Wilton Junior/ Estadão Conteúdo
Wilton Junior/ Estadão Conteúdo

Seleção tem lugar de destaque na simbologia do ‘bolsonarismo’; leia análise

Desde as manifestações pelo impeachment em 2015 e 2016, a 'amarelinha' passou a ser associada ao 'Brasil acima de tudo, Deus acima de todos'

Alberto Bombig*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 05h00

Está longe de ser novidade a “parceria” entre os dirigentes de futebol (a popular “cartolagem”) e o poder político na América do Sul. No Brasil, a força dos clubes e da CBF em Brasília pouco variou desde a ditadura (1964-1985). Fernando Henrique Cardoso recebeu os campeões mundiais no Planalto, em 2002, Lula se empenhou pela Copa de 2014, que teve Dilma Rousseff na abertura. Não seria diferente com o capitão da reserva Jair Bolsonaro, claro.

Na simbologia do “bolsonarismo”, o futebol ocupa lugar de destaque, basta ver a coleção de camisas do presidente. Desde as manifestações pelo impeachment em 2015 e 2016, a “amarelinha” da seleção passou a ser associada ao “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Portanto, se Bolsonaro aceitar a Copa América, estará recorrendo à “paixão nacional” como colete salva-vidas em momento de mar bastante mexido na política, a quase um ano das eleições. 

A oposição e todos os demais adversários do presidente argumentam, com razão, que o momento não é propício para a realização do torneio, afinal, o novo coronavírus não dá trégua aos brasileiros. Porém, na base governista o diagnóstico é mais ou menos assim: quem detesta Bolsonaro continuará detestando com ou sem Copa América; e ainda existe a possibilidade de a competição deslanchar e a seleção encantar e anestesiar parcela considerável de nossos compatriotas. É uma aposta arriscada, mas coerente com o discurso bolsonarista e o tratamento privilegiado que a cartolagem vem recebendo do atual governo e do Congresso.

O risco da aposta reside em: 1) a Copa América pode funcionar como catalisador de novas manifestações contra o presidente; 2) o torneio atiçará a CPI da Covid e colocará cartolas sob holofotes, algo que eles temem; 3) a seleção pode ser um fiasco e ampliar a sensação de descontentamento dos brasileiros. E o vírus? Esse já circula livremente com ou sem Copa América.

*EDITOR EXECUTIVO DO ESTADÃO E COLUNISTA

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