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Paulo Calçade
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Sem sofrimento

Foi uma trajetória tranquila, de evolução constante durante o Campeonato Brasileiro. Apesar de todos os percalços, em nenhum momento o rendimento do Corinthians foi abalado pela saída de jogadores importantes ou pela contusão de titulares.

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

20 Novembro 2015 | 07h00

Nesses momentos, confiança é fundamental. Os jogadores compraram o discurso de Tite e acreditaram na diretoria, que passou o ano atrás de recursos para resolver pendências salariais. Em um ambiente com alguns indicadores de crise, o clube conquistou seu sexto Campeonato Brasileiro.

O treinador pode ser tecnicamente genial, mas se não tiver habilidade para gerir pessoas o time não funciona, principalmente em uma situação delicada como essa. O futebol está repleto desses exemplos. E também de “professores” irregulares tecnicamente, porém habilidosos na condução do grupo.

O ideal é combinar essas duas competências, administrar o vestiário e o campo, como Tite soube fazer muito bem até agora. Mas nem todos estão preparados, não é fácil lidar com quem não joga, no Corinthians, no Vasco ou em qualquer outra organização, seja qual for o seu gramado.

A partida em São Januário entra para a história como a “decisão” do título brasileiro de 2015, obtido três rodadas antes do encerramento do campeonato. Diferentemente de outros Brasileiros, principalmente do último, em 2011, também com Tite no comando, desta vez não houve sofrimento, só um pouquinho de emoção.

Esse é um ponto extremamente importante. É impossível desassociar o esporte do sofrimento, é inerente ao combate. O problema é quando o sofrer é irmão do malfeito, traço marcante do futebol brasileiro. É a realidade, mas não precisamos exagerar a ponto de transformá-la em norma.

É comum ouvir jogadores e torcedores de todos os clubes venerarem o sofrimento como uma necessidade que formaliza e valida o sucesso. É natural, faz parte da nossa cultura futebolística, mas há limites.

Tite trabalha para ser diferente, não somente para se destacar dos demais, mas por acreditar que existam outros caminhos consistentes e certamente mais prazerosos para o sucesso. 

Em 2014, durante seu ano sabático, tratou de melhorar, foi atrás de informações e de conhecimento. Evoluiu nas transições ofensivas, tornou o time mais incisivo, trabalhando as infiltrações de Renato Augusto e de Elias. Deu densidade e contundência ao meio de campo que ganhou o talento e os gols de Jadson. 

Quantos treinadores do alto escalão do futebol brasileiro estão dispostos a aceitar suas fragilidades, a admitir que o jogo não é estático e que precisam estudar para evoluir? Isso é raro, minha gente. A humildade fez de Tite um profissional melhor.

O grupo assimilou as ideias, exibiu futebol repleto de conceitos táticos contemporâneos nem sempre vistos por aqui.

Na partida que sacramentou o título brasileiro, havia em campo o melhor ataque, a melhor defesa, a melhor campanha em casa e fora dela. Mas nada deixa seu treinador mais feliz do que ser elogiado pela disciplina mostrada por seus comandados.

Evidentemente menos tenso do que a Libertadores, este triunfo lembra em alguns aspectos a conquista da América, pela solidez defensiva e pela dedicação ao modelo de jogo proposto. Esta não é uma vitória pessoal de Tite.

O comandante não pode ser excluído do processo nem ser o único responsável por ele. Sem bons jogadores não acontece nada, mas por uma questão de justiça é digno refletir sobre a virtude. Ela está no grupo, no todo e nunca na parte. 

A festa pode durar até domingo, até o pontapé inicial do clássico contra o São Paulo, quando começa outra decisão e provavelmente haverá volta olímpica em Itaquera com estádio lotado.

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