Seleção no limbo

Há desencanto com a seleção brasileira, que o torcedor gaiato apelidou de “o time da CBF”. O desgaste de credibilidade da entidade que a controla contribui demais para o desânimo generalizado, assim como a pouca identificação popular da maioria dos que hoje vestem a amarelinha. Moços sérios, nascidos aqui, não menos patriotas do que você ou eu. Mas que estão distantes de nossos olhos e corações por trabalharem fora do País. Não vivem o dia a dia local, não fazem parte de papos de boteco.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 03h00

O sentimento de indiferença pode encontrar origem em constatação profunda, e desalentadora: a falta de craques. O Brasil atual só tem Neymar como fora de série, astro internacional, alguém capaz de tirar o sossego de adversários. E um Neymar só, mesmo brilhante e em ascensão, não é suficiente garantia de vitórias e sucesso. O Mundial de 2014 provou.

Mais preocupante: a equipe nacional tem qualidade inferior às das escalações de diversos clubes. Quem chamou a atenção para esse aspecto foi Paulo Soares, jornalista de arguto senso crítico. A inversão da valores é evidência de dois fenômenos: um geral, o fortalecimento de instituições que viraram multinacionais do futebol pelo poder de marketing e difusão da marca. Ganham dinheiro a rodo e investem fortunas em estrelas para sustentarem a imagem e os negócios.

O aspecto particular refere-se a fase estranha daqui mesmo. Não é de agora a escassez de brilhantes artistas da bola, que de vez em quando se reúnem para representar a nação (ou a CBF...) A última seleção de peso foi a da Copa de 2006, na Alemanha. A lista de personalidades era puxada por Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, e contava com Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Adriano, Robinho, todos então em alta na carreira.

Não era certeza de conquista - tanto que caiu nas quartas de final diante da França de Zidane e Henry. Porém, impunha temor e, na soma de valores, era superior ao Barcelona, por exemplo, que acabara de vencer a Champions. Ou ao Real Madrid, ou ao Manchester, ao Milan. A seleção congregava uma turma talentosa, esparramada por aí numa espécie de diáspora e que ganhava corpo quando estava sob o mesmo teto. Hoje, perderia para Barça, Real, Bayern.

O Brasil, ganhador ou perdedor, sempre desfilou com diversos craques. A fama que os 7 a 1 arranharam se construiu não só pelo pentacampeonato, mas pela associação entre seleção e maestros na arte de jogar futebol. Para citar de cabeça, em 82 havia Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Cerezo; em 86, os quatro primeiros; em 98, Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Taffarel, Edmundo; em 2002, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Marcos, Roberto Carlos...

Depois, murchou. Os mais apressados não pensem em culpa de Dunga. Nada disso. Já na primeira passagem dele, em 2010, a entressafra dava as caras. O pecadilho cometeu ao fechar os olhos para o jovenzinho Neymar. Mesma toada se viu com Mano Menezes. A trupe de Felipão no ano passado também padeceu de mal semelhante, no quesito quantidade de gente para desequilibrar. Em resumo, a estratégia era bola para o Neymar e seja o que Deus quiser.

Não se trata de ter time “porcaria”. Também não é isso. A seleção nunca será ruim; no máximo, mediana, pois o atleta patrício sabe jogar. Diversos destes que participarão da Copa América ostentam proezas recentes: David Luiz e Thiago Silva são campeões na França; Daniel Alves e Neymar ganharam tudo no Barça; Willian é campeão inglês e etc.

Mas craque só Neymar, e voltamos ao círculo vicioso. Dunga trata de ser generoso com o grupo; no entanto, nem ele se convenceu ao responder, anteontem, que gente como Douglas Costa, Philippe Coutinho, Willian pode dividir luzes e protagonismo com Neymar. Talvez mais adiante, tomara. Hoje, não. 

A esperança fica pra capacidade de brotarem talentos nesta terra. A seleção perambula pelo limbo, e daí vêm desapego e conformismo do torcedor, a contentar-se com brilhareco.

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