Sérgio Neves/Estadão
Arbitragem brasileira vive dias de incertezas financeiras por conta da paralisação Sérgio Neves/Estadão

Arbitragem brasileira vive dias de incertezas financeiras por conta da paralisação Sérgio Neves/Estadão

Sem futebol, árbitros recorrem ao auxílio emergencial do governo para sobreviver

Juízes que dependem da remuneração pelo trabalho em partidas profissionais ficam sem ter como sustentar famílias durante a pandemia

Ciro Campos , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Arbitragem brasileira vive dias de incertezas financeiras por conta da paralisação Sérgio Neves/Estadão

Longe do apito, dos cartões e das partidas de futebol, o árbitro potiguar Diêgo Leonardo Santana, de 29 anos, preocupa-se desde que a pandemia do novo coronavírus paralisou o calendário de competições. Assim como ele, muitos outros árbitros que dependem exclusivamente da remuneração pelo trabalho em partidas profissionais deixaram de ganhar dinheiro e precisaram recorrer ao auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal para poder bancar as próprias despesas.

A profissão de árbitro de futebol não é regulamentada no País, mas muitos brasileiros dependem só desse trabalho para sobreviver. Segundo a Associação Nacional dos Árbitros de Futebol (Anaf), existem no país cerca de 10 mil habilitados para apitar. A própria Anaf, federações estaduais e sindicatos de árbitros consultados pela reportagem estimam que pelo menos 5 mil árbitros não exerçam regularmente outra atividade remunerada fora do futebol.

No Campeonato Potiguar, onde Diêgo Santana atua, o árbitro costuma receber cerca de R$ 1,3 mil por jogo. A remuneração é variável de acordo com a competição e pode chegar até mesmo a mais de R$ 4 mil em partidas do Campeonato Brasileiro. "Só 15 árbitros do Brasil conseguem receber uma média de R$ 25 mil por mês. Já uns 60% do total ganha até R$ 2 mil por jogo apitado", disse o presidente da Anaf, Salmo Valentim.

No caso de Diêgo Santana, o auxílio de R$ 600 recebido do governo amenizou ainda o problema de não conseguir alunos para as aulas como personal trainer. "Eu consegui remanejar algumas contas. Tenho um filho de 3 anos e negociei a mensalidade da escola. Estava quitando as prestações de uma moto, mas tive de congelar o pagamento."

Árbitro do quadro da CBF, o pernambucano Gleydson Leite, de 43 anos, foi outro a ter recorrido ao auxílio do governo. Ele chegou até apitar uma partida com os portões fechados pouco antes da paralisação pela pandemia, mas não ficou à vontade. "Pela primeira vez em 18 anos de carreira eu entrei em campo e não tinha ninguém para me xingar. O futebol faz muita falta, porque eu gosto de estar em campo. A parte financeira ficou complicada com essa pandemia", afirmou.

Outro pernambucano, Tiago Nascimento, de 38, passou dificuldades antes de conseguir receber o auxílio do governo federal. “Minha reserva financeira acabou logo, porque eu vivo de arbitragem e não tenho emprego formal. Eu contei a ajuda de alguns familiares”, contou. No ano passado ele atuou em mais de 20 jogos, principalmente nas Séries C e D do Brasileiro.

A ausência de jogos levou várias entidades ligadas ao futebol a organizarem doações na pandemia. A CBF repassou R$ 1,8 milhões para a Anaf distribuir entre mais de 4 mil árbitros federados. Em Estados como Amazonas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas as federações e sindicatos realizaram ajudas variadas, desde o adiantamento de taxas a até doações de cestas básicas.

O presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol, Paulo Sílvio, explicou que dos 130 árbitros do Estado, 86 estavam em situação delicada e sem fonte de renda. "Nós fizemos transferências com o valor mínimo de R$ 200. Ao todo vamos distribuir R$ 28 mil. O problema da pandemia é que os juízes não conseguem trabalhar nem mesmo em ligas amadoras e na várzea, que ajudam a completar o orçamento deles", afirmou.

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O problema da pandemia é que os juízes não conseguem trabalhar nem mesmo em ligas amadoras e na várzea, que ajudam a completar o orçamento
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Paulo Sílvio, Presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol

Morador de Fortaleza, Wesley Pacheco, de 26 anos, foi outro árbitro a ter recorrido ao auxílio do governo federal. "Eu costumo apitar cinco jogos por semana, seja pelo Campeonato Cearense ou jogos amadores. Com a paralisação, perdi mais da metade da minha renda."

O dinheiro não é o único problema dos árbitros com a paralisação pela pandemia. A falta de prática e a necessidade de manter a forma física causam preocupação. Por isso, as federações e a CBF têm produzido um guia de exercícios para se cumprir em casa. Outra parte do conteúdo se trata de vídeos e exercícios práticos, em que os árbitros precisam analisar e tomar decisões sobre situações de jogo e a aplicação da regra.

"Quando o calendário voltar, vamos sentir a dificuldade como se fosse o primeiro jogo do ano. Fisicamente vamos ter de recuperar o ritmo", explicou o árbitro pernambucano Tiago Nascimento. Treinos funcionais e alongamentos têm sido a maior ferramenta para manter a atividade neste período.

Em Natal, o árbitro Carlos Alberto de Berto, de 33 anos, arrumou um jeito diferente de se manter na ativa. Porteiro de um condomínio, ele abriu mão do transporte público. "Vou ao trabalho de bicicleta, então já é um exercício bom. A situação geral mudou muito para os árbitros, até mais do que em comparação aos jogadores. Nós estamos com dificuldades para treinar e para manter nossas contas em dia", explicou.

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Árbitros paulistas atuam em hospital e reforçam comércio próprio durante pandemia

A impossibilidade de receber taxas pelo trabalho em jogos leva à procura por soluções para evitar problemas financeiros

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 05h00

A paralisação do futebol causada pela pandemia do novo coronavírus levou alguns nomes da arbitragem paulista a se concentrarem nas carreiras longe dos estádios para compensar a falta de jogos. O Campeonato Estadual completa dois meses sem jogos e os cerca de 500 integrantes do quadro de arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF) têm buscado manter a rotina de treinos e compensar as perdas financeiras.

Quem tem encarado uma rotina pesada é o árbitro Humberto José Junior, de 35 anos. Ele trabalha no departamento de compras de um hospital em Valinhos, no interior do Estado. A alta demanda de pacientes infectados com a covid-19 e a necessidade de manter o estoque de suprimentos sempre em dia têm feito as jornadas de trabalho dele irem um pouco além do horário comum de expediente.

"Os profissionais que estão na linha de frente sempre nos cobram pela falta de máscaras e luvas e ainda outros equipamentos de proteção individual. Eu tenho de correr atrás disso para ajudar o hospital a ficar abastecido", disse. O último jogo dele antes da pandemia foi o encontro entre São Bernardo e Monte Azul, pela Série A-2. Para se distrair, o árbitro se dedica a alguns treinos físicos e tem procurado passar mais tempo com o filho de sete anos.

O maior receio do árbitro é que a pandemia possa prejudicar a evolução da carreira. "O Campeonato Paulista para os árbitros é o momento de mais trabalho. Nós temos o anseio de mostrar serviço e conseguir crescer. Não ter jogos atrapalha um pouco nossas finanças. Por isso é preciso a gente ter mais planejamento", contou.

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Não ter jogos atrapalha um pouco nossas finanças. Por isso é preciso a gente ter mais planejamento
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Humberto Júnior, árbitro de futebol

Segundo a FPF, vários dos árbitros e assistentes presentes nas partidas do campeonato Estadual atuam em atividades consideradas essenciais nesta pandemia do novo coronavírus, como integrantes da Polícia Militar. Quem é da arbitragem paulista e está também no quadro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) recebeu socorro financeiro da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol (Anaf). Os valores foram distribuídos de acordo com a categoria de cada um dos árbitros.

CRIATIVIDADE

A falta de verbas de jogos levou o assistente de arbitragem Risser Jarussi, de 41 anos, a ser criativo em seu empreendimento. Junto com a mulher, Samira, ele tem uma loja de moda feminina chamada Donna Borboleta, localizada em Caieiras, na região metropolitana do Estado. Por não ser um serviço considerado essencial, foi preciso achar uma solução capaz de ao mesmo tempo compensar a paralisação do futebol e de ajudar o estabelecimento a se manter de pé.

"As taxas de arbitragem são um reforço na minhas finanças, mas agora conseguimos montar um serviço de delivery de roupas e de vendas por WhatsApp e Instagram. Vamos criar um site também. Assim como todo mundo, quem é árbitro ou assistente também está precisando se reinventar nessa pandemia de alguma maneira", afirmou.

 

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