiras e shows

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2016 | 05h00

Os jogadores da seleção brasileira começam a chegar neste domingo em Natal para disputar na próxima quinta-feira uma partida em estádio onde o futebol é raridade. Na Arena das Dunas, local do jogo com a Bolívia, na quinta-feira, pelas Eliminatórias da Copa, é mais comum ter evento de noivas, circo, feirões de automóvel e parque de diversões do que partidas que valham vaga no Mundial da Rússia.

A variedade de atrações na agenda é a estratégia dos gestores da arena para compensar as poucas partidas no calendário. Se levado em consideração o período desde a inauguração do local, em janeiro de 2014, o estádio de R$ 400 milhões construído para a Copa daquele ano teve somente dois jogos de Série A, a menor quantidade entre as 12 sedes. Por isso, apesar dos atrativos do Estado que recebe, pelas contas do governo, 2 milhões de turistas por ano, a visita do futebol de primeiro escalão é raríssima.

Os gestores do estádio admitem que Natal vive uma situação peculiar. "Equilibramos bastante a receita de futebol com a de outros eventos. Isso é raro. Geralmente, o futebol é majoritário", explicou o presidente da Arena das Dunas, Mauro Araújo. "A ausência de times da Série A contribui para a necessidade de que a gente ative a arena para mais eventos", disse. Nos últimos dois anos e meio, foram 150 eventos. 

Seja com o gramado fechado para shows, a área externa cedida para feirões e o auditório preparado para palestras, a administração da arena garante que a operação é viável financeiramente. Araújo explicou que como todo o trabalho do estádio é feito pelos próprios gestores, é possível lucrar com a venda de alimentos e estacionamento sem precisar contratar empresas terceirizadas.

A volta da seleção brasileira para Natal após 34 anos fez os 31,5 mil ingressos se esgotarem em menos de seis horas. A partida com a Bolívia deve ter o maior público do estádio desde a Copa de 2014. Neste ano, a Arena das Dunas recebeu 22 jogos de futebol profissional, principalmente da Série C, com sete compromissos sob mando do América-RN. Somados, os públicos chegam somente a 35 mil torcedores.

Enquanto o ABC prefere jogar no Frasqueirão, a Arena das Dunas planeja usar a seleção como vitrine para atrair mais partidas. "Diferentemente de outras arenas, temos uma operação privada. Em Cuiabá, Brasília e Manaus, por exemplo, são empresários que compram o jogo e levam para esses locais. Algumas vezes não conseguimos mais partidas por essa concorrência", disse Araújo. A meta dele é fazer Natal receber seis jogos de Série A em 2017.

CHEGADA

Os jogadores começam a chegar na tarde deste domingo à concentração, em Natal. A primeira parte dos convocados terá na maioria atletas que atuam no Brasil. O restante da equipe, principalmente quem atua na Europa, se apresenta na tarde de amanhã, pouco antes do primeiro treino, marcado para as 18h.

O primeiro dia de trabalho da equipe do técnico Tite em Natal será em atividade aberta ao público na Arena das Dunas. Os 10 mil torcedores que garantiram os bilhetes esgotaram a carga em cerca de três horas. A troca de alimentos por ingressos arrecadou dez toneladas de mantimentos.

Dos 24 convocados, os três que atuam na China devem ser os primeiros a chegar à concentração. O zagueiro Gil, o volante Paulinho e o meia Renato Augusto estão no Brasil desde o começo da semana. O trio começou a treinar na quarta-feira no CT do Palmeiras em turno contrário ao do elenco alviverde.

Os jogadores da seleção trabalharam com a supervisão do auxiliar técnico Cléber Xavier e do preparador físico Fábio Mahseredjian.

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Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2016 | 05h00

Na última – e única – visita da seleção brasileira à capital potiguar, a Copa de 1982 era a meta, a agora extinta Alemanha Oriental a adversária e o estádio em Natal conservava o nome da época da inauguração. Depois de 34 anos, longas negociações políticas viabilizaram o retorno da equipe à cidade.

A inclusão de Natal no roteiro era um planejamento antigo da CBF por dois motivos. Antes do começo das Eliminatórias a entidade buscava o Nordeste por confiar que na região a equipe teria mais apoio da torcida. Além disso, trata-se de um projeto de dar mais ocupação às arenas da Copa de 2014.

O presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol (FNF), José Vanildo, contou que desde que assumiu o cargo, há sete anos, trabalhava para levar um jogo do Brasil ao Estado. Para ter direito à oportunidade, recusou a ideia de receber nos anos anteriores a seleção olímpica para amistosos.

"Eu nunca me habilitei para ter outros modelos de jogos, para não atrapalhar nossa vontade de ter a seleção em um jogo tão importante", disse. O sonho do dirigente era ter a presença da seleção em 2016 por ser o ano do centenário dos dois principais clubes de Natal, o América-RN e o ABC.

O governador do Rio Grande do Norte, Robinson Faria, participou dos preparativos para receber a seleção, ao viajar à sede da CBF, em julho, para se reunir com a cúpula da entidade.

Aliado do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, Vanildo será ainda o chefe da delegação do Brasil nestas duas próximas rodadas. Depois da Bolívia, a equipe embarca no domingo para Mérida, na Venezuela.

Em 102 anos de história, o Brasil já jogou com a seleção principal em 21 das 27 capitais do País. Dessas por onde já passou, Natal é a que está há mais tempo sem receber partidas da equipe, desde janeiro de 1982.

Para o presidente da federação local, o problema da cidade era a falta de estádio. "Não tínhamos equipamento esportivo adequado. Talvez não fosse interesse das administrações anteriores abrigar um jogo desse porte", afirmou.

RUMO À ESPANHA

A seleção brasileira que não ganhou, mas teve campanha marcante no Mundial da Espanha, começou a se preparar para o torneio em Natal. A cidade recebeu no começo daquele ano o primeiro dos seis amistosos da equipe antes da Copa do Mundo.

No compromisso com a Alemanha Oriental, a seleção brasileira venceu de virada por 3 a 1, gols de Paulo Isidoro, Renato e Serginho Chulapa.

"Foi o período em que o Brasil começou a se acertar em campo. Gostamos muito de jogar no Nordeste naquela vez, por ter mais apoio. Jogar em São Paulo era uma desgraça. Tinha vaia antes de começar a partida", relembrou o ex-atacante Mário Sérgio, titular naquele amistoso. 

O jogo para o público de 48 mil pessoas foi no antigo estádio local, batizado naquela época ainda com o nome de inauguração. Entre 1972 e 1989, foi chamado de Castelão, até mudar para Machadão, em homenagem a um ex-presidente da FNF.

A praça esportiva foi demolida em 2011 para dar lugar à construção da Arena das Dunas, que recebeu quatro partidas do último Mundial.

 

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