Nelson Almeida/AFP
Nelson Almeida/AFP

Seleção encara a Bolívia, e Tite a 'armadilha' do favoritismo

'Esse jogo é para mostrar nossa maturidade como equipe', afirma treinador

Ciro Campos, enviado especial a Natal, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2016 | 05h00

O técnico Tite viverá contra a Bolívia nesta quinta-feira, às 21h45, em Natal, a sensação nova para ele, mas antiga para a seleção brasileira: a de ser favorito. O terceiro compromisso do treinador gaúcho no cargo lhe possibilita usufruir da tranquilidade pelas duas vitórias anteriores e, ao mesmo tempo, temer a armadilha de se acomodar com a situação aparentemente favorável.

Receber a oitava colocada nas Eliminatórias da Copa do Mundo e que jamais venceu o Brasil fora de casa é um desafio bem menos temeroso do que os dois superados recentemente. Afinal, bater o Equador em Quito e superar a Colômbia em Manaus para um estreante no cargo foram façanhas que deram a Tite grande satisfação, mais a condição de fazer com que a seleção voltasse a se sentir como grande favorita, como há tempos não se via.

As duas vitórias alçaram o Brasil do sexto ao segundo lugar, com a possibilidade de chegar à liderança, caso ganhe da Bolívia e o líder, Uruguai, não derrote a Venezuela, em Montevidéu. “Esse jogo é para mostrar nossa maturidade como equipe. Sabemos que a gente vem de bons resultados. Isso não assegura nada. Não podemos nos deixar levar por uma situação porque vencemos os dois jogos”, disse Tite.

A desconfiança pela queda na primeira fase da Copa América Centenário, em junho, deu lugar a um cenário bastante diferente na seleção para o jogo na Arena das Dunas. A torcida esgotou os 31 mil ingressos em cerca de seis horas e vive a expectativa de voltar a ver a equipe em Natal depois de 34 anos da única passagem pela cidade. 

A exigência de Tite é manter a concentração entre tantos fatores capazes de acomodar o Brasil. Detalhista, o técnico buscou vídeos da Bolívia e reuniu os jogadores para alertar sobre os lances perigosos. Nos treinos, trabalhou bastante movimentação e inversão rápida das jogadas para superar a esperada retranca adversária.

A aposta dele é na mesma base consolidada nos primeiros dias de trabalho na seleção. Gabriel Jesus será o atacante centralizado, com a companhia de Neymar pela esquerda. Na direita, estará a grande novidade, a entrada de Philippe Coutinho como substituto de Willian.

Tite confirmou a escalação no último treino antes do jogo, uma atividade tática na Arena das Dunas. O trabalho em campo reduzido repetiu as três outras alterações apresentadas no dia anterior, com as presenças de Filipe Luís, Fernandinho e Giuliano.

Outra mudança apresentada pelo treinador é o dono da tarja de capitão. No habitual rodízio que faz, a vez é de Renato Augusto, atleta de confiança de Tite desde a última passagem pelo Corinthians, quando foi campeão brasileiro ano passado. 

O meia admitiu que o favoritismo pode atrapalhar a seleção, mas entende que a confiança conquistada pelas vitórias minimiza o risco de problemas. “Já encontramos um padrão tático na seleção. Esse jogo é para mostrar nossa maturidade como equipe.”

AS ALTERAÇÕES DE TITE

Novo capitão

Tite mantém o rodízio na função. Depois de Miranda e Daniel Alves, contra a Bolívia será a vez do meia Renato Augusto.

Meio-campo

Philippe Coutinho conquistou espaço por ter entrado bem nos dois primeiros jogos sob o comando de Tite. O meia do Liverpool possibilitou bastante movimentação pelo lado direito e tomou a posição que era de Willian, agora reserva. Giuliano ganhou a vaga de Paulinho, suspenso pelo segundo cartão amarelo.

Defesa

Os lesionados Marcelo, lateral-esquerdo, e Casemiro, volante, dão espaço para Filipe Luís e Fernandinho. Este último não era convocado há seis meses.

FICHA TÉCNICA

BRASIL: Alisson; Daniel Alves, Marquinhos, Miranda e Filipe Luís; Fernandinho; P. Coutinho, Giuliano, Renato Augusto e Neymar; Gabriel Jesus. Técnico: Tite.

BOLÍVIA: Lampe; Rodriguez, Zenteno, Raldes e Bejarano; Azogue, Veizaga, Moreales, Arce e Campos; Marcelo Moreno. Técnico: Angel Hoyos.

Juiz: Wilson Lamouroux (COL).

Local: Arena das Dunas.

Horário: 21h45.

Na TV: Globo e SporTV.

 

 

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Tite: 'Quero manter o padrão dos últimos jogos'

Leia a entrevista coletiva do treinador da seleção antes do confronto contra a Bolívia

Ciro Campos, enviado especial Natal, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2016 | 05h00

Como tem sido trabalhar com o entusiasmo e o favoritismo?

É injusto isso, é um excesso de elogio. A idade me trouxe a lucidez para saber que trabalhamos em conjunto. É uma sequência de trabalho em que os atletas, a comissão e torcida dão a condição de um grande jogo. Apenas faço parte disso.

Quais qualidades pessoais lhe ajudam na seleção?

Eu tento ter qualidade, mas humanamente algo vai me fugir. Eu agradeço a Carlos Alberto Silva e a Pedro Pires de Toledo, que me ajudaram a ter essa índole. Eles me ensinaram que o futebol é igual a outras atividades, que não precisa ser malandro para se dar bem. Aprendi com eles que pode falar frente a frente, que pode dialogar. Tem que competir, elevar o nível técnico, ser legal e ter personalidade forte. Essa personalidade não é o que vem reclamar publicamente, mas quem sai da equipe, elabora internamente a dor interna e volta para treinar ainda mais forte.

Por que Giuliano como titular?

Trabalhamos no Inter e foi nessa função que ele mais rendeu. Antes ele jogava como meia mais avançado. Conversei com o Roger sobre a passagem dele pelo Grêmio e acompanhei o que ele tem feito na Rússia.

Gosta do rodízio de sedes nos jogos da seleção? Isso ajuda ou prejudica?

O campo da Arena das Dunas é um tapete. A atmosfera é boa. Esse jogo é para mostrar nossa maturidade como equipe. Sabemos que a gente vem de dois bons resultados, e isso não assegura nada. Essa Bolívia ganhou do Peri e empatou com o Chile, que era a grande equipe meses atrás. O Chile ganhou a Copa América com um futebol eficiente, eu vi do estádio. Temos que jogar em todos os locais para se acostumar com níveis de dificuldade. Há cidades críticas e outras que apoiam mais. Precisamos de maturidade para absorver isso, ficamos isentos e ir lá jogar.

Qual a sua expectativa para essa nova formação?

Quero manter o padrão e aos poucos, consolidar. Mesmo sabendo que as substituições podem custar na engrenagem, quero que produza. Se fizer o que fez no jogo com a Colômbia, não vou dormir antes das 4h da manhã, por tamanha felicidade com o desempenho.

O que muda com o Philippe Coutinho no time?

A composição para formar como quarto homem do meio-campo, para flutuar, é feita com maestria. Além das opções, mobilidade, o senso criativo. Não à toa ele é chamado de Mago no Liverpool. Ele entrou bem nos dois jogos, não só pelo cansaço dos adversários, mas pela qualidade.

Pensa em pedir para algum pendurado forçar cartão para cumprir suspensão contra a Venezuela e possa enfrentar a Argentina?

Tenho um padrão para essas perguntas. Os três pontos do Equador valem os mesmo três de uma vitória contra a Argentina. Claro que tem um peso maior, o de ser um clássico, mas o nosso objetivo é a classificação. Precisamos ser inteligentes para avaliar isso. Se tiver que tomar oito cartões, todos ficarem fora, mas ainda assim ter o melhor desempenho possível, que se faça isso.

Como resgatar jogadores que foram mal no 7 a 1? Você convocou o Fernandinho, que jogou mal naquela semifinal.

Todos nós brasileiros perdemos no 7 a 1. Eu perdi junto, a crônica brasileira também, a torcida, os diretores e todos mais. Uns mais, outros menos. O Fernandinho vem tendo um desempenho no Manchester City a ponto de ser elogiado pelo Pep Guardiola. O Edu Gaspar (gerente da CBF) conversou esses dias com o (Patrick) Vieira (ex-jogador francês) e ele elogiou demais o Fernandinho, falou que tem muita qualidade. A gente não pode crucificar em cima de uma circunstância. A mesma individualização não serve para o Thiago Silva. Ele não jogou. É uma outra etapa, um outro ciclo. Uma vida que segue.

Como falou com o Thiago Silva sobre ele ser reserva?

O conceito que faço é das minhas abordagens com as pessoas. Eu coloquei para os todos os atletas que a escalação passa pelo passado, pelo momento no clube e na posição comigo dentro da seleção. Marquinhos e Miranda jogaram muito. Isso que é coerência. 

E o que espera do público nordestino?

Temos uma forma de jogar que uma hora vai voltar ao goleiro para que encontrar a melhor saída de jogo. É um pouco da nossa forma de jogar para que a gente possa produzir bem. Não podemos nos levar por uma situação porque vencemos os dois jogos. Então, é um pedido que faço.

O lateral Wendell é do Nordeste. Ele pode jogar?

Ele é um jogador que na seleção olímpica, pelas informações do Micale, trouxe boas referências. Teve boa passagem no Grêmio, vive bom momento na Alemanha, onde todo mundo evolui muito na parte tática.

Quais mudanças você implantou na preparação física? Os jogadores que atuam na Europa vieram de voo fretado, por exemplo.

Quem vem de fora, tem fuso horário, e ficou mais barato com o voo fretado saindo da Espanha. Propiciamos descanso maior. Alguns atletas tiveram dificuldade de adaptação. A alimentação demora um tempo para voltar ao normal. Então, modificamos nossos treinos.

Por que Renato Augusto será capitão?

Ele tem uma inteligência tática acima do comum, aprendeu isso na Alemanha. É um cara autêntico.

Pensa que pode virar líder e ter ainda mais ter tranquilidade?

Nas duas últimas Eliminatórias, 54% de aproveitamento tem bastado. Acho que são uns 28, 29 pontos. Preciso ficar atento que é necessário ter um bom nível de atuação, pegar a bola e ir jogar, independente do que aconteça. Quando o resultado vem com desempenho, isso é muito forte, dá confiança.

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