Sem renovação, futebol feminino agoniza

Às vésperas da Olimpíada de Atenas, o futebol feminino pede socorro. Não que a participação da seleção na Grécia esteja ameaçada ? o grupo comandado por Renê Simões se apresentou na segunda-feira e já definiu seu cronograma de preparação ? mas a redução no número de clubes dispostos a investir em equipes femininas e a falta de competições afeta diretamente um ponto fundamental no esporte: a revelação de atletas. E sem revelações, o futebol feminino já começa a agonizar. A constatação foi feita pelo supervisor das equipes femininas da Confederação Brasileira de Futebol, Paulo Dutra. ?Teremos em breve um Mundial Sub-19, mas não temos número suficiente de jogadoras para escalar.? A esperança do supervisor é o sucesso de uma proposta que circula no Congresso Nacional de criação de uma loteria que repassaria verbas aos clubes que mantivessem equipes femininas. Até por esta situação crítica, uma medalha de ouro na Olimpíada de Atenas ? em um ano que os homens viveram o vexame da não classificação no Pré-Olímpico ? pode ser fundamental para que o futebol feminino ganhe a valorização que jamais recebeu apesar dos resultados expressivos conquistados em um curto período de existência. Afinal, o ouro olímpico no futebol seria inédito no futebol do Brasil. ?Quando ganhamos o ouro nos Jogos Pan-Americanos, as jogadoras imaginavam como seria a repercussão no Brasil e, para decepção delas, quando voltaram perceberam que nada mudou?, disse Dutra. Renê Simões, que foi supervisor das seleções femininas da Jamaica e Trinidad e Tobago, tem uma proposta do que pode ser feito para salvar o futebol feminino. ?Poderíamos usar o modelo dos Estados Unidos e da Jamaica de estimular o esporte nas escolas e daí tirar a base para a ser aproveitada nos clubes. Mas teríamos de fazer adaptações porque somos um país de grandes dimensões.? Enquanto isso não acontece, Dutra garante que, pelo menos da parte da CBF, será feito todo o possível para o ouro seja alcançado. Contrataram o técnico Renê Simões, e estabeleceram um cronograma de trabalho, chamado ?Alquimia Olímpica: transformando sonho em ouro.? O grupo de jogadoras, dos quais um terço não tem clube, se reuniu nesta terça-feira na Granja Comary ? Milene Domingues, do Rayo Valecano, deve se apresentar nesta quarta ? e há programação de uma série de amistosos no exterior contra as principais forças do futebol mundial ? Estados Unidos, Rússia, China, Noruega e Suécia ? antes dos Jogos. Dutra diz que atualmente, a postura das jogadoras é bem mais profissional do que nos primórdios do esporte. ?A informação que recebi é de que no início, em uma época da qual não trabalhava na CBF, tínhamos um problema sério com o homossexualismo, que afetava a disciplina. Hoje, o que faz parte da vida particular das atletas não nos diz respeito, mas na Granja Comary estabelecemos regras e, até agora, as atletas as tem respeitado.? Alquimia ? Renê Simões já estabeleceu um cronograma de trabalho e diz estar preparado para trabalhar com mulheres antes. ?Tenho mulher e quatro filhas, lido com elas o dia inteiro, o que já é uma experiência e tanto.? Renê diz que o principal diferencial em relação ao trabalho que já desenvolveu com homens é a valorização do diálogo e também uma preocupação especial com as diferenças fisiológicas. Ao mesmo tempo, quer atenção com a parte emocional, por isso, incluiu uma psicóloga na delegação. ?As mulheres têm uma necessidade maior de verbalizar e quero usar isso em proveito do grupo?, diz Simões. ?Quando um homem recebe uma ordem, em geral ele não a contesta. Já mulher tem o hábito perguntar o por quê de tudo se não concorda com algo.? Simões admite que a atual convocação foi feita por Dutra, mas já tem algumas idéias. ?Quero conversar com a Sissi e ver se ela tem interesse e condições de integrar o grupo. A experiência dela seria importante.? Sobre Milene Domingues, o técnico espera rápida integração. ?Achava que ela poderia ter problemas com as outras atletas, mas soube que foi bem aceita porque passou a ser a porta-voz.?

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