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Semana estranha

A luta contra os vestígios da Copa do Mundo já dura quase uma semana

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2018 | 04h00

No último domingo, pelo meio da tarde, a Copa deveria ter acabado. Uma semana depois constatamos que não acabou. Ou pelo menos não acabou de todo. Caminha para o fim lentamente. Na segunda-feira, jogos inteiros ainda viajavam dentro das nossas cabeças e lances decisivos surgiam intactos diante de nossos olhos com nitidez. 

Nos dias seguintes, notícias tímidas de nossos clubes desaparecidos começaram a se intrometer no noticiário como penetras numa festa para a qual não tinham sido convidados. Não acho que muita gente notou. Quem ainda se lembrava de Palmeiras, Corinthians, São Paulo, etc? Quem se lembrava ainda da classificação do Brasileiro? Quem era o líder?

Todo esse mundo sepultado pela Copa tentava desesperadamente mostrar que não estava morto. A luta contra os vestígios da Copa já dura quase uma semana e os times do Brasil também pouco a pouco vão aparecendo. Na quarta-feira já se viu que Corinthians e São Paulo voltaram e venceram. Mas foi só na quinta-feira que realmente alguma coisa se mexeu e as cores do Brasileiro ganharam intensidade. Para minha surpresa, já que também para mim a Copa não tinha passado inteiramente, havia público bom no Pacaembu para ver Santos e Palmeiras. Talvez esse jogo tenha sido um marco da ressurreição do futebol por aqui, mas de qualquer forma acho que ainda vai demorar para que todos se esqueçam do que aconteceu em junho/julho na Rússia. 

Pode ser que a razão seja a de que finalmente tivemos uma Copa alegre. Não nervosamente vibrante, não descontrolada emocionalmente, não competitiva até ao delírio, mas apenas alegre. Uma espécie de alegria de viver, de comemorar sem motivo, que fez com que até os temíveis hooligans se mantivessem calmos durante a competição.

É verdade que a polícia de Putin não é notável pela delicadeza, o que ajuda a tranquilidade. Mas houve mesmo alegria. Foi, acho, a primeira vez em que cinco países comemoraram ao mesmo tempo suas participações na Copa e receberam seus atletas como heróis sem dar qualquer importância à classificação obtida. Aeroportos e sisudas praças de cidades europeias multi centenárias abrigavam alegres multidões.

Essa Copa reservou surpresas até na festa de encerramento, geralmente insuportáveis. Já tinha visto alguma coisa de Brasil no meio das pessoas que se aglomeravam nas praças. A Europa já sai dessa Copa com outra cara, mais misturada, mais morena. Um povo parecido com o brasileiro começa a mostrar sua cara na Europa. Mesmo na festa de encerramento apareceu o Brasil em toda a sua alegria. Não é que, no meio de russas, creio, que dançavam freneticamente, aparece atacando um surdo o nosso Gaúcho? Sim, ele, representante máximo do nosso já longínquo futebol arte, marcava o ritmo com toda a elegância brasileira. Quem teve essa ideia provavelmente sentiu que uma Copa tão alegre não podia acabar com tristeza brasileira. E chamaram um dos únicos que podem acabar com qualquer tristeza: Gaúcho.

O episódio um pouco surrealista do Gaúcho batucando também foi típico dessa Copa diferente. Como os treinadores. Nunca tinha visto uma fauna tão bizarra, um elenco tão impressionante. Ao ver o técnico da Argentina, por exemplo, pensei que um domador aposentado de circo de periferia tinha invadido a cancha. Isso para não falar no técnico da Rússia, que dava a impressão de não saber se tinha ganho ou perdido a partida. Mas ainda acredito que quem vai fazer escola no Brasil é o britânico dos coletes. Alfaiates de São Paulo que se preparem para as encomendas. O Tite quase escapou do anedotário não fosse um tombo de desenho animado que deixou visivelmente em pânico até a comissão técnica adversária. Pena que tudo isso já esteja cada vez mais longe.

 

 

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