Rubens Chiri / São Paulo
Rubens Chiri / São Paulo

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2018 | 17h00

O Campeonato Brasileiro não é para os fracos. Literalmente. Inserido num calendário inchado, acaba beneficiando em sua reta final os times menos desgastados, o que, na prática, significa aqueles de pior desempenho ao longo da temporada. Não à toa, São Paulo e Internacional, equipes que só têm o Nacional para disputar, ocupam a liderança e a segunda colocação, respectivamente, separados por apenas um ponto (42 a 41) na tabela

Nesta semana, a discussão sobre o calendário do futebol brasileiro veio novamente à tona com a declaração de Renato Gaúcho, técnico do Grêmio: “O Internacional e o São Paulo são obrigados a brigar pelo título. Se for fazer o levantamento dessas equipes, vão jogar 50 e poucas partidas no ano todo. Veja quantas o Grêmio vai jogar! Jogamos muitas com uma equipe totalmente diferente”, reclamou o treinador gremista.

Obrigação ou não, a verdade é que os dois melhores times do Brasileirão no momento levam vantagem no aspecto físico em relação a quem precisa dividir atenções entre vários torneios. 

Só para se ter uma ideia, o Internacional, eliminado precocemente tanto do Campeonato Gaúcho (quartas de final) quanto da Copa do Brasil (quarta fase, anterior às oitavas), entrou em campo 39 vezes no ano. Vai jogar mais 18, totalizando 57. Por outro lado, o Corinthians, ainda vivo na Copa do Brasil e Libertadores, poderá fechar a temporada com 84. Isto, é claro, no melhor dos cenários – chegando a todas as finais, incluindo à de um eventual Mundial de Clubes. O Palmeiras, com 52 jogos, poderá disputar 83.

Poupar titulares não é só opção técnica

Assim, a decisão de preservar titulares está longe de ser meramente técnica. Munidos de informações do departamento médico, de fisiologistas, preparadores físicos e nutricionistas, os treinadores definem sua estratégia. 

"Questiona-se a rotatividade, mas é difícil. Jogar dois jogos por semana, quarta e domingo, é complicado? Não. Mas jogar dois jogos por semana durante dez meses, é", afirma o preparador físico do Internacional Cristiano Nunes, que já trabalhou no Japão e no futebol árabe, países onde os calendários são bem mais enxutos.

Mesmo em centros tradicionais na Europa, a agenda é menos inchada. Na última temporada, os campeões na Espanha, Inglaterra e Itália jogaram 66 (Real Madrid), 62 (Manchester City) e 58 (Juventus) vezes, respectivamente. E fazendo deslocamentos menores. 

"Uma coisa no Brasil que às vezes se ignora é a logística. As viagens são longas, você tem de atravessar o país, joga em temperaturas discrepantes... Tudo isso desgasta", relata Nunes.

Sem condição de jogar 80 vezes no ano, até mesmo os atletas, que detestam esquentar o banco de reservas, acabam aceitando o rodízio: "A gente quer estar no campo sempre, mas não adianta entrar para jogar só com 60% ou 70% das condições. Por isso o rodízio de titulares tem que acontecer. Nossa equipe está em três competições. É bom ter troca", admite o atacante palmeirense Willian.

No fim, acaba pesando até a premiação de cada torneio no planejamento: "A gente percebe que, quando têm de dar prioridade, os clubes estão pensando na competição mais rentável", admite o preparador físico do Cruzeiro, Eduardo Silva.

Entrevista com Cristiano Nunes, preparador físico do Internacional

1. O Inter será, dos times que brigam pelos principais torneios na temporada, o que menos jogará em 2018. Quanto isso poderá beneficiar a equipe do ponto de vista físico?

Temos de tirar o máximo de proveito disso. Temos condições de recuperar os jogadores, treiná-los ao longo das semanas sem jogos para que estejam em boa forma física e possam encarar o duelo seguinte como se fosse decisão.

2. Os treinadores costumam reclamar do calendário inchado. Para os preparadores físicos, trata-se de um dilema ainda maior?

Aos preparadores, não cabe ficar questionando o calendário. Ao lado da fisiologia, nutrição, departamento médico e fisioterápico, precisam encontrar soluções. É um desafio grande. Tem de estudar muito bem o calendário para que, nos momentos certos, a equipe esteja em boas condições.

3. O que é levado em conta para se decidir sobre poupar ou não jogador?

O atleta é monitorado o tempo todo. Acelerações, desacelerações, quanto correu... Analisamos o sono, a dor, se perdeu muito peso. Fazemos controle de enzimas para ver o nível de estresse. Depois, cruzamos todos esses dados.

 

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Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2018 | 17h00

A discussão sobre o calendário inchado no Brasil não é de hoje. Nos anos 90, o São Paulo iniciou a década enfileirando títulos e se desdobrando para participar de todos os campeonatos. A solução foi alternar o time titular com Raí, Zetti e companhia, treinado por Telê Santana, com uma segunda equipe formada por garotos, que ganhou o apelido de Expressinho e era dirigida por Muricy Ramalho.

Em 1993, entre amistosos, Campeonato Paulista, Copa do Brasil, Libertadores, Recopa, Brasileirão, Tereza Herrera, Ramón de Carranza, além de vários outros torneios amistosos no Chile, na Espanha e em Los Angeles (EUA), o clube disputou inacreditáveis 97 jogos entre 24 de janeiro a 12 de dezembro. Só em março, foram 17, o que dava menos de dois dias de descanso entre um e outro – algo proibido nos dias atuais, quando o intervalo mínimo a ser respeitado é de 66 horas.

No ano seguinte, a agenda não foi muito mais light – 92 partidas, o equivalente a 8.280 minutos sem os acréscimos – e gerou situações inusitadas, como a ocasião na qual o São Paulo entrou em campo duas vezes no mesmo dia. Foi em 16 de novembro, no Morumbi. Quem conta a história é o meia Juninho Paulista. Então com 20 anos, ele participou da rodada dupla. Primeiro, enfrentou o Sporting Cristal, do Peru. Depois, o Grêmio.

"Estávamos disputando a Copa Conmebol e o Brasileirão, e calhou de ter jogos no mesmo dia. Um começava às 8h da noite, o outro, às 10h. Eu era titular do Expressinho e costumava entrar nos jogos do time principal", lembra o ex-jogador, hoje dirigente do Ituano. "Quando terminou o primeiro jogo, o Telê já tinha dado a preleção do segundo. Entrei no vestiário, tomei um banho, coloquei o outro uniforme e subi de novo para o campo", relata Juninho, que começou no banco e entrou no decorrer dos dois jogos. Ele marcou um dos gols da vitória (3 a 1) sobre os peruanos, placar que o time repetiria contra o Grêmio, para 4.600 espectadores.

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Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2018 | 17h00

Enquanto os clubes da elite reclamam do calendário apertado, os pequenos clamam pelo oposto: precisam de mais partidas para não correrem o risco de passar metade do ano ociosos. Ex-zagueiro da seleção brasileira e hoje diretor de futebol da Ferroviária, Roque Júnior explica que isso interfere até no planejamento financeiro dos clubes.

"Qualquer contrato com jogador precisa ser de, no mínimo, três meses. Uma Série D, se você não se classifica à segunda fase, dura um mês e meio. Então, o clube passa metade do tempo de contrato pagando para o jogador não disputar competição", afirma.

Quem não tem Copa para disputar acaba entrando de férias já ao fim do primeiro semestre. Não é o caso da Ferroviária, atualmente competindo na Copa Paulista. Mesmo assim, a disparidade de calendário é gritante. Até aqui, a equipe de Araraquara jogou apenas 27 vezes em 2018, incluindo na conta três amistosos. Enquanto isso, o Corinthians, por exemplo, jogou ontem a 54ª no ano.

"A turma reclama do calendário hoje, tem coisas que precisam ser aprimoradas, mas melhorou muito dos anos 90 para cá", opina Juninho Paulista, que quando jogava pelo São Paulo chegou a atuar duas vezes no mesmo dia. "O ideal seriam seis jogos por mês. Mas para todos. Os pequenos não jogarem uma só por semana", diz o agora gestor de futebol do Ituano.

Ainda na visão de Roque Júnior, uma das alternativas para beneficiar os pequenos seria esticar o calendário das Séries C e D, aumentando o número de participantes e os dividindo em grupos regionais. 

 

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