GABRIELA BILÓ / ESTADÃO
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Ser ou não ser Raí? O dilema do homem forte do futebol no São Paulo

Em entrevista exclusiva ao Estado, ídolo fala de como tenta não personificar o comando na sua figura, mas como ela também tem ajudado o clube a recuperar credibilidade

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2018 | 06h00

Faz pouco mais de oito meses que Raí aceitou o desafio de comandar o principal departamento do São Paulo, o de futebol. Como atleta, a carreira vitoriosa sempre caminhou numa linha paralela à da personalidade retraída do camisa 10. O que parece não ter mudado no posto de dirigente. Confrontado novamente com frases elogiosas como a de que ele e seus dois diretores mais próximos, os também ex-jogadores Ricardo Rocha e Lugano, colocaram o clube novamente nos eixos, prefere dissociar sua imagem à do super-herói tricolor: "Faço questão de não personificar".

Por outro lado, diante de declarações de reforços pontuando o peso que um telefonema seu tem para fechar uma contratação, admite: "Muitos dos empresários foram torcedores meus, acompanharam o respeito, a credibilidade, o profissionalismo que construí ao longo da carreira. Isso, sim, conta e é um ponto importante para essas decisões".

Assim, dividido entre ser só mais um na engrenagem e assumir o personagem de "Terror do Morumbi", como era chamado pelos fãs, Raí, aos 53 anos, tenta utilizar a experiência como empresário para devolver ao São Paulo o papel de protagonista dos principais campeonatos que disputa. Em entrevista exclusiva ao Estado, ele conta como pretende chegar lá: com Aguirre em 2019 e fechando a porta para a atual janela de transferências. Confira:

Passados oito meses na nova função, como analisa o trabalho da diretoria de futebol? O que enxerga de pontos positivos e de pontos negativos?

Importante dizer que são oito meses na minha nova função, mas frisar isso da diretoria de futebol, que inclui pessoas que chegaram e pessoas que já estavam mais próximas do que eu do futebol. Cito aqui o Alexandre Pássaro (gerente executivo de futebol), por exemplo, o presidente Leco, que foi diretor de futebol, já tem experiência grande nisso e, obviamente, valida todas as decisões, participa de forma ativa, as diretorias de outras áreas. A mudança de estatuto criou os diretores executivos full time no clube, especialistas nas suas áreas. A gente faz reuniões semanais. Essa integração é uma das coisas positivas. Teve decisões do futebol que foram influenciadas pelo diretor financeiro e pelo diretor administrativo, por exemplo. Por isso faço questão de não personificar. E tiveram obviamente o Lugano e o Ricardo Rocha. Tem toda uma estrutura que já existia e está sendo provocada para saber o que se pode melhorar em tudo. Essa integração é um ponto forte. O futebol, isso é algo que eu costumava dizer nas minhas palestras, é como a vida: a gente está sempre aprendendo, só de que uma forma mais intensa. Como atleta, a gente vive como alguém de uma carreira de 40 anos, mas em 15. Então é tudo mais intenso, mais dinâmico, e é um aprendizado muito grande. Por isso é legal estar sempre trabalhando com pessoas de diferentes perfis.

Vem-se dizendo que você, Lugano e Ricardo Rocha são os responsáveis por colocar o São Paulo novamente nos eixos. Acha que a avaliação seria tão positiva se, em campo, a equipe não estivesse correspondendo?

Isso, a gente nunca vai saber (risos). O futebol tem isso, né, o resultado ajuda o trabalho e a perspectiva que as pessoas têm de fora sobre o trabalho. E o trabalho que é feito ajuda o resultado. É uma relação direta, e uma vai alimentando a outra. A gente poderia estar, em vez de primeiro (lugar no Campeonato Brasileiro), por uma circunstância ou outra de jogo, em terceiro, talvez teriam outra perspectiva. Mas é difícil analisar o que puxa o quê. Esse é um trabalho diário. E isso do futebol ser mais dinâmico, é exatamente isso: você precisa estar sempre repensando, se questionando, reavaliando, na maior parte das vezes duas vezes por semana, que são os jogos. Às vezes, existe essa tendência que eu tento quebrar: eu sou um ídolo do clube, o Ricardo Rocha foi do São Paulo e do futebol, o Lugano... são pessoas que têm visibilidade maior e acabam ficando na cabeça da opinião pública. Mas gostaria de frisar: por exemplo, o Alexandre Pássaro tem tanta importância quanto a gente, só que as pessoas conhecem menos. Então por sermos pessoas públicas dá uma falsa impressão à opinião pública. É um trabalho de todo um conjunto. Isso foi sendo construído.

Comenta-se do interesse da federação uruguaia de ter o Aguirre trabalhando pela seleção. Você já conversou pessoalmente sobre renovação?

Eles (referindo-se à comissão técnica) fazem questão de dizer assim: estão muito felizes de estar aqui, muito contentes, e isso já demonstra uma predisposição a ter uma continuidade, que é obviamente a nossa vontade. Já existiram contatos informais, não existiu nenhuma proposta até porque não evoluiu para isso ainda. Ele não fala nada de sair, da seleção, não é uma preocupação agora. A gente deixa claro o nosso interesse e ele deixou claro que está feliz aqui, quer deixar para ir conversando pouco a pouco. 

Por que se fez um contrato curto com ele? Foi opção dele, do São Paulo?

Sempre que sai um treinador, é um trauma para a instituição (referindo-se à saída de Dorival Júnior, demitido em março). E a gente propôs (ao Aguirre) até o final do ano, e ele não contrapôs outra data, foi algo natural. Vamos fazer até o final do ano, a gente vai analisando e sentindo. Eu fiz questão de dizer: a gente não pode parar esse trabalho no meio do ano. Isso, ele concordou e está honrando a palavra dele.

Isso você colocou no primeiro contato com ele?

Isso, no primeiro contato. 'Não quero ter nem 5% de chances de você sair em julho ou agosto'. E ele: 'não, dou minha palavra'. Para mim, não precisou mais até porque, pelo pouco que eu conhecia dele, já confiava.

E na sua cabeça e na do São Paulo, o Aguirre é o nome para 2019?

O Aguirre está fazendo um trabalho excepcional, então não tem por que (mudar). Ele está fazendo um trabalho excepcional e sabe que esse trabalho é o dia a dia. Do início, a gente já pensava em ter uma continuidade, até por filosofia de trabalho, com a mesma comissão por alguns anos. E o que está acontecendo na prática só nos dá mais certeza de que é o caminho.

Falando em filosofia do trabalho, no ano passado o São Paulo se desfez de vários jogadores importantes no decorrer da temporada. Neste ano, vocês mantiveram o elenco porque bateram o pé e decidiram não vender ninguém, ou foi mais uma razão circunstancial, de não terem surgido propostas tão atraentes?

Diria que mais por filosofia, mas reconheço que houve menos propostas tentadoras do que no ano passado. Mas pela filosofia comprada pelo presidente, pela diretoria, a gente foi montando a equipe. Tivemos saída do Pratto, do Hernanes, que não dependiam da gente. Fomos formando um grupo e quando formos ver, (havia um) o núcelo duro que não queríamos mexer e só agregar. Existia uma mobilização de todo o clube para trazer o Everton, sabia-se que era um esforço grande financeiro. Trouxemos algumas peças para qualificar esse núcleo duro e não mexer nisso. E mesmo assim sabia que tinham outras peças que poderiam sair, mas que não afetariam a qualidade do grupo. Por exemplo, o Militão. Se ele tivesse contrato até dezembro de 2019, poderia chegar uma proposta de 15 milhões na mesma época, que a gente não venderia.

Alguns jogadores, como Everton Felipe e Bruno Peres, têm citado o peso que uma ligação sua possui durante uma negociação. Dá para ser tão decisivo como dirigente quanto foi como jogador do São Paulo? 

Não, acho que se pudesse fazer uma comparação com a época de jogador, citaria mais a questão agregadora, de ser uma liderança positiva que sabe ouvir, pegar diferentes opiniões. Agora, ser tão decisivo como atleta não dá para ter essa comparação. É uma outra situação, outro posto que ocupo, que tem um peso, mas obviamente a instituição é o peso maior para alguém vir para cá. Mas, por exemplo, muitos dos empresários foram torcedores meus, acompanharam o respeito, a credibilidade, o profissionalismo que construí ao longo da carreira. Isso, sim, conta e é um ponto importante para essas decisões. Isso teve uma mudança, e repito, isso é toda uma filosofia de trabalho: hoje a gente percebe mais atletas ainda querendo estar no São Paulo.

Isso foi algo que você frisou ao assumir, de querer fazer os jogadores voltarem a sentir vontade de defender o São Paulo...

Tiveram alguns exemplos simbólicos de atletas importantes que preferiram não vir para o São Paulo ou preferiram deixar o São Paulo Acho que isso teve um movimento contrário que vem junto com a chegada de mais gente, de sentir que o clima está legal, o resultado também, toda essa junção.

O Diego Souza foi o seu golaço como diretor de futebol até aqui, pensando que ele quase saiu e você foi importante na decisão dele de ficar?

Acho que a maneira como foi feito, tive um papel importante, mas não fui só eu. Houve um movimento no clube para que isso acontecesse e desse certo. E ele. Mesmo não tão adaptado, no melhor da sua forma, sempre foi um cara sério, cumprindo suas obrigações. A gente não sabia até que ponto como ele estava, se era adaptação, então acho que nisso tive uma participação importante. Prefiro botar na gestão, e não no meu golaço. O Diego se transformou não só num atleta, mas em uma liderança importante. Então ganhou ainda mais amplitude.

Você enxerga alguém do elenco com características de liderança parecidas com as suas da época de jogador? Talvez o próprio Diego Souza?

É, eu nunca pensei nisso. O Diego fala mais do que aparenta. Ele é mais comunicador, centraliza o papo na mesa depois das refeições, é muito mais extrovertido do que aparenta. O Hudson, o Anderson Martins, acho que sou mais parecido com esses.

 

Você já havia trabalhado como dirigente por três meses, em 2002. Primeiro, o que mudou na sua cabeça como gestor e, segundo, acha que houve uma evolução na gestão do futebol no Brasil?

Bom, primeiro que tem a maturidade, que sempre acaba ajudando, outras experiências que eu tive. Acredito que existe um movimento que está muito mais explícito por uma mudança de gestão. Eu cito o estatuto do São Paulo, o pós-2014, por exemplo, a preocupação das federações e confederaçoes, a CBF, criando cursos de treinador, tentando ter uma gestão um pouco mais profissional. Então esse movimento está mais evidente nesses ultimos anos porque não há espaço para continuar da mesma maneira, Obviamente que falta muito, mas sem dúvida nesses últimos anos teve uma mudança. O país tem outra realidade, a questão de se responsabilizar a gestão do futebol, assim como existe em outras áreas. A gente espera muito, mas ainda é apenas o começo.

O São Paulo é favorito ao título brasileiro de 2018?

O São Paulo vem forte e voltou ainda mais forte depois da Copa do Mundo porque está trabalhando muito, pensando nos detalhes, não existe euforia aqui. A maior força do grupo está sendo a disciplina e a entrega. Enquanto mantivermos isso, seremos um pretendente ao título. Mas falta mais da metade do campeonato. Estamos vendo movimento de muitos times, alguns caindo, outros crescendo. Então daqui até o final do ano tem uma eternidade.

Ainda tem bastante tempo até o fechamento da janela. Preocupa você, especialmente pela evidência que o elenco vem tendo como líder?

Não, não, não. Porque está sendo muito dicsutido o que pode ou não ser feito, a filosofia de manter grande parte de tudo que está aí, com bons resultados, então isso não preocupa.

Então você pode garantir que os principais jogadores desse elenco não saem?

Não, garantir... Pode chegar uma proposta de 50 milhões por alguém... o Barcelona garantia que o Neymar não sairia, e saiu. Mas muito dificilmente alguma coisa vai acontecer nesse sentido.

 
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