Sem frescura, Vampeta completa um mês como presidente do Osasco Audax

Sempre irreverente, ex-jogador não tem secretária, dispensa terno e gravata e gosta mesmo de ficar à beira do gramado

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2013 | 17h00

SÃO PAULO - O prato do presidente Vampeta tem arroz branco, feijão e um pedação de cação. Ele mastiga depressa, sentado em uma das mesas simples do refeitório do Centro de Treinamento do Grêmio Osasco Audax, onde também se alimentam os jogadores de todas as categorias, do time sub-15 ao profissional. Ele está comendo sozinho. É feriado. Mas o presidente está lá.

O ex-jogador do Corinthians completou seu primeiro mês como principal cartola do Grêmio Osasco Audax, caçula da Série A-1 do Paulista. Quando o próprio Vampeta agendou a entrevista para a manhã do feriadão, até seus parceiros de gestão desconfiaram. "Você não sabia que o Vampeta era motorista do Tim Maia?", brincou Lindemberg Pessoa, amigo do ex-jogador e presidente do Grêmio Osasco, desconfiando de que ele não apareceria. "Sou homem de palavra", disse, orgulhoso, o novo dirigente, com o rosto inchado de sono.

Ele almoça sempre no clube porque faz questão de ficar perto dos jogadores (além disso, o cação estava com uma cara muito boa). Vai para o clube diariamente e lá fica entre dez da manhã e seis da tarde. Assina os documentos e cuida da sua agenda – dispensa secretária –, mas gosta mesmo é de acompanhar os treinamentos, na beira do gramado. "Não me sinto como presidente. Tenho o mesmo valor do cozinheiro ou do roupeiro. Sou mais uma pessoa tentando ajudar o clube. Sou um presidente sem glamour."

No caso, a ajuda se divide entre a ponte aérea São Paulo-Rio. Além do time paulista, Vampeta também é presidente do Audax Rio, clube da elite carioca. Mas é hora de explicar essa salada. Quando adquiriu o Audax, o Grêmio Osasco se dividiu em dois: um com seu próprio nome, na Série A-2, e outro chamado Grêmio Osasco Audax, que herdou uma vaga na Primeira Divisão paulista. No pacote, também veio o carioca Audax, que não mudou de nome.

Embora queira fazer um curso superior, provavelmente Educação Física, o presidente Vampeta não cuida do grosso da parte administrativa. É Gustavo Teixeira, dono do Grêmio Osasco, clube parceiro, quem trata de contas a pagar e a receber. "O Vampeta tem nos ajudado muito no planejamento. É inteligente e uma pessoa do bem", contou Gustavo. "Nós mastigamos para o Vampeta comer", resumiu Lindenberg, o mesmo da piada do Tim Maia.

Sempre com jeans e tênis, Vampeta é a figura carismática à frente de um projeto ambicioso da prefeitura de Osasco, que nunca teve um time na elite paulista. Ancorada na vocação histórica da cidade para o esporte – o time feminino de vôlei foi campeão mundial em 2012 –, a prefeitura cedeu o Estádio José Liberatti para os dois clubes mandarem os jogos no Paulista. Os cofres municipais vão arcar com a reforma do CT e a construção de alojamentos para 70 atletas, entre outras benesses.

Quem vai pagar a conta é o programa sócio-torcedor. A meta é usar a força dos servidores e atingir 40 mil participantes. "Vampeta é o nosso garoto-propaganda e tem força para trabalhar. Uma exceção entre os jogadores que viram dirigentes", comentou o secretário de Esportes, Tinha di Ferreira.

Clarisse Setyon, coordenadora do MBA de Marketing Esportivo da ESPM, no entanto, joga um balde de água fria no entusiasmo. "Em alguns casos, os dirigentes colocam jogadores no comando, mas mantêm o controle. O gestor tem de administrar dinheiro, marca e pessoas."

Vampeta não muda. Quase folclórico, é um sobrevivente da época em que as pessoas do futebol falavam o que pensavam, sem a mordaça dos assessores. O retrato de sua irreverência são as cambalhotas na rampa do Palácio do Planalto quando a seleção pentacampeã – na qual era reserva – foi recebida pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. "Faria de novo. Mesmo sendo presidente", riu baianamente, mostrando 30 e tantos dentes e quase deixando escapar o cação.

PENSANDO GRANDE

O Grêmio Osasco foi fundado em dezembro de 2007 e, em cinco temporadas, saltou da Quarta Divisão para a A-2. Neste ano, adquiriu o Audax, clube que era controlado pelo Pão de Açúcar e acabou de subir para a elite paulista, depois de ter revelado o ex-corintiano Paulinho. O negócio girou em torno de R$ 30 milhões, pagos para o Grupo Casino, conglomerado francês que adquiriu o Grupo Pão de Açúcar e queria se livrar do futebol. Nascia, assim, o Grêmio Osasco Audax. No pacote, veio o Audax carioca. Os dois são presididos por Vampeta. O Grêmio Osasco é presidido por Lindenberg Pessoa.

Os dois clubes (Osasco e Osasco Audax) têm como mantenedor Mário Teixeira, um dos empresários mais influentes da cidade da Grande São Paulo e membro do conselho administrativo do banco Bradesco, cuja sede está localizada na Cidade de Deus, em Osasco. Seu Mário, como é respeitosamente chamado por todos, é uma versão paulista de Roman Abramovich, bilionário russo dono do Chelsea, da Inglaterra.

Teixeira investe pesado – com recursos próprios ou convencendo empresários da região – para transformar Osasco em um polo de formação de jogadores. Seu exemplo é a cidade de Campinas, representada por Ponte Preta e Guarani. Teixeira, naturalmente, não quer rivalidade e deixou tudo em casa. Literalmente. Ele é o dono do Audax e seu filho, Gustavo Teixeira, comanda o Grêmio Osasco. Resumindo, são diferentes, mas juntos e misturados. "Um clube é do pai e outro é do filho. Não vai haver fusão. Os dois têm CNPJs diferentes", diz Gustavo Teixeira. 

NOVIDADES NO PAULISTÃO 

Além da presença do caçula Osasco Audax, o Campeonato Paulista de 2014 vários times do interior tentando recuperar prestígio. O XV de Piracicaba traz o atacante Felipe Adão, filho de Cláudio Adão, para tentar sobreviver no Grupo B, ao lado de Corinthians, Botafogo, Ituano e Audax.

O Atlético Sorocaba, que está no mesmo grupo de São Paulo, Penapolense, Linense e Comercial, tem dois reforços conhecidos dos clubes da capital: o meia Boquita, ex-Corinthians, e o atacante Lenny, que jogou no Palmeiras. O São Bernardo, que conquistou uma vaga na Copa do Brasil do ano que vem com o título da Copa Paulista, aposta na base. No elenco, 14 jogadores foram feitos em casa.

Neste ano, cada time vai realizar 15 partidas na primeira fase, jogando contra as equipes dos outros grupos. Os dois melhores de cada chave se classificarão para as quartas de final, em jogo único. Só a final será disputada em duas partidas.

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