Flavio Tavares|O Tempo
Torcida invadiu o CT do Cruzeiro para cobrar os jogadores Flavio Tavares|O Tempo

Torcida invadiu o CT do Cruzeiro para cobrar os jogadores Flavio Tavares|O Tempo

Sem paciência com os times, torcidas protestam com mais violência

Com mudança cultural e Organizadas na ilegalidade, protestos e invasões se intensificam no País

Leandro Silveira , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Torcida invadiu o CT do Cruzeiro para cobrar os jogadores Flavio Tavares|O Tempo

Protestar com vaias e xingar alguns jogadores e dirigentes, além do técnico, já não basta mais para a torcida. No futebol brasileiro, a insatisfação dos seguidores com o rendimento das equipes tem ido além das arquibancadas e alcançado novos palcos, com a invasão de centro de treinamentos e até mesmo com atos hostis em aeroportos.

Foi assim nas últimas semanas, quando membros de torcidas organizadas forçaram a entrada nos CTs de Cruzeiro, Fluminense e Botafogo, clubes tradicionais que fazem campanhas decepcionantes no Brasileirão, e adotaram tom de cobrança para intimidar jogadores.

Mas também atingiu times mais bem posicionados na tabela do Nacional de 2019, como Corinthians e Palmeiras. Eles também sofreram assédio hostil recentemente. No caso do Palmeiras, ainda sob o comando de Felipão, com a exibição da faixa com a inscrição “ninguém morreu ainda” na sequência da eliminação da equipe na Copa do Brasil. Neste caso, o protesto ocorreu na avenida em frente à Academia de Futebol do clube.

Esses atos são sinais do aumento da intolerância do torcedor, como aponta Bernardo Buarque de Hollanda, professor e pesquisador da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele acredita que não houve exatamente um aumento dos protestos, mas o que define como “exacerbação” do torcedor.

Para o pesquisador, a falta de identificação entre clube, torcida e seus principais jogadores, como ocorria até os anos de 1980 com nomes como Roberto Dinamite e Reinaldo, por exemplo, faz com que as torcidas organizadas aumentem o tom das cobranças quando os resultados não são satisfatórios. 

“Há uma expectativa a partir de um ídolo que não possui histórico com o seu clube e a sua torcida, algo que vemos em Flamengo e Palmeiras, e também com a chegada do Daniel Alves no São Paulo. Você não tem mais a torcida se familiarizando com o atleta, criando laços de identificação. A torcida, então, se sente encorajada a cobrar duramente quando a expectativa não é correspondida”, entende.

Vendo-se como forças fiscalizadoras, as torcidas buscam exibir suas reivindicações em diferentes cenários, até como uma demonstração de poder e presença. “O que tem ocorrido é a tentativa de ocupação de todos os espaços pelas organizadas, entendendo que o time é uma propriedade delas por acharem que são elas que se sacrificam, vão a todos os lugares, perdem emprego e até brigam com a família pelo clube”, afirma o professor.

Não estaria, no entanto, apenas nessa mudança da identidade do futebol nacional – e mesmo da cultura – a intensificação dos protestos. Para Bernardo, a decisão de proibir a presença de organizadas nos estádios, vista por autoridades como medida para conter a violência, as leva para outros cenários, tornando inócua a iniciativa. “A proibição das organizadas está radicalizando essas torcidas, que não sumiram e estão clandestinamente nos jogos. Elas então intensificam a vigilância fora do estádio, migrando para outros espaços públicos, por exemplo”, diz, lembrando que as organizadas dos maiores clubes do Rio estão proibidas de frequentar estádios.

Para Maurício Murad, especialista em violência no futebol, as punições desse tipo não surtem os efeitos esperados. Ele aponta que o universo das torcidas envolve entre 2 milhões e 2,5 milhões de pessoas. Dentro desse grupo, aqueles que cometem atos criminosos são uma parcela pequena e que fica livre quando as sanções são coletivas. “Se eu puno todo mundo, eu não puno quem deveria ser punido de fato. É a minoria que precisa ser alcançada pela lei e não todos os torcedores”, diz.

Advogado da Associação das Torcidas Organizadas do Brasil (Anatorg), Renan Bohus alerta para outro risco da proibição das organizadas. Para ele, o ato de torná-las ilegais interrompe o contato com os clubes. E um reflexo disso seriam os protestos mais violentos. “Quando você criminaliza, não há mais diálogo com os clubes. E a torcida se torna mais incisiva. Quando não há conversa, muitos recorrem a atos de violência, como a invasão aos CTs e tudo mais”, diz.

Asfixiadas dentro dos estádios, as organizadas têm buscado outros locais para se manifestar contra a irregularidade de seus times. Se aproveitam de esquemas menos complexos de segurança – ou inexistentes – para se aproximar de jogadores em aeroportos e saída de CTs. “O monitoramento da polícia ainda é precário, informal, e aí o torcedor se sente com mais possibilidade de interagir com o atleta, fazendo algo mais truculento e intimidatório, com o uso da força física”, comenta Bernardo.

Três perguntas para...

Maurício Murad, especialista em violência no futebol, com doutorado em sociologia do esporte, e professor da UERJ

1. Quais ações a polícia deve adotar para combater e evitar os atos violentos de torcidas organizadas?

São dois tipos de ações combinadas. Uma repressiva, com aumento do policiamento nos estádios e em volta dos CTs, impedindo a entrada desses grupos. E também uma ação preventiva, nas redes sociais, onde se combinam esses atos, e com as autoridades esportivas. Não é possível que clubes abram CTs para essas pessoas. É preciso prevenção e punição esportiva e criminal, a diretores e funcionários que fazem isso, e a vândalos que tentam agredir e intimidar jogadores mesmo antes das partidas. É preciso fazer uma devassa nesses grupos, uma auditoria policial para saber como e do que eles vivem.

2. Como é possível combater os torcedores violentos dentro das próprias organizadas?

É preciso criar um disque-denúncia das torcidas. Sob sigilo e anonimato, as pessoas podem fazer denúncias. É difícil um diretor correto enfrentar esses caras. Protegido, o torcedor correto, que é a maioria, pode denunciar e permitir a ação rápida da PM.

3. Existe uma relação entre a proibição das organizadas e a realização de atos violentos?

Quando proíbo, empurro a torcida para um lado sombrio, da ilegalidade. E aí não há monitoramento, fiscalização e acompanhamento. Transgressores e criminosos continuam ativos e mudam de palco de ação.

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Projeto de lei prevê punição mais dura por atos hostis

Especialistas divergem sobre a eficácia de uma norma a respeito do assunto; medo é que torcedores procurem alternativas

Leandro Silveira, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2019 | 04h30

O ato de protestar é garantido pela Constituição Federal, mas iniciativas que provoquem tumulto, que sejam marcados pela violência, ou a incite, e tenha a invasão de locais restritos devem provocar punições mais duras aos envolvidos. E isso poderá não se restringir mais somente aos estádios, de acordo com um Projeto de Lei que pretende modificar o Estatuto do Torcedor no Brasil.

O Projeto de Lei da Câmara 12/2017, de autoria do deputado federal Andre Moura (PSC/SE), permite a punição dos torcedores ou organizadas violentas mesmo quando os atos forem praticados em datas e locais distintos aos eventos esportivos, mas motivados por eles. Isso abrange a invasão de treinos, confronto com torcedores pela cidade e outros atos de agressão contra atletas e profissionais do esporte, mesmo em seus períodos de folga. Além disso, amplia de três para cinco anos o afastamento por esses atos.

Recentemente, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou o projeto. O próximo passo será sua ida ao plenário do Senado. Se aprovado sem alterações, seguirá para a sanção do presidente Jair Bolsonaro. “Atos de hostilidade e agressão a outros torcedores e a profissionais envolvidos em eventos esportivos ocorrem também fora da data desses eventos e fisicamente distanciados dos referidos locais, sendo por isso impositivo que a norma legal tenha seu escopo ampliado para cobrir essas situações”, defendeu a senadora Leila Barros (PSB-DF), relatora do projeto.

A busca por criminalizar no âmbito esportivo atos violentos coincide com a realização de protestos em outros espaços pelas torcidas organizadas. Bohus destaca que as torcidas sempre vão tentar encontrar uma forma de se manifestar. Assim, a mudança de palco de atos de protesto é vista até como natural diante da dificuldade para a sua realização em locais mais costumeiros, como os estádios de futebol.

“A torcida não vai deixar de protestar, independentemente de onde seja. Ela vai procurar onde os jogadores estão mais vulneráveis. Se há chance de contato no aeroporto, o torcedor vai para lá, buscando caminhos alternativos”, afirma o advogado da Anatorg.

Além disso, a dinâmica de ações dos torcedores também se modificou a partir da massificação das redes sociais, algo que amplificou os debates e as reclamações, além de ampliar o contato, sem as restrições do espaço físico. Por isso, Maurício Murad, especialista em torcidas organizadas, ressalta a importância do que se faz no mundo virtual ser observado de perto pelas autoridades, até como modo de prevenção de atos violentos. Muitas torcidas marcam atos de violência pelas redes, sejam protestos ou brigas. “As redes pulverizaram o protesto, seu tipo, origem e alcance. E tem potencial de ocultar a maldade”, diz.

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