Sem dinheiro, Lusa tem futuro preocupante na terceira divisão

Sem dinheiro, Lusa tem futuro preocupante na terceira divisão

Rebaixada para a terceira divisão nacional, Portuguesa tem salários atrasados e não consegue arcar com despesas mensais do clube

Rafael Fiuza, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 21h26

"O clube está quebrado". Presidente da Portuguesa, Ilídio Lico avisou dias antes do segundo rebaixamento consecutivo da equipe no Nacional que não era possível arcar com as despesas do Canindé, avaliadas em R$ 500 mil mensais, com um valor recebido entre patrocínios, bilheterias (fraca) e premiações inferior a R$ 300 mil. A Portuguesa parece viver um pesadelo sem fim, iniciado no último ano, quando a permanência confirmada na Série A do Brasileiro foi substituída por um rebaixamento fora de campo, nos tribunais, após punição pela escalação irregular do jogador Héverton.

A queda inesperada provocou uma mudança brusca no planejamento financeiro da equipe para a temporada, baseado no valor recebido pelos clubes da Série A, muito superior ao ganho dos times que disputam o acesso. A cota oferecida para a Portuguesa na última temporada, quando disputou a 1ª Divisão, foi de R$ 18 milhões/ano. Na Série C, apenas passagens de ônibus e aéreas (para distâncias acima de 700 quilômetros) serão pagas pela CBF.

CULPADOS

Com seis treinadores na temporada e um elenco inchado, com 47 jogadores, a Portuguesa não conseguiu evitar novo rebaixamento - caiu nesta terça-feira após derrota para o Oeste. O elenco inchado é um dos motivos para a grave crise financeira que assolou o clube nos últimos meses. Ilídio avisou que as despesas eram maiores que os benefícios, mas já era tarde e nada poderia ser feito. "É complicado. O torcedor quer que contrate jogadores e tem suas razões para isso, mas não podemos fazer muito desta forma", disse o presidente por telefone ao Estado.

Um dos treinadores com maior identificação com a torcida da Lusa, Vagner Benazzi apontou culpados para o segundo rebaixamento consecutivo do time. "A atual diretoria assumiu os trabalhos em situação complicada, mas colocou três outros diretores do amador que não tinham condições de estar ali. Na nossa profissão, você tem de aprender com o futebol para depois poder exercer a função. Não adianta colocar lá apenas", disse o ex-treinador, que não conseguiu vencer na curta passagem durante as oito partidas em que esteve no comando da equipe e também sofreu com salários atrasados.

FUTURO

Com um orçamento enxuto, a Portuguesa precisará organizar bem os gastos e realizar contratações certeiras. Ao menos é o que acredita torcedores e ídolos do clube. Para o ex-volante Capitão, o retorno à Série B deveria dar ao clube uma equipe mais forte. "A Portuguesa precisava de um elenco de Série A para disputar as competições. Se trouxer jogadores de um nível baixo, quem garante que a equipe sairá de lá?", disse um dos ídolo do passado glorioso do Canindé.

Torcedores da equipe também se mantêm com um pé atrás agora, mas acreditam que é possível reverter a situação. De acordo com Luiz Pecego, de 25 anos, é necessário seguir os exemplos de clubes que foram bem-sucedidos com investimentos menores. "São projetos como o do Ituano, recentemente o do Mogi Mirim, que precisam ser utilizados. O formato de um clube-empresa pode ser uma alternativa. O problema é que as duas vezes em que a equipe da Lusa apostou em um projeto semelhante com Ability e Banif não foi bem-sucedida após a saída das empresas", lembra o torcedor.

Para Basílio, campeão paulista pela Portuguesa em 1973, os ex-jogadores da Lusa devem estar à disposição do clube, principalmente neste momento complicado. "Eu sou uma pessoa que foi muito hostilizada na Portuguesa alguns anos atrás, mas no que depender de mim, vou ajudar no que for necessário para ela voltar para onde merece, já que tudo que conquistei na vida foi por causa da Portuguesa. Em um momento tão delicado como este, tenho certeza de que muitos daqueles que devem um favor para o clube vão ajudar", resumiu o ex-jogador.

JUSTIÇA DESPORTIVA

Os quatro pontos perdidos pela Portuguesa no STJD no Brasileirão de 2013 ainda geram reclamações e a atualização dos sistemas utilizados para confirmar a possibilidade de escalação de jogadores foi um dos pedidos da equipe paulista, mas sem mudanças por parte da CBF no BID ou do Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Na época, o advogado Osvaldo Sestário, que representou a equipe no julgamento do meia Hevérton, trabalhava para outros clubes, mas não avisou aos dirigentes da Portuguesa sobre a suspensão do jogador, que acabou escalado na última partida do torneio, contra o Grêmio.

De acordo com o especialista em direito desportivo, Cristiano Caús, o sistema não teve mudanças nem existe uma expectativa para que seja alterado. "Para minimizar os erros, assim que recebemos os resultados, já enviamos para todas as pessoas que fazem parte do futebol e estão interessadas no julgamento. O sistema ainda é passível de erros e por isso é necessário que os clubes tenham o máximo controle sobre a possibilidade de escalação de jogadores", avisou o advogado.

Representante da Portuguesa no tribunal durante o julgamento do caso Héverton, João Zanforlin também confirmou a ausência de mudanças no sistema utilizado pelos clubes de futebol no País, mas admitiu a publicação no STJD sobre a punição do jogador. "No caso do jogador Héverton, o resultado do julgamento foi publicado no site do STJD, assim como acontece com as outras sentenças, mesmo que ocorram às 23h", informou o advogado do Corinthians.

Se a queda para a Série C foi um reflexo da falta de estrutura financeira e política durante a competição, a substituição de Wanderson por Héverton, aos 32 minutos do 2º tempo, será sempre lembrada por torcedores e fanáticos como o início do maior pesadelo da história da Portuguesa, que ainda não acabou.

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'Tínhamos uma equipe sem condições de estar ali', afirma Benazzi

Ex-treinador confirma salários atrasados e elenco inchado, com plantel de 47 jogadores, como principais motivos para a queda

Rafael Fiuza, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 22h06

Seis técnicos passaram pela Portuguesa durante a temporada e nenhum deles conseguiu reverter a difícil situação da equipe na Série B. Nem mesmo o lendário Vagner Benazzi, na terceira passagem pelo clube do Canindé, tirou a Lusa da última colocação. Em entrevista exclusiva ao Estado, Benazzi falou sobre salários atrasados, os problemas do clube, a importância do STJD na queda da 1ª Divisão entre outros assuntos.

Você ficou sem receber nos dois últimos meses?

Não somente eu, o plantel todo. Para uns faltavam dois meses, para outros três e até quatro meses sem receber. E isso foi uma das grandes causas dos seis treinadores que passaram pelo time. Quando cheguei lá, tinha um plantel de 47 jogadores, conversamos com a diretoria, dissemos que tinha de rescindir com 15 atletas, mas não tínhamos dinheiro nem para demitir. Quando o grupo foi escolhido para as partidas, os jogadores afastados treinavam em outro horário. Só que tinham muitos e uns acabavam indo para o departamento médico e fazendo aquelas coisas de sempre para passar o tempo.

O que faltou para conseguir uma vitória na sua passagem?

Quando eu cheguei na Portuguesa faltavam três dias para fechar a janela de transferência. E a diretoria já tinha avisado que não ia investir mais. Então, contrataram jogadores que nunca tinham jogado nem na Série C. Com tudo isso, foi ficando cada vez mais difícil vencer. Tentamos conseguir isso neste um mês, mas não teve jeito. Nas outras passagens, conseguimos vitórias, acesso à série A-2. Mas não tinha como desta vez. Nós fizemos oito jogos com quatro empates e quatro derrotas, mas trabalhamos, buscamos, tentamos. O problema é que quando o jogador olha, já pensa: 'por que o treinador não manda sair o pagamento?' E realmente fica muito difícil com um plantel enorme onde 15 jogadores não tinham condições de jogar a Série B. Algo deveria ter sido feito quando chegou o segundo treinador. Agora, esperamos que o pagamento deles seja o mais rápido possível, porque, logicamente, se não der de um jeito, vai ter de ser de outro, por meio das leis trabalhistas.

Quem é o culpado pelo momento ruim vivido pela Portuguesa?

A diretoria assumiu uma situação complicada, mas colocaram três diretores do amador que não tinham condições de estar ali. No futebol, você tem de aprender com o futebol mesmo para depois poder exercer alguma função. Não adianta colocar lá apenas. É jogador que conhece jogador. É treinador que conhece treinador. Então, o treinador escolhe alguns jogadores, os diretores escolhem outros e o presidente indica outros mais. Quando está montando a equipe, precisa dar um passo para trás para poder dar certo. Os treinadores escolheram seus jogadores e foram saindo, os jogadores ficaram, sem vontade de jogar, sem conhecer a história da Portuguesa, até entrarmos nesta situação.

O que ocorreu com a Portuguesa do Paulistão para a Série B?

Não eram os mesmos jogadores nem os mesmos diretores, que vieram do amador para fortalecer o futebol e ocupar o cargo de outros diretores que saíram para resolver problemas de saúde. Tudo isso faz com que a equipe sofra. As dívidas aumentam, as famílias procuram os jogadores em busca da compra da casa, aquelas despesas naturais, e, sem receber salário, os jogadores não conseguem focar no jogo.

Qual seria a solução para sanar as dívidas do clube?

Eu acredito que formar um grupo de dez pessoas que gostam muito da Portuguesa poderia ajudar o clube a sair dessa situação. A Portuguesa nunca passou por uma situação semelhante. Nunca ficou devendo em todas as minhas passagens. Agora, eu fiquei triste, porque dois dias após minha saída, fizeram uma greve muito forte na Portuguesa, cobrando o que estão devendo. Infelizmente, isso é muito ruim. Daqui a pouco o cara que limpa o campo não vai limpar, o cara que cuida do vestiário não vai cuidar, o que acende a luz não vai acender, então isso reflete diretamente no time. Na hora do almoço, os funcionários encontram os jogadores e falam 'precisa ganhar, precisa ganhar'. E isso pressiona os jogadores. Mas a situação não é complicada somente na Portuguesa. Vários times na Série A também passam por isso. A situação ficou muito delicada depois da Copa do Mundo.

O que a Portuguesa precisa fazer para se recuperar no próximo ano?

A Portuguesa sempre teve grandes times no profissional. Precisa montar um time diferente, na parte financeira, mas bem estruturado. Tinham jogadores na Portuguesa que ganhavam R$ 6 mil, R$ 7 mil, R$ 8 mil, mas não têm condições de jogar na Portuguesa desta maneira. O jogador vai ter problemas em casa, vai ter problemas em todos os setores. Eu tentei convencer a diretoria a dar um bicho maior para os jogadores, mas não foi possível. Tem de ter o pé no chão para montar boas equipes. A Portuguesa sempre soube trabalhar e montar boas equipes. Não é vergonha nenhuma cair para a Série C. Lá na Europa, vários times grandes caíram e subiram, com estádio cheio, vibrando com a equipe. É isso que precisa fazer.

Qual a importância da decisão do STJD no último ano com os resultados da Portuguesa nesta temporada?

No caso de outros times as punições não são da mesma forma. Estão sendo liberados. Só a Portuguesa que foi punida? Não pode sair do campo como a Portuguesa saiu? Não pode, mas não pode dar uma pena como deu para a equipe e quando tem outras equipes passando por isso não são punidas da mesma forma. Tenho certeza de que ela é prejudicada neste quesito. Mas a Portuguesa vai conseguir se reerguer, principalmente se tiver Luis Iaúca na frente do time.

Quais são os seus projetos para os próximos meses?

Existe uma possibilidade de dirigir um clube da 1ª Divisão do Campeonato Brasileiro, mas nada concreto. Tenho também duas propostas para dirigir equipes da Série A do Campeonato Paulista. Mas ainda não há nada decidido. Estamos colocando no papel para ver o que é melhor e planejar bem. Se for para assumir uma equipe logo, esperamos terminar com sorriso no rosto.

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Por retorno, ídolos da Portuguesa ficam à disposição do clube

Em um dos momentos mais complicados da história, ex-jogadores Capitão e Basílio prometem ajudar Lusa a retornar à elite do futebol

Rafael Fiuza, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 21h49

"A Portuguesa era a primeira opção dos jogadores quando Palmeiras, São Paulo, Santos e Corinthians fechavam seus elencos. Era um prazer jogar pela Lusa. Agora está na 3ª Divisão. É uma grande pena. Dói. Eu fico sem palavras". Capitão é apenas um dos grandes ídolos da equipe do Canindé que sofre com o atual momento do clube dentro e fora de campo. Quando atuava, o ex-volante foi vice-campeão brasileiro em 1996 (perdeu a decisão para o Grêmio, de Felipão) e um dos jogadores que mais vestiram a camisa rubro-verde.

Outro grande ídolo da equipe, Basílio não acredita que o plantel montado neste ano era o ideal. "São vários fatores que levaram a equipe ao lugar que ela se encontra. Precisávamos de jogadores que tivessem qualidade para vestir a camisa da Portuguesa. Uma equipe que é chamada de Barcelusa não pode cair em descrédito desta forma somente após dois anos", disse o ex-jogador da Portuguesa e do Corinthians, referindo-se à temporada em que o time do Canindé emplacou uma boa sequência de vitórias.

O momento vivido pela Lusa no fim do ano passado foi lembrado por ex-jogadores. "Nós não somos leigos. Para descobrir quais foram os culpados pela entrada do Héverton é só quebrar o sigilo telefônico de algumas pessoas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Se tivesse interesse, já teríamos descoberto quem são os culpados", declarou Basílio.

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Na próxima temporada, a Portuguesa disputará o Paulistão e a 3ª Divisão do Brasileiro. Para isso, um elenco qualificado será necessário, como avisa o ex-volante Capitão. "Se trouxer um jogador de nível B ou C, quem garante que a equipe sairá de lá? Tem de contratar jogadores de Série A", disse. Os ídolos da Lusa também avisaram que estão à disposição para ajudar a equipe a retomar o caminho da elite do futebol.

"Eu sou uma pessoa que foi muito hostilizada na Portuguesa alguns anos atrás, mas no que depender de mim, vou ajudar, já que tudo que conquistei na vida foi por causa da Portuguesa", resumiu Basílio. "Em 1996, nós começamos a almoçar com os jogadores. Botar na cabeça dos mais jovens que o título entraria para história. É preciso plantar essa semente. A equipe precisa de líderes, de alguém que faça isso com os jogadores. Têm momentos em que o treinador não consegue acompanhar e precisa de alguém para chamar a atenção da equipe", entende Capitão.

CAMPANHA

A Portuguesa chega ao fundo do poço após a derrota nesta terça-feira para o Oeste por 3 a 0, em jogo válido pela 33ª rodada da Série B. Com o resultado, não há mais condições matemáticas de o time do Canindé deixar a zona de rebaixamento, portanto, está rebaixado. O time ocupa a lanterna da Segundona, com 21 pontos em 33 partidas, amargando 18 derrotas e apenas três vitórias.

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