Peter Powell/EFE
Peter Powell/EFE

Semifinais da Liga dos Campeões expõem abismo financeiro entre os clubes

Roma, que visita o Liverpool, é o único entre os quatro melhores da Europa a não fazer parte do grupo dos mais ricos e fortes

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2018 | 07h00

Liverpool e Roma abrem hoje na Inglaterra as semifinais da Liga dos Campeões. O time da casa não chegava nesta fase havia 10 anos; o visitante não a alcançava fazia 34 anos. Questão técnica à parte, uma vez que os italianos eliminaram o poderoso Barcelona, essa disparidade está diretamente relacionada à força financeira. Três dos quatro semifinalistas estão entre os clube mais ricos da Europa - além do Liverpool, Bayern de Munique e Real Madrid, que se enfrentam amanhã.

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Esse poderio, aliás, só cresceu nas últimas duas décadas. É o que mostra estudo inédito do Itaú BBA ao qual o Estado teve acesso. Análise das receitas dos clubes europeus feita a partir da temporada 1996/97 constata que a distância entre os mais ricos e os outros tem aumentado quando se trata de receitas. 

Nesse grupo estão, junto com os três semifinalistas atuais, Manchester United, Barcelona, Chelsea e Juventus. É fato que os "novos ricos" Manchester city e Paris Saint-Germain têm receitas respeitáveis. Mas não têm a consistência dos membros do "clube dos sete".

Mesmo porque os gigantes deram saltos consideráveis nas receitas. O Real Madrid, por exemplo, passou de 154 milhões de euros (R$ 648,3 milhões) em 1997/98 para 674 milhões de euros (R$ 2,837 bi). O Liverpool pulou de 98 milhões de euros (R$ 412,5 mi) para R$$ 424 milhões de euros (R$ 1,785 bi) nestes 20 anos.

Cesar Grafietti, superintendente de crédito do Itaú BBA e responsável pelo estudo, lista os motivos desse forte crescimento. "O primeiro aspecto foi participar de ligas (nacionais) onde os contratos de TV acabaram por impulsioná-los ainda mais. Conseguiram formar times mais fortes que os concorrentes e têm receitas comerciais (patrocínio, venda de produtos) fortes", disse.

Sua análise tem início do período imediatamente posterior à entrada em vigor da Lei Bosman, de 1995, que permitiu o livre trânsito de atletas comunitários na Europa. Com isso, os clubes de maior poder aquisitivo tiveram mais facilidade para fazer grandes contratações. 

"Ou seja, esses clubes, que já eram os maiores do ponto de vista financeiro, tornaram-se maiores do ponto de vista esportivo", constatou.

As receitas ajudaram todos os clubes em países como a Inglaterra, cujas cotas foram aumentando signifativamente com o passar dos anos. Mas, apesar disso, quem já estava na frente continuou com vantagem. "A Liga Inglesa cresce o bolo como um todo, tem uma divisão até equilibrada do ponto de vista de receitas de TV. Como esses clubes que já eram maiores saltaram na frente, todo mundo cresce junto, mas a distância continua grande, eles continuam muito fortes", afirma o  analista.

Não é o caso, porém, de outras ligas europeias. Na Espanha e na Itália, por exemplo, os grandes clubes têm grande vantagem sobre os

demais. "As ligas, especialmente a espanhola, se você tirar Barcelona e  Real Madrid, ela cresce abaixo deles", diz Grafietti. "Na verdade ela cresce muito sustentada por esses dois clubes. Foram eles que puxaram o crescimento. Isso vale para o Bayern na liga alemã. Na Itália, se você tirar o Milan por exemplo... o Milan descolou."

Mas o responsável pelo estudo observou um fenômeno na liga italiana, que foi o de não ter um grande crescimento no período enfocado. "Não se tem nenhum time que criou uma correlação, que carregou a liga como um todo. Ela foi perdendo relevância em relação às demais porque os próprios times italianos foram perdendo relevância em relação a seus pares de outros países.''

Ao final de duas décadas, a constatação é de que os ricos ficaram cada vez mais ricos e, com isso, a tendência é que estejam sempre

disputando títulos, fazendo com que os pobres (em nível europeu) sejam encarados como intrusos nas festas - como é a Roma na atual Liga dos Campeões.

O superintendente do Itaú/BBA vê um aspecto ruim neste domínio dos gigantes: a mesmice: "A Roma pode até ser campeã. Mas a chance de esses sete clubes se repetirem nas finais e nos títulos vai crescendo porque a força desses clubes só cresce’’, alerta Grafietti.

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