Hélvio Romero/Estadão
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Seleções jogam demais. Basta!

Clubes do mundo inteiro precisam questionar o modelo das datas Fifa, nocivo a eles e ao torcedor

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S. Paulo

12 de outubro de 2020 | 05h00

Peru x Brasil, amanhã, em Lima, pelo menos deve dar jogo. Pois nos 5 a 0 sobre a Bolívia, na sexta-feira, o que se viu foi um treino ante um adversário desmantelado por uma crise. Teve da morte (por covid-19) do presidente da federação, o que desencadeou de guerra pelo poder à intervenção governamental, até boicotes dos clubes locais. Em campo, um time desfalcadíssimo.

Não houve motivos para elogios exagerados à seleção brasileira pela goleada sobre os bolivianos que foram a São Paulo jogar contra a equipe da CBF. E não por culpa de Tite e seus rapazes. Eles simplesmente não tiveram um adversário minimamente desafiador. Se o placar fosse um pouco maior, se Neymar não errasse um lance ali, se Firmino não perdesse uma chance acolá, nada mudaria além de um algarismo no placar, que iria para a estatística do confronto. Sem maior relevância.

A peleja em Itaquera foi a cara dessas absurdas Eliminatórias Sul-Americanas em pontos corridos, turno e returno, e em meio à pandemia. Depois da longa interrupção dos jogos, a lógica seria a divisão em dois grupos de cinco seleções, com os dois primeiros colocados de cada chave classificados como os terceiros disputando a sobrevivência no mata-mata. Ao invés de 18 partidas, o time da CBF, como os outros nove, fariam de oito a dez. E algumas dessas pelejas não aconteceriam. Se Brasil x Bolívia reserva não tivessem ido a campo sexta-feira, por exemplo, alguém sentiria falta?

A quantidade de partidas de seleções é um problema nada novo, mas crescente. Na Europa inventaram mais uma competição, a Nations League. Na América do Sul, se o vírus não impedisse, os cartolas fariam Copa América um ano sim e no outro também. Na prática, apenas a adiaram de 2020 para o ano que vem.

Na África, a Copa do continente (CAN) ocorria em janeiro, mutilando por semanas elencos de clubes que contratam, pagando caro, os melhores jogadores africanos. Passou para junho/julho, mas já voltou ao começo do ano, em meio à temporada europeia. Foi adiada de 2021 para o ano seguinte devido à pandemia. E em condições normais seguirá sendo realizada ano sim, ano não.

Passa da hora de os clubes do mundo inteiro questionarem esse modelo, nocivo a eles e ao torcedor, favorável apenas à Fifa, confederações continentais e federações nacionais. Péssimos para as agremiações que revelam os atletas, os profissionalizam, bancam salários e investem muito desde às divisões de base ao pagamento de elevadas multas rescisórias para reforçar seus elencos.

As entidades filiadas à Fifa atuam como cafetinas do futebol, convocam jogadores, os utilizam, faturam alto nesses muitos certames e devolvem profissionais lesionados. Caso do colombiano Santiago Arias, emprestado pelo Atlético de Madrid ao Bayer Leverkusen e que ficará seis meses sem jogar. Ele sofreu fratura na perna esquerda contra a Venezuela, também disputada na sexta-feira.

Azar do clube, pois a seleção da Colômbia pode convocar outro lateral-direito para o lugar dele. E as confederações fazem tudo isso sem obrigação de manter um elenco, folha de pagamento alta mensal, nada. Um negócio estupendo. Para eles, não para o futebol.

ALVIVERDE

O trabalho de Vanderlei Luxemburgo no Palmeiras gera o maior desperdício de material humano do futebol brasileiro. Trata-se de um dos melhores elencos do País, nas mãos de quem um dia foi capaz de transformar grupos de jogadores em times na acepção da palavra, mas que há tempos se mantém no mercado apenas à custa de seu passado, da boa vontade e ainda da gratidão de alguns dos que, um dia, comemoraram título que ele ajudou a conquistar.

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